PARTO DESUMANO Em defesa das gestantes e bebês na rede pública, Sindicato dos Médicos denuncia falta de estrutura das maternidades

A superlotação nas maternidades de Pernambuco tem transformado cadeiras de acompanhante e ambulância em leitos para as mulheres darem à luz um bebê. É uma ameaça ao direito de nascer com dignidade, em ambiente seguro com instalações bem equipadas e com equipes profissionais sem sobrecarga de trabalho. A denúncia é do Sindicatos dos Médicos de Pernambuco (Simepe), que está em campanha pelas vidas de gestantes e recém-nascidos nas unidades da rede pública do Estado.

Do interior à capital pernambucana, segundo o órgão de classe, são necessárias melhorias urgentes na assistência materno-infantil, que tem sofrido com problemas graves nos serviços de risco habitual (atendem casos em que mãe e filho não apresentam problema de saúde) e nas maternidades de alto risco – aquelas que recebem gestante com possibilidade ter parto prematuro ou de ter complicações decorrentes de alguma doença, como diabetes ou hipertensão. “A taxa geral de ocupação das maternidades do Estado chega a 200%, mas se isolarmos por serviço, esse índice chega a 300% em algumas unidades. O mais grave é que esse percentual é uma constante. Não é um evento isolado, é uma rotina. Na primeira sextafeira deste mês, uma colega informou que uma maternidade na capital estava com 15 mulheres. Dessas, seis em pé. Isso é lamentável”, destaca a obstetra Cláudia Beatriz Andrade, presidente do Simepe.

A médica reforça que tem acompanhado o cenário com bastante preocupação e que já acionou várias instituições para fazer denúncias e também levar propostas para melhorar a assistência desde o pré-natal. Em maio, a movimentação do órgão de classe começou a ganhar mais força, quando solicitou reunião com o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco para dar voz a médicos da rede estadual de saúde, que denunciaram piora da superlotação das maternidades de alto risco naquele mês. Os profissionais sinalizaram falta de espaço, inclusive nos corredores, para atendimento nos Hospitais Barão de Lucena (no bairro da Iputinga, Zona Oeste do Recife) e Agamenon Magalhães (na Tamarineira, Zona Norte da cidade).

“Do jeito que está, não pode continuar. A mulher tem o direito de ter o bebê com dignidade. Sim, esse cenário passa por uma questão de (falta de) dignidade humana. Não tenho dúvidas de que, a qualquer momento, há mulheres em cadeiras de roda ou no chão no Cisam (Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, no bairro da Encruzilhada, Zona Norte). Além de tudo, esse cenário deixa os profissionais em um nível de estresse altíssimo”, frisa o médico André Dubeux, segundo secretário do Cremepe.

CEGONHA

Ele toca num ponto que vem sendo discutido durante reuniões com diretores de maternidades ligadas às gestões estaduais e municipais: a estratégia de vinculação, que faz parte da Rede Cegonha – iniciativa do Ministério da Saúde cuja finalidade é organizar a atenção à saúde materno-infantil no País. Para os especialistas, essa é uma proposta que atualmente não sai da teoria, mas que precisa ser colocada em prática. É fundamental, diz ela, garantir o direito da gestante conhecer e estabelecer vínculo antecipado com a maternidade em que receberá assistência no parto e no puerpério (período de 45 dias após a mulher dar à luz um bebê). “A gestação tem hora para começar e terminar. É um evento previsível. Não tem por que as autoridades não organizarem essa rede”, acrescenta André Dubeux.

O secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo, revelou preocupação com a rede materno-infantil desde o início de sua gestão, em janeiro, quando garantiu que a assistência a essa área é prioridade. Ele informa que, para mudar a atenção ao parto, é necessário investir na assistência através de cooperação com os municípios e evitar que as gestantes saiam do interior para maternidades da capital.2

Entrevista Cláudia Beatriz Andrade

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“É um cenário de guerra”

A obstetra Cláudia Beatriz Andrade, presidente do Simepe, destaca o papel do órgão de classe para resolver uma situação que coloca em risco a vida de mulheres e de seus bebês.

JC – Como o Simepe tem atuado para alertar sobre as consequências da superlotação nas maternidades do Estado?

CLÁUDIA BEATRIZ ANDRADE – A gente vê essa situação com muita preocupação. Temos nos reunido com gestores e entidades médicas para mostrar que estamos em campanha para cobrar resolutividade e assistência qualificada na rede materno-infantil. Atualmente, na assistência ao parto, há municípios que dizem não ter recursos e, por isso, alegam que não oferecerão mais o atendimento. Eles se desobrigam desse dever e fecham as portas da maternidade. Há outros municípios com serviços abertos, mas que não fazem esforços para manter a equipe completa; funcionam apenas em alguns dias da semana. Além disso, existem as unidades que eu chamo de ponto final, que recebem a mulher que não tem mais para onde ir. Nesse locais, as pacientes ficam com ou sem leito, com ou sem equipe, com ou sem material. É aquela situação de cenário de guerra instalado.

“A gente vai para casa e não descansa a cabeça. É muito sofrimento”

JC – Há municípios com situações mais críticas do que outros?

CLÁUDIA BEATRIZ – Recebemos, na capital, mulheres que vêm de Garanhuns. Imagine ter que enfrentar quilômetros de estrada. São tantas horas para vir e mais outras tantas horas na porta de entrada (da maternidade) esperando atendimento. Ficamos consternados. E veja a situação de Olinda: depois que a Brites de Albuquerque fechou, há uns seis anos, a cidade contratualizou 100% dos leitos da maternidade do Hospital Tricentenário, cujo número de leitos é aquém da necessidade do município. Então, muitas mulheres de Olinda têm o parto realizado no Recife, onde encontram as maternidades que são ponto final.

JC – Na campanha, o Simepe associa o cenário de superlotação à violência…

CLÁUDIA BEATRIZ – A violência obstétrica não está restrita só ao momento do parto. Ela existe também nesse processo da peregrinação, da acomodação, da falta de dignidade humana na assistência. Já vi profissionais arrasados, chorando por perdas (mortes de mãe e/ou bebê) que seriam evitáveis. A gente vai para casa e não descansa a cabeça. É um sofrimento irreparável.

Entrevista André Longo

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“Há sinais de prioridade”

Depois de eleger a assistência materno-infantil como área prioritária, o secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo, anuncia parceria com a Opas para coordenar as ações do setor.

JC – A assistência materno-infantil foi eleita pela sua gestão como prioridade. O que a pasta tem feito?

ANDRÉ LONGO – Estamos em processo de fechamento, com a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), de um termo de cooperação internacional para que seja possível coordenar ações e otimizar  projetos que o Estado tem, como o Mãe Coruja e o Parto Adequado, que registrou avanços no Hospital Agamenon Magalhães. A parceria com a Opas, que tem expertise técnica e metodológica nessa área, vai
medir as intervenções que já realizamos em Pernambuco e consequentemente organizá-las.

JC – Alguma outra medida já foi adotada?

ANDRÉ LONGO – Em maio, a Secretaria Estadual de Saúde nomeou 580 novos trabalhadores (aprovados em concurso público). Mais de 200 foram chamados para repor e qualificar a atenção nas maternidades. Entre eles, 45 obstetras, 50 enfermeiras obstetras, 33 neonatologistas, 45 pediatras, 17 cirurgiões pediátricos e 11 intensivistas pediátricos. Dos profissionais aprovados, 124 vão para o Agamenon Magalhães e 133 para o Hospital Barão de Lucena, que são unidades de referência no parto de alto risco. Ou seja, estamos dando sinais de que esse é um tópico prioritário.

JC – A vinculação da mulher ao local de parto tem sido analisada?

ANDRÉ LONGO – Nossas auditorias mostram que um dos principais problemas da rede materno-infantil e entre piores itens avaliados pelas mulheres é a questão da (falta de) vinculação com o local de parto. Cerca de 80% das pacientes não sabem a maternidade onde irão dar à luz. Ou seja, elas não estão referenciadas a um serviço. Então, a intervenção que queremos fazer com a ajuda da Opas vai ajudar a melhorar não apenas esse cenário, mas também o empoderamento da mulher na reprodução. Obstetras dizem que quase um terço das gestação não são planejadas.

JC – Como atuar com os municípios?

ANDRÉ LONGO – Tem alguns que nunca se estruturaram para atender as gestantes. Olinda, por exemplo, precisava ter mais uma maternidade além do Tricentenário. O município só faz 35% dos seus partos. Já Paulista não tem maternidades. A nossa gestão estadual faz mais partos do que os municípios. A Opas vai atuar também para ajudar a organizar melhor essa rede.

 

Fonte: Jornal do Commercio