Inofensivo para a maioria da população, o glúten, quando ingerido por celíacos, provoca um turbilhão de reações no organismo. Assim que detectada pelas células de defesa do intestino delgado, essa proteína coloca o sistema imunológico de prontidão, como se o corpo tivesse sido invadido por um inimigo perigosíssimo. Em consequência, o paciente tem sintomas como diarreia crônica, vômitos, fraqueza e inchaço abdominal, entre outros. Com a capacidade de absorção de nutrientes reduzida, ele fica anêmico e, com o tempo, mais suscetível ao desenvolvimento de linfomas.

Assim como outras doenças autoimunes — aquelas nas quais o organismo passa a se autoatacar —, a celíaca depende da interação entre predisposição genética e fatores ambientais. Entre estes últimos, é possível que se incluam vírus muito comuns, os reovírus, de acordo com um estudo publicado na edição desta semana da revista Science. Os autores do trabalho sugerem que esses micro-organismos extremamente frequentes, e geralmente inócuos, provocam a resposta imunológica na presença dos genes associados à doença. De acordo com eles, a descoberta pode, um dia, auxiliar no desenvolvimento de vacinas preventivas.

“Esta não é a primeira vez que um artigo avalia a possibilidade de vírus terem relação com doenças autoimunes”, explica a nutricionista Carolina Sartori, que conhece bem o problema, não só como profissional, mas por ser celíaca. Na década de 1990, a hipótese já havia sido levantada, sendo reforçada nos anos seguintes. Carolina esclarece que, desde então, cientistas apresentaram evidências (ainda não comprovadas) do envolvimento do vírus da herpes, o epstein-barr, e da hepatite C na doença. “A diferença é que, agora, se fala em reovírus. Além disso, embora feito com cobaias, o estudo é interessante porque utiliza genes humanos”, ressalta a nutricionista clínica.

Bana Jabri, professora de ciências biomédicas do Centro de Doenças Celíacas da Universidade de Washington (EUA) e principal autora do artigo, diz que o trabalho mostra que um vírus assintomático pode, ainda assim, provocar danos ao sistema imunológico e deflagrar um distúrbio autoimune. Ela esclarece, porém, que isso não significa que qualquer pessoa infectada desenvolverá o problema. “Tem de se levar em consideração o vírus específico e seus genes, a interação entre o micro-organismo e o seu hospedeiro, além do estado geral de saúde do hospedeiro”, destaca.

Forte evidência

No estudo, a equipe de Jabri modificou ratos geneticamente para que portassem duas versões de um gene que, em humanos, estão associadas à doença celíaca. “Ter esses alelos não quer dizer que a pessoa será celíaca, é possível ter os genes e eles nunca se expressarem”, diz Carolina Satori. Para verificar se os reovírus são capazes de interagir com os genes e, na presença do glúten, deflagrar a doença, os cientistas infectaram o intestino delgado dos animais com duas cepas do micro-organismo, sendo que, naturalmente, uma delas não costuma infectar esse órgão. Os ratos que haviam sido expostos ao glúten anteriormente tiveram uma reação imunológica exagerada, quando o reovírus T1L começou a circular no organismo. Esse superataque das células de defesa não aconteceu no caso do T3D, o micro-organismo que não costuma entrar no intestino.

Segundo Jabri, a pesquisa oferece evidências sólidas de que a infecção por reovírus pode ser o gatilho do desenvolvimento da doença celíaca. Ela explica que, nos Estados Unidos, por exemplo, os bebês recebem os primeiros alimentos sólidos (que, geralmente, contêm glúten) aos 6 meses de idade. “Crianças com o sistema imunológico imaturo são mais suscetíveis a infecções virais nesse estágio e, para aquelas predispostas geneticamente, a combinação da infecção intestinal com a primeira exposição ao glúten pode criar as condições para o desenvolvimento da doença”, explica.

A cientista acredita que, quando mais estudos confirmarem a descoberta, será possível começar a pensar em uma vacina para crianças com o fator de risco para a enfermidade, que, no caso, é a presença dos alelos. Jabri destaca que, atualmente, não há nada para prevenir nem curar uma doença que, provavelmente, é subdiagnosticada. A única forma de lidar com ela é adaptar a alimentação.

Novo cardápio

É o que faz a advogada e professora na Ana Claudia Peixoto de Melo Oliveira, 36 anos. Ela precisou mudar radicalmente o cardápio quando, há cinco anos, recebeu o diagnóstico da doença. Desde criança, tinha diarreia crônica, problema que melhorou na adolescência. Por volta dos 25 anos, porém, as crises retornaram, ainda mais graves. Além disso, ela sofria com inchaço abdominal e alergias na pele que nenhum dermatologista conseguia desvendar. Ao fazer uma bateria de testes para saber se era intolerante à lactose, acabou descobrindo que o problema, na verdade, era o glúten. A biópsia do duodeno confirmou que Ana Claudia é celíaca.

Durante uma semana, ela fez uma dieta líquida, seguida pela readaptação do cardápio. A advogada não pode consumir nada que contenha a substância, mesmo que sejam pequenos traços de contaminação. “De vez em quando, eu não resisto e acabo comendo pizza. Tento ficar só no recheio, mas, mesmo assim, por causa da contaminação, passo muito mal. Quando você come o que não pode, tem de recomeçar do zero. É muito difícil, principalmente na hora de sair com amigos. Nesses casos, eu já vou com alguma comida pronta”, diz.

Fonte: Paloma Oliveto/CorreioBraziliense