{"id":10758,"date":"2013-01-24T09:01:45","date_gmt":"2013-01-24T12:01:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=10758"},"modified":"2013-01-24T09:01:45","modified_gmt":"2013-01-24T12:01:45","slug":"a-brasileira-que-nasceu-sem-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/a-brasileira-que-nasceu-sem-lingua\/","title":{"rendered":"A brasileira que nasceu sem l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Bras\u00edlia &#8211; A vida da brasiliense Auristela Viana da Silva, de 23 anos, sempre foi cercada de curiosidade. O fato de a jovem ter nascido sem a l\u00edngua, deformidade rara com somente tr\u00eas casos registrados no mundo, desperta uma enxurrada de d\u00favidas e surpresas. Como ela consegue falar, comer ou sentir gosto? Com 1,46m, sorridente e extremamente carinhosa, Auristela nunca teve vergonha ou se sentiu inferior por sua condi\u00e7\u00e3o. \u201cNa escola, faziam uma roda ao meu redor e eu ia abrindo a minha boca para cada colega ver. Eu n\u00e3o tenho problema com isso, n\u00e3o gosto de esconder nada\u201d, relata confiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nMas n\u00e3o foram s\u00f3 os colegas de sala que se impressionaram. O caso de Auristela desafiou a medicina e for\u00e7ou uma equipe de especialistas a encontrarem pelo menos algumas repostas para tantas d\u00favidas. Nesse caminho, eles desenvolveram um protocolo in\u00e9dito para tratamento das sequelas da aglossia cong\u00eanita isolada, nome cient\u00edfico dado \u00e0 aus\u00eancia da l\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nUm dos principais problemas decorrentes da aglossia \u00e9 a dic\u00e7\u00e3o. Entretanto, ao contr\u00e1rio do que se imagina, a fala n\u00e3o depende somente da l\u00edngua. Todo o aparelho fonador est\u00e1 envolvido no processo, o que inclui, por exemplo, narinas, palato, dentes, l\u00e1bios, assoalho da boca, laringe, traqueia e pulm\u00f5es. Como Auristela n\u00e3o apresenta deformidade nessas outras estruturas, ela consegue falar desde a inf\u00e2ncia. O problema, no entanto, estava em alguns fonemas que requisitam diretamente a l\u00edngua, como o \u201ct\u201d, o \u201cd\u201d e o \u201cr\u201d. O resultado \u00e9 uma fala embolada e n\u00e3o t\u00e3o bem articulada. Para contornar a limita\u00e7\u00e3o, at\u00e9 hoje Auristela faz acompanhamento com a fonoaudi\u00f3loga Maria L\u00facia Torres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n\u201cPrimeiro, a gente trabalhou toda a musculatura da boca com exerc\u00edcios para o l\u00e1bio, a bochecha e o assoalho\u201d, explica Torres. A especialista tamb\u00e9m ensinou uma s\u00e9rie de t\u00e9cnicas para que Auristela conseguisse adaptar o som dos fonemas dificultados pela aus\u00eancia da l\u00edngua. \u201cPara falar \u2018tatu\u2019, ela usa os l\u00e1bios para copiar o som e o resultado \u00e9 muito satisfat\u00f3rio. Ele n\u00e3o sai perfeito, mas voc\u00ea consegue entender o que ela est\u00e1 falando\u201d, exemplifica. Outro ponto trabalhado por Torres foi a mastiga\u00e7\u00e3o e a degluti\u00e7\u00e3o da brasiliense, que, antes da terapia, movimentava muito o pesco\u00e7o e a cabe\u00e7a para conseguir engolir os alimentos s\u00f3lidos.<\/p>\n<p><strong>Sabores apreciados<\/strong><\/p>\n<p>A comida, inclusive, \u00e9 um ponto curioso da condi\u00e7\u00e3o de Auristela. Engana-se quem acredita que quem n\u00e3o tem l\u00edngua n\u00e3o sente o gosto do que come. Assim como Auristela, a norte-americana Kelly Rogers nasceu sem o \u00f3rg\u00e3o, mas n\u00e3o encontra dificuldade para apreciar os sabores. \u201cMeu paladar \u00e9 completamente normal e eu gosto de comer v\u00e1rias coisas. Tenho gostado muito de experimentar diferentes tipos de comida no Brasil\u201d, relata a norte-americana, que esteve na Universidade de Bras\u00edlia (UnB), na semana passada, para participar de um simp\u00f3sio sobre aglossia. Auristela tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 de negar novos sabores, mas o que mais gosta \u00e9 o bom e velho chocolate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os bot\u00f5es gustativos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o dentista e cirurgi\u00e3o Salles, o que permite a sensibilidade do paladar mesmo na aus\u00eancia da l\u00edngua \u00e9 a presen\u00e7a de v\u00e1rias outras estruturas sensoriais chamadas de bot\u00f5es gustativos, distribu\u00eddos por toda a mucosa oral. \u201cNo caso da aus\u00eancia da l\u00edngua, a capacidade de percep\u00e7\u00e3o gustativa desses bot\u00f5es \u00e9 agu\u00e7ada\u201d, explica. Outro mecanismo adaptativo do corpo \u00e9 a hipertrofia dos m\u00fasculos milo-hioide e genio-hioide, estruturas que formam o soalho da boca e aumentam consideravelmente de volume para assumir a fun\u00e7\u00e3o de uma \u201cminil\u00edngua\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nAinda que o corpo consiga compensar algumas falhas, a aus\u00eancia da l\u00edngua ocasiona deformidades na face que desafiaram a equipe de profissionais respons\u00e1vel pelo tratamento de Auristela. \u201cA l\u00edngua tem uma fun\u00e7\u00e3o importante embrionariamente, pois \u00e9 ela que determina a largura e a dimens\u00f5es da mand\u00edbula no momento de sua forma\u00e7\u00e3o\u201d, explica Jorge Faber, dentista da UnB e respons\u00e1vel pelo planejamento da cirurgia ortod\u00f4ntica da brasiliense. Faber explica que o espa\u00e7o vazio na boca de Auristela tornou a dimens\u00e3o do maxilar inferior anormalmente estreito. Em vez da usual curva parab\u00f3lica, ficou em formato de \u201cbico de p\u00e1ssaro\u201d. Al\u00e9m disso, os dentes de baixo nasceram no meio da boca e, no momento da mastiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tocavam a arcada superior, mas o c\u00e9u da boca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nComo n\u00e3o havia nada na literatura que direcionasse o tratamento de Auristela, Frederico Salles, Jorge Faber e os demais especialistas da equipe \u2014 formada ainda pelo cirurgi\u00e3o bucomaxilofacial Marcos Anchieta, pela psic\u00f3loga Elizabeth Queiroz e pela nutricionista Patr\u00edcia Costa Bezerra \u2014 buscaram uma alternativa cir\u00fargica para contornar o problema. A solu\u00e7\u00e3o veio de uma t\u00e9cnica de regenera\u00e7\u00e3o residual desenvolvida por sovi\u00e9ticos e usada na Guerra Fria para tratar sequelas em bra\u00e7os e pernas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA jovem foi submetida a tr\u00eas cirurgias. Todo o tratamento de Auristela virou um protocolo in\u00e9dito desenvolvido pela equipe para o tratamento da aglossia e de enfermidades semelhantes. \u201cO caso de Auristela \u00e9 raro, mas s\u00e3o casos como esse que for\u00e7am a ci\u00eancia a dar um passo \u00e0 frente e expandir a fronteira do conhecimento. Muitos questionam a import\u00e2ncia de um protocolo para uma doen\u00e7a com tr\u00eas casos, mas o mesmo procedimento pode ser aplicado a situa\u00e7\u00f5es semelhantes\u201d, defende Faber. Pacientes que perderam a l\u00edngua por causa de um c\u00e2ncer e portadores de micrognatia, o famoso queixo do Noel Rosa, tamb\u00e9m poderiam ser beneficiados. A brasiliense de 23 anos e estudante do curso de t\u00e9cnico em enfermagem planeja ser enfermeira para ajudar pessoas com problemas semelhantes ao dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Diario de Pernambuco<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bras\u00edlia &#8211; A vida da brasiliense Auristela Viana da Silva, de 23 anos, sempre foi cercada de curiosidade. O fato de a jovem ter nascido sem a l\u00edngua, deformidade rara com somente tr\u00eas casos registrados no mundo, desperta uma enxurrada de d\u00favidas e surpresas. Como ela consegue falar, comer ou sentir gosto? 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