Produtos, avaliados em mais de R$ 1 milhão, perderam validade sem chegar a unidades de saúde, segundo atual administração. Gestão afastada nega ter comprado material.

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) abriu dois procedimentos para investigar a denúncia feita pela prefeitura de Camaragibe, no Grande Recife, sobre o desperdício de mais de 50 mil medicamentos e insumos hospitalares encontrados fora de validade. O material, avaliado em mais de R$ 1 milhão, estava no depósito da Secretaria de Saúde e estragou sem chegar aos postos e hospitais. (Veja vídeo)

A denúncia foi feita na segunda (8), pela atual administração da cidade, que assumiu em junho deste ano por 180 dias, após prisão de prefeito afastado Demóstenes Meira (PTB). Ele é suspeito de corrupção e lavagem de dinheiro. A gestão afastada negou ter comprado o material.

A Promotoria do Patrimônio Público da cidade quer saber se houve desperdício de dinheiro público e quem são os responsáveis. O ex-secretário de Saúde de Camaragibe, Luiz David Meira, se pronunciou por meio de nota sobre o caso.

Luiz é irmão do prefeito afastado Demóstenes Meira. O ex-secretário disse que “repudia veementemente as acusações da atual gestão”, chefiada por Nadegi Queiroz (DC), vice-prefeita que rompeu com o ex-titular em janeiro de 2017.

Luiz David Meira alegou também que os medicamentos vencidos, bem como os soros fisiológicos, não foram comprados na gestão dele. David informou, ainda, que considera a denúncia feita pela atual gestão “infeliz, descabida e caluniosa”, com o intuito de “tirar proveito político e manchar a imagem de Demóstenes Meira.”

Segundo o atual secretário de Saúde de Camaragibe, Arnon Nascimento, a prefeitura espera resolver os problemas de estoque de medicamentos em junho. Sobre as acusações da gestão anterior, Arnon informou que um relatório vai ser repassado ao MPPE.

“Temos notas fiscais com os materiais todos vencidos. Não existe perseguição política. A realidade é a que foi encontrada aqui. Os medicamentos todos vencidos, com comprovação de notas fiscais. Estamos preparando um relatório dos medicamentos com validade vencida para entregar ao Ministério Público”, diz Arnon.

A TV Globo voltou ao depósito onde estão os medicamentos vencidos e pediu à prefeitura as notas de compras dos remédios. Muitos deles foram comprados há quase dois anos, mas nunca chegaram aos pacientes.

Um dos exemplos é de uma compra de Adrenalina, do lote D031/17. A nota fiscal mostra que a compra foi feita no dia 8 de agosto de 2017, no primeiro ano da gestão de Demóstenes Meira. O valor é de R$ 86.181. O material estragou no depósito da prefeitura, sem chegar a nenhum hospital. Há dezenas de ampolas vencidas.

Outro exemplo, na mesma nota fiscal de 2017, é o do soro fisiológico de lote 17030440. No mesmo depósito, mais de 30 caixas do material estavam fora da data de validade, no estoque da secretaria.

Prejudicados
A aposentada Maria Silva, de 72 anos, é uma das prejudicadas pela falta de insumos em Camaragibe. Por causa de um problema nas pernas, ela precisa, diariamente, fazer curativos. O material para os procedimentos, no entanto, ela não tem.

“Sou inscrita no posto, mas não tem material nenhum, para nada. Faço meus curativos, porque um me doa uma coisa, outro me doa outra. Agora, mesmo, não tenho mais gaze nem nada. No posto, me dão um pacotinho que não dá nem para metade, porque meu problema é nas duas pernas. Se não fizer curativo, fica podre e posso perder a perna”, diz.

A situação é compartilhada pelo servente de pedreiro Pedro de Andrade, que afirma não receber há dois anos os remédios de que precisa para dormir.

“Já procurei em todos esses postos e não encontrei. Faz dois anos que não recebo. Na televisão, vi meu remédio indo para o lixo. Estava lá, na caixa. Eu fiquei pensando ‘poxa, tanto remédio entocado nos depósitos’. É uma pena, a gente não pode fazer nada”, declara Pedro.

Remédios vencidos
Os produtos, segundo a administração atual de Camaragibe, foram localizados na Central de Abastecimento Farmacêutico (CAF), ligada à Secretaria Municipal de Saúde. Os lotes expirados estão em dezenas de caixas, no prédio da CAF, no Bairro Novo do Carmelo.

Enquanto produtos deixaram de ser usados e venceram nas caixas, os postos e as unidades de saúde enfrentam o desabastecimento. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, os débitos da pasta chegam a R$ 3 milhões.

Este é mais um problema registrado pela atual administração da cidade. Na quinta-feira (4), a prefeita interina, que rompeu com Meira em janeiro de 2017, informou que demitiu 410 funcionários que trabalhavam na gestão do prefeito que está preso.

Eles fazem parte da lista 260 comissionados e 150 contratados, que, segundo ela, não foram identificados durante uma auditoria feita no município.

Polêmicas
Demóstenes Meira e outras quatro pessoas foram presos pela segunda fase da Operação Harpalo, da Polícia Civil, que investiga o superfaturamento de contratos na prefeitura de Camaragibe. A primeira fase foi deflagrada em março de 2019. (Veja vídeo acima)

O rombo pode chegar a R$ 60 milhões, segundo o Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) e a Polícia Civil. Além de Meira, a noiva dele, a cantora Taty Dantas, que era secretária de Assistência Social do município, é investigada. Ela e mais 18 secretários e chefes de órgãos foram exonerados.

Após a deflagração da primeira fase, a delegada Jéssica Ramos, responsável pelas investigações, afirmou que dois funcionários públicos haviam sido ameaçados a mando de Meira por “saberem demais”.

No dia 25 de junho, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido de habeas corpus (liberdade) ao prefeito.

Meira e Taty Dantas se envolveram em uma polêmica após a divulgação de um áudio gravado pelo prefeito afastado, exigindo a presença de servidores comissionados em um show da cantora, na semana pré-carnavalesca.

Na mensagem de voz encaminhada para grupos de WhatsApp, ele disse que iria filmar e contar quantos funcionários foram à festa.

Veja íntegra da nota da gestão anterior
A gestão municipal afastada de Camaragibe, por meio da ex-assessoria jurídica da Secretaria de Saúde, repudia veementemente as informações da prefeita interina, Nadegi Queiroz. As mesmas foram repassadas de forma temerária, leviana e caluniosa, a respeito do suposto descarte de “R$ 1 milhão em medicamentos e insumos hospitalares vencidos”.

De acordo com a Diretoria da Central de Abastecimento Farmacêutica de Camaragibe (CAF), não existia nenhum medicamento vencido adquirido na gestão do prefeito afastado Meira, tampouco soros fisiológicos.

Vale ressaltar, ainda, que todo o controle do estoque, da distribuição de medicamentos e do gerenciamento, sempre foi realizado pelo Sistema Horus do Ministério da Saúde.

Sendo assim, a gestão anterior considera a denúncia infeliz, descabida e caluniosa feita pela gestora interina. Tudo isso não passa de uma caça oportunista, indiscriminada, odiosa e recheada de “factoides” com intuito de tirar proveito político e macular, mais uma vez, a gestão Meira.

Fonte: G1