{"id":18169,"date":"2014-03-27T14:43:31","date_gmt":"2014-03-27T17:43:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=18169"},"modified":"2014-03-27T14:45:53","modified_gmt":"2014-03-27T17:45:53","slug":"falta-de-cuidado-com-a-saude-mental-leva-medicos-a-depressao-dependencia-quimica-e-ao-suicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/falta-de-cuidado-com-a-saude-mental-leva-medicos-a-depressao-dependencia-quimica-e-ao-suicidio\/","title":{"rendered":"Falta de cuidado com a sa\u00fade mental leva m\u00e9dicos \u00e0 depress\u00e3o, depend\u00eancia qu\u00edmica e ao suic\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Autossufici\u00eancia \u00e9 a palavra que pode sintetizar a dificuldade que o m\u00e9dico tem de procurar ajuda quando adoece. No livro, \u2018M\u00e9dico como Paciente\u2019, a autora e doutora em psiquiatria Alexandrina Meleiro cita o benef\u00edcio da ignor\u00e2ncia como um fator que protege a pessoa leiga de compreender o que vai lhe acontecendo e permite que esse paciente acredite na palavra do m\u00e9dico. Nesse contexto, sentimentos como onipot\u00eancia e vergonha fazem com que muitos profissionais assumam a automedica\u00e7\u00e3o. As consequ\u00eancias s\u00e3o variadas, mas quando o assunto \u00e9 sa\u00fade mental, vemos a categoria amargar incid\u00eancia alta de depend\u00eancia qu\u00edmica, depress\u00e3o e taxa de suic\u00eddio. No Brasil, essa discuss\u00e3o ainda \u00e9 t\u00edmida, mas os profissionais da sa\u00fade ter\u00e3o a oportunidade de trocar experi\u00eancias na \u2018I Jornada Brasileira de Sa\u00fade Mental dos M\u00e9dicos\u2019, promovida pela Academia Mineira de Medicina nos dias 28 a 30 de mar\u00e7o, no audit\u00f3rio do Instituto Biocor, em Nova Lima.<\/p>\n<p>Psiquiatra, coordenador da Comiss\u00e3o de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Sa\u00fade Mental dos M\u00e9dicos, membro em\u00e9rito da Academia Mineira de Medicina e idealizador da I Jornada Brasileira de Sa\u00fade Mental dos M\u00e9dicos, Jos\u00e9 Raimundo da Silva Lippi lembra que as pessoas podem alcan\u00e7ar um n\u00edvel intelectual muito grande, mas mesmo assim ser emocionalmente fr\u00e1gil. \u201cA sa\u00fade mental \u00e9 um estado que vai sendo alcan\u00e7ado atrav\u00e9s da capacidade que o ser humano tem de tolerar n\u00edveis cada vez maiores de tens\u00f5es e de frustra\u00e7\u00f5es. O homem saud\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 aquele que vence as frustra\u00e7\u00f5es, porque elas n\u00e3o s\u00e3o elimin\u00e1veis, mas sim o que tolera bem os n\u00edveis de decep\u00e7\u00e3o\u201d, explica.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico afirma que quando o estresse est\u00e1 acima do suport\u00e1vel para a pessoa, se ela n\u00e3o procurar ajuda, os descaminhos podem ir da ansiedade ao suic\u00eddio. \u201cQuando esse estresse supera o n\u00edvel que o organismo resiste, os sinais come\u00e7am a aparecer. Pode redundar em n\u00e3o dormir bem, perder o apetite ou ter apetite exagerado, diarreia, dores que s\u00e3o suport\u00e1veis para outras pessoas, mas s\u00e3o muito grandes para os que est\u00e3o com equil\u00edbrio emocional desorganizado\u201d, salienta.<\/p>\n<p>Para ele, os m\u00e9dicos s\u00e3o motivados pelo desejo de salvar vidas e a Jornada quer chamar a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da classe m\u00e9dica, mas tamb\u00e9m da popula\u00e7\u00e3o para a peculiaridade da profiss\u00e3o e os riscos que envolvem esse lavor. \u201cFalta de condi\u00e7\u00f5es de trabalho, excesso de carga hor\u00e1ria, a tens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente s\u00e3o alguns fatores que aumentam a vulnerabilidade do m\u00e9dico em rela\u00e7\u00e3o a outras profiss\u00f5es. \u00c9 algu\u00e9m que precisa conviver com a frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter salvado uma vida. \u00c0s vezes, por imaturidade ou por se considerar um \u2018semideus\u2019 sofre mais que os outros\u201d, enfatiza. Lippi acredita que os profissionais precisam se livrar das amarras da onipot\u00eancia de acharem que sabem de tudo, de deixar a vergonha de lado e procurar ajuda. \u201cNenhum m\u00e9dico \u00e9 obrigado a saber toda a medicina, os colegas est\u00e3o a\u00ed para isso\u201d, diz.<\/p>\n<p>Lippi afirma que a depress\u00e3o \u00e9 a doen\u00e7a mental mais comum entre os m\u00e9dicos, inclusive entre os psiquiatras. \u201cTodos s\u00e3o suscet\u00edveis a patologias de ordem mental, principalmente aqueles que n\u00e3o se cuidam. \u00c9 importante lembrar que o rem\u00e9dio cuida do sintoma, mas as causas precisam de aten\u00e7\u00e3o na psicoterapia. O m\u00e9dico pode ser um bom \u2018receitador\u2019, mas se n\u00e3o souber o que o cliente tem, n\u00e3o vai resolver o problema\u201d, explica. Por isso, a automedica\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser vista como solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span><strong>Suic\u00eddio <\/strong><\/span><br \/>\n\u201cOs m\u00e9dicos se suicidam cinco vezes mais que a popula\u00e7\u00e3o geral\u201d, afirma a psiquiatra Alexandrina Meleiro, membro da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria (ABP), coordenadora da Comiss\u00e3o de Estudos e Preven\u00e7\u00e3o de Suic\u00eddio da ABP e membro do Grupo de Aten\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade Mental do M\u00e9dico. Apesar de ser uma atitude dr\u00e1stica, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) vem alertado para o aumento da incid\u00eancia na taxa de suic\u00eddio: um milh\u00e3o de pessoas se mata no mundo anualmente ou uma morte a cada 40 segundos. No Brasil, observa-se um crescimento de 30% no suic\u00eddio entre jovens do sexo masculino nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Entre os m\u00e9dicos, segundo Alexandrina, os mais vulner\u00e1veis est\u00e3o na faixa et\u00e1ria de 35 a 50 anos.<\/p>\n<p>Suic\u00eddio tem preven\u00e7\u00e3o. Isso por que a quase totalidade dos casos \u2013 99% &#8211; est\u00e1 associada a um transtorno psiqui\u00e1trico. A sa\u00fade mental \u00e9 negligenciada por motivos que v\u00e3o desde a falta de uma rede de apoio organizada para atender o paciente, no caso do Brasil, at\u00e9 n\u00e3o ser reconhecida socialmente como doen\u00e7a em muitos casos. No senso comum, por exemplo, a depress\u00e3o \u00e9 confundida com epis\u00f3dios de tristeza e desventuras da vida. Todo esse contexto de preconceito, falta de informa\u00e7\u00e3o e tabu agrava a busca por ajuda quando o doente \u00e9 o m\u00e9dico. Problemas de ordem mental ainda s\u00e3o vistos como motivo de vergonha e assunto para \u2013 se for para conversar \u2013 que seja baixo para ningu\u00e9m ouvir. Enquanto isso, pessoas t\u00eam suas vidas desestruturadas, muitas tentam se matar para amenizar o sofrimento e outras tantas conseguem.<\/p>\n<p>O suic\u00eddio \u00e9 um tema t\u00e3o complicado que \u00e9 estimado um n\u00famero de v\u00edtimas duas ou tr\u00eas vezes maior em raz\u00e3o da subnotifica\u00e7\u00e3o ao registrar a causa da morte. Curiosamente, no caso de m\u00e9dicos, a psiquiatra Alexandrina Meleiro aponta em artigo intitulado \u2018Suic\u00eddio na popula\u00e7\u00e3o m\u00e9dica: qual a realidade?\u2019, publicada na edi\u00e7\u00e3o deste m\u00eas da Revista Brasileira de Medicina, uma situa\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. \u201cNa popula\u00e7\u00e3o geral, existe uma tend\u00eancia de o m\u00e9dico n\u00e3o registrar que a causa da morte foi por suic\u00eddio. Geralmente, registra-se a causa externa da interna\u00e7\u00e3o, como, por exemplo, queda de altura, envenenamento, intoxica\u00e7\u00e3o ex\u00f3gena (excesso de rem\u00e9dio). Um levantamento de atestados de \u00f3bitos feito pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de S\u00e3o Paulo (CREMESP) mostrou que, quando a profiss\u00e3o da v\u00edtima era a medicina, a palavra suic\u00eddio aparecia. Uma das hip\u00f3teses \u00e9 que, por se tratar de um colega, o rigor da notifica\u00e7\u00e3o \u00e9 maior. E a\u00ed fica a pergunta: ser\u00e1 que, de fato, os m\u00e9dicos se suicidam mais ou houve um zelo maior quando se tratava de m\u00e9dico? A resposta eu n\u00e3o sei\u201d, problematiza a psiquiatra.<\/p>\n<p>Alexandrina Meleiro afirma que outra raz\u00e3o para a subnotifica\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o geral \u00e9 que os seguros de sa\u00fade e seguros de vida geralmente n\u00e3o cobrem situa\u00e7\u00f5es de ato volunt\u00e1rio contra a pr\u00f3pria vida. \u201c\u00c9 comum na pr\u00e1tica m\u00e9dica registrar a causa externa para proteger a fam\u00edlia da v\u00edtima\u201d, explica.<\/p>\n<p>O levantamento do CREMESP publicado em 2012 mostra tamb\u00e9m que, entre as causas externas de morte de m\u00e9dicos em S\u00e3o Paulo, o suic\u00eddio aparece em segundo lugar: 21% no caso das mulheres e 18% em homens (veja gr\u00e1fico). Em primeiro, est\u00e1 o acidente automobil\u00edstico, mas para Alexandrina Meleiro, paira uma d\u00favida: \u201cFoi um acidente de fato ou a v\u00edtima usou o carro como meio de suic\u00eddio?\u201d, questiona. \u201cTemos um alto \u00edndice de mortes por acidentes automobil\u00edsticos entre os m\u00e9dicos jovens e n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre os g\u00eaneros. H\u00e1 um quadro autodestrutivo em que indiv\u00edduo teria alguma inten\u00e7\u00e3o suicida, s\u00e3o os chamados \u2018autoc\u00eddios\u2019\u201d, explica.<\/p>\n<div>Meleiro aponta algumas hip\u00f3teses em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento dos m\u00e9dicos que cometem suic\u00eddio:<\/div>\n<p><strong><br \/>\n1. Manifestam especial vulnerabilidade ou experi\u00eancias de eventos circunstanciais diferentes (recente perda profissional ou pessoal, problemas financeiros ou de licen\u00e7a) em rela\u00e7\u00e3o aos outros m\u00e9dicos;<br \/>\n2. Tendem a trabalhar mais horas que os outros colegas;<br \/>\n3. Tendem a abusar de \u00e1lcool e outras subst\u00e2ncias;<br \/>\n4. Est\u00e3o mais insatisfeitos com suas carreiras m\u00e9dicas que outros m\u00e9dicos;<br \/>\n5. D\u00e3o sinais de aviso da inten\u00e7\u00e3o de suicidar-se a outros;<br \/>\n6. T\u00eam transtorno mental e emocional com mais frequ\u00eancia;<br \/>\n7. Tiveram dificuldades na inf\u00e2ncia e seus problemas familiares s\u00e3o comuns;<br \/>\n8. Automedicam-se mais frequentemente que os outros colegas<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong><span> <\/span><span>Depend\u00eancia qu\u00edmica <\/span><\/strong><br \/>\nTrabalho realizado em 2004 na Unidade de Pesquisa em \u00c1lcool e Drogas da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) intitulado \u2018Perfil Cl\u00ednico e Demogr\u00e1fico de M\u00e9dicos com Depend\u00eancia Qu\u00edmica\u2019 mostra que os m\u00e9dicos apresentam taxas similares de uso nocivo e depend\u00eancia de subst\u00e2ncias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o geral. A incid\u00eancia varia entre 8% e 14%. O estudo coletou dados de 198 m\u00e9dicos em tratamento ambulatorial por uso nocivo e depend\u00eancia qu\u00edmica.<\/p>\n<p>A frequ\u00eancia de uso nocivo e depend\u00eancia de opi\u00f3ides (anest\u00e9sicos derivados da morfina) e BZD ou benzodiazep\u00ednicos (popularmente conhecidos como tranquilizantes de tarja preta) \u00e9 aproximadamente cinco vezes maior entre os m\u00e9dicos que na popula\u00e7\u00e3o geral. Alexandrina Meleiro aponta que o uso de opi\u00f3ides \u00e9 motivo de suic\u00eddio principalmente entre anestesistas.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Raimundo Lippi alerta ainda que a facilidade de acesso a esses opi\u00e1cios \u00e9 uma porta de entrada para a depend\u00eancia qu\u00edmica entre m\u00e9dicos. \u201cDrogas medicinais que s\u00f3 s\u00e3o encontradas em hospitais, principalmente as medica\u00e7\u00f5es usadas em anestesia, aparecem como solu\u00e7\u00e3o para o al\u00edvio de tens\u00e3o\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O estudo mostrou tamb\u00e9m os diagn\u00f3sticos mais encontrados. Em primeiro apareceu a depress\u00e3o, seguida de transtorno afetivo bipolar e transtornos de personalidade. Na sequ\u00eancia, esquizofrenia e transtorno de ansiedade generalizada. Os pesquisadores apontaram ainda as situa\u00e7\u00f5es facilitadoras para depend\u00eancia de drogas. Veja:<\/p>\n<div><strong>1) acesso f\u00e1cil aos medicamentos<\/strong><\/div>\n<div><strong>2) perda do tabu em rela\u00e7\u00e3o a inje\u00e7\u00f5es<\/strong><\/div>\n<div><strong>3)hist\u00f3ria familiar de depend\u00eancia<\/strong><\/div>\n<div><strong>4) problemas emocionais<\/strong><\/div>\n<div><strong>5) estresse no trabalho e em casa<\/strong><\/div>\n<div><strong>6) busca de emo\u00e7\u00f5es fortes<\/strong><\/div>\n<div><strong>7) auto-administra\u00e7\u00e3o no tratamento para dor e para o humor<\/strong><\/div>\n<div><strong>8 ) fadiga cr\u00f4nica<\/strong><\/div>\n<div><strong>9) onipot\u00eancia e padr\u00e3o de prescri\u00e7\u00e3o exagerada<\/strong><\/div>\n<div><strong>10) os de especialidade de alto risco (Anestesiologia, Emerg\u00eancia e Psiquiatria)<\/strong><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEPOIMENTO:<\/strong><br \/>\n<strong><span>Super-her\u00f3i de carne e osso<\/span><\/strong><br \/>\n<em>Uma m\u00e9dica e professora universit\u00e1ria de Belo Horizonte que n\u00e3o quer ser identificada conversou com o Sa\u00fade Plena. Ela ser\u00e1 chamada de M\u00e1rcia e conta que j\u00e1 se envolveu emocionalmente em hist\u00f3rias n\u00e3o apenas de colegas de profiss\u00e3o, mas de amigos e nomes de refer\u00eancias na medicina que se perderam em jornadas exorbitantes de trabalho que, segundo ela, variam entre 80 a 100 horas semanais. \u201cO m\u00e9dico tem adoecido por um excesso de cobran\u00e7a, falta de descanso, de sono reparador, uma dieta inadequada, falta de tempo com a fam\u00edlia e de uma atividade f\u00edsica, um quadro que leva a uma sobrecarga mental. A carga de responsabilidade \u00e9 t\u00e3o grande que muitas vezes conduz a um estado de exaust\u00e3o\u201d, afirma ela. <\/em><\/p>\n<p><em>Nas tr\u00eas hist\u00f3rias que M\u00e1rcia acompanhou de perto os profissionais n\u00e3o procuraram ajuda. \u201cA fiscaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 r\u00edgida a esse ponto. O m\u00e9dico pode, por exemplo, prescrever o rem\u00e9dio para esposa, mas para ele usar. Eu mesma j\u00e1 prescrevi para mim. \u00c0s vezes \u00e9 uma quest\u00e3o de praticidade e pode come\u00e7ar com um medicamento para ajudar a dormir. No meu caso, nunca me tratei sozinha e nunca fui dependente de nada, mas tenho v\u00e1rias hist\u00f3rias para contar de ex-professores e amigos. Eles precisaram ser afastados e, em alguns casos, se envolveram at\u00e9 em problemas judiciais\u201d, relata. <\/em><\/p>\n<p><em>O primeiro foi de uma professora refer\u00eancia em trauma com atua\u00e7\u00e3o no setor de urg\u00eancia e emerg\u00eancias de hospitais na cidade. \u201cEra uma pessoa extremamente capacitada, mas tinha uma jornada de trabalho de quase 100 horas semanais. Ela amava o trabalho que fazia e n\u00e3o era casada. N\u00e3o cuidava quase nada da vida pessoal. Foi quando come\u00e7ou a injetar no pr\u00f3prio corpo um medicamento chamado fentanil que traz uma sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio, mas \u00e9 perigos\u00edssimo porque causa v\u00e1rias altera\u00e7\u00f5es no organismo e pode at\u00e9 provocar a morte das pessoas. Ela entrou num ciclo de v\u00edcio t\u00e3o grande que come\u00e7ou a roubar o rem\u00e9dio do hospital para sustentar o v\u00edcio. Lembro de um dia ela chegar na sala de aula com a marca do garrote no bra\u00e7o. Foi um choque muito grande por ela ser uma refer\u00eancia para in\u00fameros profissionais e parou, inclusive, de exercer a medicina\u201d, conta.<\/em><\/p>\n<p><em>M\u00e1rcia tamb\u00e9m se recorda de uma hist\u00f3ria que, infelizmente acabou em morte. \u201cEle era um padrinho na medicina para mim. Al\u00e9m da gradua\u00e7\u00e3o em medicina, tinha tamb\u00e9m a de farm\u00e1cia. \u00c9 um exemplo de um profissional que trabalhava muito e come\u00e7ou a oscilar entre buscar uma vida mais equilibrada e entrar na destrui\u00e7\u00e3o total. Nesse per\u00edodo, os colegas mais pr\u00f3ximos costumavam brincar que ele tinha a \u00e9poca do zig, em que comia bem, dormia bem, n\u00e3o bebia e fazia exerc\u00edcio f\u00edsico; e a \u00e9poca do zag, em que bebia todos os dias e, por compuls\u00e3o alimentar, comia tudo que viesse na cabe\u00e7a. Teve um dia em que ele foi buscar umas daquelas fitinhas de exame para detec\u00e7\u00e3o de glicose na urina e foi ao banheiro. Como ficou um pouco de urina na m\u00e3o dele e ele segurou as fitinhas, fez o exame e acabou descobrindo que estava diab\u00e9tico. A press\u00e3o arterial dele tamb\u00e9m era desequilibrada e, aos 53 anos, faleceu de infarto agudo do mioc\u00e1rdio\u201d, recorda-se. <\/em><\/p>\n<p><em>A m\u00e9dica cita tamb\u00e9m o caso de uma colega casada e com filhos que pegava muitos plant\u00f5es por semana para, segundo M\u00e1rcia, pagar as contas. \u201cEla n\u00e3o descansava. Uma noite, saindo de um desses plant\u00f5es, foi convidada para tomar cerveja e aceitou. Algu\u00e9m ofereceu para ela um cigarro que tinha crack. Ela fumou sem saber e come\u00e7ou a se viciar. Tenho amigos que chegaram a busc\u00e1-la em cracol\u00e2ndia completamente fora de si. J\u00e1 faz tr\u00eas anos que ela est\u00e1 em fase de recupera\u00e7\u00e3o\u201d, narra. Para ela, a colega descobriu no crack um mecanismo de fuga para aliviar a tens\u00e3o e tir\u00e1-la da rotina ma\u00e7ante.<\/em><\/p>\n<p><em>M\u00e1rcia acredita que a sensa\u00e7\u00e3o de uma suposta autossufici\u00eancia dificulta que o m\u00e9dico procure ajuda. \u201cSou m\u00e9dico, sei me tratar. \u00c9 como se o m\u00e9dico n\u00e3o pudesse fracassar e n\u00e3o pudesse mostrar esse lado humano. E a sociedade ainda acha que o m\u00e9dico sempre tem que dar conta, mas somos um super-her\u00f3i de carne e osso, t\u00e3o carne e osso quanto o paciente\u201d, pondera. Para ela, \u00e9 importante refletir: \u201cat\u00e9 que ponto vale a pena trabalhar tanto parar sustentar um padr\u00e3o de vida?\u201d. <\/em><\/p>\n<p><em>A m\u00e9dica, que se inscreveu para participar da I Jornada de Sa\u00fade Mental dos M\u00e9dicos, diz que gostaria de convidar os colegas a refletir sobre os seguintes pontos: tempo de jornada de trabalho, tempo para praticar exerc\u00edcio f\u00edsico, tempo para estar com os filhos e com a fam\u00edlia, cuidado com a alimenta\u00e7\u00e3o. Ela cita o modelo \u2018Dahlgren &amp; Whitehead\u2019 de qualidade de vida para nortear a aten\u00e7\u00e3o que as pessoas devem dar aos fatores que est\u00e3o relacionados \u00e0 sa\u00fade.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Diario de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autossufici\u00eancia \u00e9 a palavra que pode sintetizar a dificuldade que o m\u00e9dico tem de procurar ajuda quando adoece. No livro, \u2018M\u00e9dico como Paciente\u2019, a autora e doutora em psiquiatria Alexandrina Meleiro cita o benef\u00edcio da ignor\u00e2ncia como um fator que protege a pessoa leiga de compreender o que vai lhe acontecendo e permite que esse [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"","ocean_second_sidebar":"","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"","ocean_custom_header_template":"","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"","ocean_menu_typo_font_family":"","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"","ocean_post_oembed":"","ocean_post_self_hosted_media":"","ocean_post_video_embed":"","ocean_link_format":"","ocean_link_format_target":"self","ocean_quote_format":"","ocean_quote_format_link":"post","ocean_gallery_link_images":"on","ocean_gallery_id":[]},"categories":[9],"tags":[658,75],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18169"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18169"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18169\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18171,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18169\/revisions\/18171"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}