{"id":15156,"date":"2013-08-11T14:50:38","date_gmt":"2013-08-11T17:50:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=15156"},"modified":"2013-08-14T14:51:11","modified_gmt":"2013-08-14T17:51:11","slug":"saude-da-familia-deve-ser-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/saude-da-familia-deve-ser-para-todos\/","title":{"rendered":"&#8220;Sa\u00fade da Fam\u00edlia deve ser para todos&#8221;"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; font-weight: normal;\">ENTREVISTA &#8211; ALEXINA DE PAULA WITT<\/span><\/h3>\n<div id=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Veronica Almeida<\/p>\n<p>Dos 25 anos de SUS, quase 20 s\u00e3o do Sa\u00fade da Fam\u00edlia, estrat\u00e9gia iniciada nos anos 90 para levar assist\u00eancia m\u00e9dica \u00e0s comunidades. Alexina de Paula Witt \u00e9 da primeira turma de m\u00e9dicos que implantou o programa em Camaragibe, Grande Recife, conseguindo reduzir a mortalidade infantil. A s\u00e9rie de entrevistas sobre o futuro do SUS, que come\u00e7ou no segundo domingo de julho com o ex-ministro Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o, prossegue hoje com as impress\u00f5es dessa praticante da medicina de fam\u00edlia, que herdou o inconformismo com as desigualdades sociais (\u00e9 neta de Francisco Juli\u00e3o, das Ligas Camponesas). Ela se diz angustiada com o cen\u00e1rio atual, marcado pelo corporativismo de parte dos colegas, mas acredita que o programa vai sobreviver.<\/p>\n<p><strong>Jornal do Commercio &#8211; Tempor\u00e3o diz que todo servidor, juiz e deputado deveria usar o SUS. O Sa\u00fade da Fam\u00edlia deve ser para todos?<\/strong><\/p>\n<p>ALEXINA &#8211; Eu passo por esse dilema. Poxa vida, trabalho no sistema p\u00fablico desde que me formei, h\u00e1 22 anos. Fa\u00e7o o poss\u00edvel para exercer uma boa medicina, dar uma boa assist\u00eancia \u00e0s pessoas. E, no entanto, eu mesma pago plano privado, fico com medo de n\u00e3o ter a assist\u00eancia que preciso numa emerg\u00eancia, embora, quando um filho ou meu marido adoece, procuro um servi\u00e7o p\u00fablico perto de casa. No in\u00edcio, o Sa\u00fade da Fam\u00edlia foi implantado na periferia e bairros mais pobres porque era a popula\u00e7\u00e3o mais necessitada, mas a ideia era ampliar para todo o Brasil. S\u00f3 que n\u00e3o chegamos nesse ponto, ainda vamos chegar, eu espero. Deveria ser para 100% da popula\u00e7\u00e3o, para que o governo deixasse de financiar a sa\u00fade privada. A ESF n\u00e3o \u00e9 para pobres, mas para melhorar a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o como um todo.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; Como foi sua entrada no Sa\u00fade da Fam\u00edlia?<\/strong><\/p>\n<p>ALEXINA &#8211; Eu me formei pela Universidade de Pernambuco e fui para S\u00e3o Paulo. Quando voltei fiz a sele\u00e7\u00e3o na implanta\u00e7\u00e3o do PSF em Camaragibe e deu certo. Naquela \u00e9poca, ningu\u00e9m era especialista, n\u00e3o tinha m\u00e9dico de fam\u00edlia. Todos n\u00f3s come\u00e7amos do zero e cavando o caminho. A medida em que a gente se inseria, estudava, aprendia muito com as pessoas e a comunidade, as coisas foram evoluindo e a medicina de fam\u00edlia foi se estabalecendo como especialidade. Hoje tenho t\u00edtulo de especialista, fui me aperfei\u00e7oando. Trabalhei 16 anos em Camaragibe e h\u00e1 agora sou concursada no Recife (trabalha na UR-3, Ibura). O que me fez m\u00e9dica de fam\u00edlia n\u00e3o s\u00f3 foi o t\u00edtulo. Por mais que voc\u00ea tenha estudo, tem que haver a vontade e a voca\u00e7\u00e3o para exercer a medicina de fam\u00edlia, que \u00e9 a medicina para as pessoas, n\u00e3o \u00e9 a medicina para os pacientes.<\/p>\n<p><strong>JC- Qual a diferen\u00e7a da medicina focada no doente da que lida com pessoas?<\/strong><\/p>\n<p>ALEXINA &#8211; O v\u00ednculo. Eu conhe\u00e7o dona Maria, que \u00e9 m\u00e3e de Jo\u00e3o, que morreu assassinado, que \u00e9 irm\u00e3o de dona fulana, que teve um c\u00e2ncer de mama&#8230; Cuidando da pessoa, o m\u00e9dico tem uma vis\u00e3o mais ampla dela, de alegrias, tristezas, das mortes e nascimentos de cada fam\u00edlia. Se a gente n\u00e3o consegue ver a pessoa como um todo, n\u00e3o tem entendimento da situa\u00e7\u00e3o, do que gera doen\u00e7a. Eu tenho que conhecer aquela pessoa na realidade dela, onde ela vive, mora, como \u00e9 que ela \u00e9 feliz, sofre, com ou sem doen\u00e7a. No ambulat\u00f3rio n\u00e3o h\u00e1 como viver isso. N\u00e3o estou menosprezando a necessidade de especialistas, de hospitais. A gente precisa deles. Mas \u00e9 diferente quando voc\u00ea vai \u00e0 casa da pessoa, a conhece pelo nome todo. N\u00e3o precisa abrir o computador para saber o hist\u00f3rico do paciente, eu lembro da hist\u00f3ria daquela pessoa e isso ajuda no processo de trabalho e de cura, n\u00e3o no sentido cient\u00edfico, mas de melhora emocional.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; Por que seus pares reclamam da estrutura? O que justifica a falta de m\u00e9dicos ?<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong>ALEXINA &#8211; A infraestrutura e o sal\u00e1rio s\u00e3o important\u00edssimos sim, principalmente para quem \u00e9 m\u00e9dico de fam\u00edlia com dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, que d\u00e1 40 horas semanais na comunidade, s\u00f3 vive daquele sal\u00e1rio, n\u00e3o tem extra, plant\u00e3o. N\u00e3o discordo dos meus colegas, mas n\u00e3o justifica deixar de fazer um trabalho porque a infraestrutura est\u00e1 ruim. N\u00e3o estou dizendo que \u00e9 para permanecer nisso nem lutar por melhores condi\u00e7\u00f5es. Quando comecei a trabalhar em Camaragibe, eu, outros m\u00e9dicos e profissionais de sa\u00fade, come\u00e7amos em casinhas de vila, na base do ventilador, e a gente s\u00f3 tinha o estetosc\u00f3pio, o tensi\u00f4metro, a balan\u00e7a, o b\u00e1sico para fazer o atendimento e a gente fez. Em Camaragibe caiu de 50 para nove por mil nascidos vivos o n\u00famero de mortes de crian\u00e7as menores de um ano. \u00c9 claro que hoje estou adorando estar no ar-condicionado, numa mesa bonitinha. Mas acho que o trabalho precisa ser feito, \u00e9 uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; A nova pol\u00edtica do governo quer obrigar o trabalho na aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Voc\u00ea concorda?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>ALEXINA- Sou favor\u00e1vel a discutir e remodelar os curr\u00edculos de medicina nas universidades para come\u00e7ar a mostrar ao estudante a realidade brasileira, dar uma vis\u00e3o mais geral e coloc\u00e1-lo na comunidade cedo. Quem sabe ele vai despertando. De repente um jovem que nunca pensou em trabalhar na comunidade, quando chega l\u00e1, conhece as pessoas, desperta. Eu j\u00e1 trouxe isso de ber\u00e7o, a forma como fui educada, a ideologia pol\u00edtica da minha fam\u00edlia me ajudou a querer desse jeito. N\u00e3o \u00e9 todo mundo que vai ter isso e a forma como fui criada n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica que faz todo m\u00e9dico optar por esse trabalho.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; A equipe de ESF deve ter apenas agente de sa\u00fade, m\u00e9dico, enfermeiro, dentista?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>ALEXINA &#8211; A equipe b\u00e1sica, incluindo o dentista, quando trabalha bem integrada, j\u00e1 resolve 80% dos problemas. Tem dias que sinto a falta de um psic\u00f3logo, de um fisioterapeuta, de um nutricionista, pois temos muitos idosos acamados. O N\u00facleo de Apoio ao Sa\u00fade da Fam\u00edlia (Nasf), que tem esses profissionais, precisa ser ampliado. Do jeito que est\u00e1, n\u00e3o d\u00e1 o suporte desejado. Em 1995 tinha muito mais crian\u00e7as desnutridas e doen\u00e7as infecto-parasit\u00e1rias do que hoje. Agora h\u00e1 muito mais idosos e doen\u00e7as cr\u00f4nicas. Penso, por exemplo, em fazer um curso de cuidados paliativos. A gente tem que estar se moldando para dar a assist\u00eancia de qualidade.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; O que voc\u00ea espera do futuro?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>ALEXINA &#8211; Tenho a impress\u00e3o de que o governo n\u00e3o est\u00e1 dando o suporte que deveria dar. \u00c9 prova que a ESF d\u00e1 certo, j\u00e1 obteve tantos avan\u00e7os que n\u00e3o v\u00e3o conseguir acab\u00e1-la. A gente tem que continuar na luta. A gente est\u00e1 passando por uma crise, mas as pessoas est\u00e3o acordando. \u00c9 preciso melhorar o financiamento.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; Concorda com o Mais M\u00e9dicos?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>ALEXINA &#8211; \u00c9 fato indiscut\u00edvel que n\u00e3o existem m\u00e9dicos suficientes no Brasil e os que existem est\u00e3o mal distribu\u00eddos. O Mais M\u00e9dicos n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o, mas seria uma medida emergencial, com m\u00e9dicos avaliados previamente, uma vez que h\u00e1 comunidade sem assist\u00eancia. Os colegas que s\u00f3 d\u00e3o 12 horas, fazem empurroterapia, n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de criticar. Por outro lado fico chateada ao saber que o profissional do Mais M\u00e9dicos, que acabou de se formar, vai ganhar mais do que eu, que sou especialista e estou h\u00e1 mais tempo no Sa\u00fade da Fam\u00edlia. Ele receber\u00e1 R$ 10 mil l\u00edquidos e eu ganho R$ 10 mil brutos, que com descontos, chegam a R$ 7 mil. Ao mesmo tempo tenho raiva do discurso corporativista. Talvez os cubanos fiquem, eles t\u00eam a forma\u00e7\u00e3o, s\u00e3o m\u00e9dicos de fam\u00edlia, est\u00e3o acostumados a trabalhar em condi\u00e7\u00e3o adversa. Est\u00e3o com medo que os cubanos venham porque v\u00e3o dar conta do recado. A discrimina\u00e7\u00e3o com eles \u00e9 maior por isso.<\/p>\n<p><strong>JC Porque trocou Camaragibe pelo Recife?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>ALEXINA &#8211; O v\u00ednculo era precar\u00edssimo em Camaragibe. S\u00e3o importantes concurso e carreira \u00fanica, chega um momento em que a gente se preocupa com o futuro. Como vou me aposentar com um sal\u00e1rio base de R$ 1.800? N\u00e3o d\u00e1. Foi muito dif\u00edcil para mim mudar de cidade. Quando o v\u00ednculo \u00e9 mais seguro a gente tem como brigar mais, botar o p\u00e9 no ch\u00e3o, mostrar evid\u00eancias cient\u00edficas, fica mais tranquilo.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Jornal do Commercio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ENTREVISTA &#8211; ALEXINA DE PAULA WITT Veronica Almeida Dos 25 anos de SUS, quase 20 s\u00e3o do Sa\u00fade da Fam\u00edlia, estrat\u00e9gia iniciada nos anos 90 para levar assist\u00eancia m\u00e9dica \u00e0s comunidades. Alexina de Paula Witt \u00e9 da primeira turma de m\u00e9dicos que implantou o programa em Camaragibe, Grande Recife, conseguindo reduzir a mortalidade infantil. 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