{"id":17090,"date":"2013-12-06T13:57:48","date_gmt":"2013-12-06T16:57:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=17090"},"modified":"2013-12-06T13:57:48","modified_gmt":"2013-12-06T16:57:48","slug":"e-preciso-vigiar-a-dinamica-da-epidemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/e-preciso-vigiar-a-dinamica-da-epidemia\/","title":{"rendered":"\u00c9 preciso vigiar a din\u00e2mica da epidemia"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; font-weight: normal;\"> O m\u00e9dico e pesquisador de uma vacina para aids, o pernambucano Luiz Cl\u00e1udio Arraes, dedica-se ao tema desde o tempo da resid\u00eancia m\u00e9dica, h\u00e1 27 anos. Conheceu a fase pr\u00e9-terapia, na qual tratavam-se as infec\u00e7\u00f5es oportunistas, uma por uma, &#8220;num cansa\u00e7o sem fim&#8221;. Na d\u00e9cada passada participou do grupo que desenvolve uma vacina terap\u00eautica e agora planeja nova miss\u00e3o, colaborar com um projeto que usa mol\u00e9culas do avel\u00f3s para estimular linf\u00f3citos, c\u00e9lulas de defesa que abrigam o HIV. Avalia que o Brasil avan\u00e7ou em tecnologia e na forma\u00e7\u00e3o de equipes para conhecer melhor o v\u00edrus. Alerta, no entanto, que n\u00e3o se pode perder o foco em duas coisas fundamentais: na din\u00e2mica da epidemia, rodeada de novos desafios sociais, e na redu\u00e7\u00e3o a zero da transmiss\u00e3o vertical, de m\u00e3e para filho.<\/span><\/h3>\n<div id=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><strong>JC &#8211; Que balan\u00e7o faz dos estudos sobre a aids?<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong>LUIZ CL\u00c1UDIO ARRAES &#8211; A triterapia foi a grande revolu\u00e7\u00e3o. Se Cazuza tivesse se beneficiado, estaria vivo. Ele tomou AZT, DDI e DDC, as tr\u00eas drogas iniciais, separadamente, uma em substitui\u00e7\u00e3o a outra, quando David Ho, em 1996, teve a ideia de associar alguns antirretrovirais. Tornava, assim, indetect\u00e1vel o v\u00edrus e isso correspondia a uma subida dos linf\u00f3citos, as defesas. Outra descoberta importante a partir da\u00ed foi a imune reconstitui\u00e7\u00e3o. Pensava-se que HIV consumia o sistema de defesa, como uma vela queimando, e, ao iniciar o tratamento, essa vela parava de queimar. Mas descobriu-se a sua capacidade de se recompor. O problema \u00e9 deixar de tomar ou tomar de forma errada os rem\u00e9dios, o que \u00e9 nefasto, al\u00e9m do advento de cepas mutantes que complicam o tratamento.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; Quais as perspectivas atuais quanto \u00e0 cura?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>LUIZ ARRAES &#8211; Existem v\u00e1rias. Ningu\u00e9m se satisfaz com tratamento cont\u00ednuo, \u00e9 muito dif\u00edcil tratar uma pessoa cr\u00f4nica assintom\u00e1tica. Ela apresenta mais sintomas que s\u00e3o efeito dos medicamentos do que do HIV. As pessoas se cansam quanto mais o tempo passa. Tentou-se vacinas terap\u00eauticas e preventivas, mas nenhuma resultou num padr\u00e3o ouro. Mais recentemente se fala em erradica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Mol\u00e9culas descobertas, j\u00e1 em testes com animais, ativariam os linf\u00f3citos que abrigam o HIV, tornando os v\u00edrus vis\u00edveis aos medicamentos. H\u00e1 tr\u00eas grupos bem avan\u00e7ados nessa \u00e1rea, um nos Estados Unidos, e dois no Brasil, um de Amilcar Tanuri (UFRJ-RJ) e o de Ricardo Diaz (Unifesp-SP) e grupos europeus.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; E a vacina terap\u00eautica? por que n\u00e3o continuaram os testes no Recife?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>LUIZ ARRAES &#8211; Foi muito importante, come\u00e7ou aqui h\u00e1 dez anos. Mas centros mais fortes tinham mais condi\u00e7\u00f5es de fazer isso. Nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 entrar no projeto de erradica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, atrav\u00e9s de uma mol\u00e9cula extra\u00edda do avel\u00f3s, estudo que vem sendo feito na UFRJ e no exterior.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; E a vacina para preven\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>LUIZ ARRAES &#8211; Existe uma em teste na Universidade de S\u00e3o Paulo, mas parece dif\u00edcil. Nenhuma funcionou at\u00e9 agora no mundo. A mais famosa delas, mostrou que o grupo vacinado se infectava mais do que o n\u00e3o vacinado e teve que ser parada imediatamente. As pessoas vacinadas se achavam protegidas e descuidavam-se.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; Por que \u00e9 dif\u00edcil debelar o HIV?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>ARRAES &#8211; O v\u00edrus \u00e9 muito complexo, ele muda muito, tem uma particularidade, o local pelo qual tem afinidade \u00e9 o sistema imunol\u00f3gico. Quando a gente ativa o sistema imunol\u00f3gico contra o HIV, ele se beneficia dessa a\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso ter uma resposta imunol\u00f3gica inteligente, n\u00e3o convencional. O v\u00edrus vem de macacos, s\u00e3o seis tipos e existem reservat\u00f3rios que n\u00e3o passaram para o homem ainda.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; Como avalia a posi\u00e7\u00e3o do Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>ARRAES &#8211; O Brasil montou rede de m\u00e9dicos, profissionais, laborat\u00f3rios e de sofisticada genotipagem como nenhum pa\u00eds fez. Formou quadro significativo de especialistas para pesquisa b\u00e1sica. Agora tem que tomar cuidado, sempre estar vigiando a din\u00e2mica da epidemia. Exemplo, temos o fen\u00f4meno do crack. Est\u00e1 dizimando as popula\u00e7\u00f5es e faz associa\u00e7\u00e3o brutal com o HIV. Depois, temos o diagn\u00f3stico tardio, causado pelo medo e preconceito. Dever\u00edamos trabalhar com o princ\u00edpio da realidade. Ora, se a pessoa tem vida sexual ativa, deve fazer o teste de vez em quando. A gente observa muito tratamento tardio, a pessoa num estado como se via antes da triterapia. O Brasil n\u00e3o venceu a batalha de zerar a transmiss\u00e3o de m\u00e3e para filho.<\/p>\n<p><strong>JC &#8211; Por que o preconceito n\u00e3o foi vencido?<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>LUIZ ARRAES &#8211; Mudam as palavras mas n\u00e3o acho que seja esse o caminho. N\u00e3o \u00e9 para ter vergonha das doen\u00e7as. Sou contra a terminologia usada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade no trato com HIV. A meu ver provoca um certo preconceito. A gente n\u00e3o pode dar uma palestra e falar homossexual, que em grego quer dizer eu sou igual a voc\u00ea, parecido com as palavras do Cristo, amai o pr\u00f3ximo como a si mesmo. Tem que dizer homem que faz sexo com homem. As autoridades e os especialistas criam preconceito, inventaram que homossexual virou pejorativo. \u00c9 uma problem\u00e1tica onde n\u00e3o cabe mentira, engana\u00e7\u00e3o, tem que ser tratada com respeito, cuidado, com acolhimento, com generosidade, mas com verdade tamb\u00e9m.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Jornal do Commercio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O m\u00e9dico e pesquisador de uma vacina para aids, o pernambucano Luiz Cl\u00e1udio Arraes, dedica-se ao tema desde o tempo da resid\u00eancia m\u00e9dica, h\u00e1 27 anos. Conheceu a fase pr\u00e9-terapia, na qual tratavam-se as infec\u00e7\u00f5es oportunistas, uma por uma, &#8220;num cansa\u00e7o sem fim&#8221;. 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