Este ano o cirurgião Mauro Sefer caiu na malha fina. Foi chamado pela Receita Federal para justificar o livro caixa de seu consultório, o registro de todos os recebimentos e pagamentos efetuados. O leão desconfiou que o consultório vinha aumentando artificialmente despesas e diminuindo receita. Sem dificuldades, o médico comprovou o que havia declarado: realmente estava no prejuízo.“Isso ocorre pela remuneração dos planos de saúde, que pagam um valor insignificante que não cobre as despesas médicas. Por isso, deixei de atender planos da Abramge”, disse o médico, referindo-se aos filiados à Associação Brasileira de Medicina de Grupo, que tem a maior parte dos clientes, com 34% do mercado.

Mauro Sefer não é o único a tomar essa decisão. Entidades representativas dos profissionais de saúde, a exemplo do Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), vêm registrando cada vez mais casos como este. “O mercado está mais favorável para o médico que vai para o serviço público e hospitais particulares. Muitos médicos novos não querem mais saber de planos. Atendem só particular. Por isso falta pediatras, que estão em pé-de-guerra com os planos. Eles querem R$ 80 por consulta e as empresas não passam de R$ 45 ”, diz o presidente da Comissão de Honorários Médicos do Simepe, Mário Fernando Lins.

As entidades representativas dos usuários de planos de saúde também confirmam a dificuldade. “Alguns planos não têm anestesistas. O cliente tem de pagar particular, pois a empresa não está credenciada à Cooperativa dos Anestesistas. Outros não dispõem de pediatras e obstetras no período da madrugada. Caso o parto aconteça neste horário, é necessário que o hospital tenha um pediatra de plantão, senão a mãe terá de pagar particular. Os pediatras não querem sair de casa de madrugada para receber menos de R$ 40”, resume a presidente da Associação de Defesa dos Usuários de Planos de Saúde (Aduseps), René Patriota.

Nem Sindicato dos Médicos, Agência Nacional de Saúde (ANS) ou Abramge possuem números que comprovem o que os profissionais e clientes do setor vem percebendo. Mas o posicionamento da Abramge, neste caso, é até parecido com o que diz o Sindicato dos Médicos. Os profissionais preferem ir para a rede própria dos planos em vez de se credenciarem. Os médicos hoje estão indo para os hospitais. É caro manter um consultório com as exigências sanitárias de hoje. Mas não dá para a operadora bancar todos esses custos, pois o preço vai para o consumidor”, diz o dirigente da Abramge, Flávio Wanderley.

Fonte: JC