{"id":212,"date":"2010-07-21T14:56:30","date_gmt":"2010-07-21T14:56:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=212"},"modified":"2011-07-09T15:01:34","modified_gmt":"2011-07-09T15:01:34","slug":"cidades-de-acucar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/cidades-de-acucar\/","title":{"rendered":"Cidades de a\u00e7\u00facar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Assuero Gomes<\/strong> \/\/ M\u00e9dico e  Escritor<\/p>\n<p>O a\u00e7\u00facar, verdadeiro ouro branco, riqueza primeira deste Brasil  chamado Pernambuco, que construiu cidades, domesticou feras, domou florestas e  espa\u00e7os in\u00f3spitos, que acordou a cobi\u00e7a de povos, que escravizou corpos  d&#8217;\u00c1frica, que dizimou \u00edndios, que ergueu monumentos, sacr\u00e1rios,  civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Alvo mel em peda\u00e7os e em p\u00f3 fez a fortuna de poucos e a  desgra\u00e7a de muitos. Procurou caminhos rio a dentro, povoou margens, elevou belas  igrejas, importou arte e artistas, e invasores. Casar\u00f5es e senzalas, cantos e  lamentos, batuques e festejos, a\u00e7oites noite a dentro, encantos e assombra\u00e7\u00f5es,  sinhazinhas e escravas marcadas em brasa.<\/p>\n<p>A\u00e7\u00facar que patrocinou uma das  manifesta\u00e7\u00f5es mais ricas da cultura do Brasil e sua culin\u00e1ria maravilhosa (aqui  um registro \u00e0 primeira dama da culin\u00e1ria pernambucana, D. Lect\u00edcia Cavalcanti)  com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s suas doces iguarias; a\u00e7\u00facar que permitiu aos sinhozinhos  estudarem na Europa e se fazerem mestres na arte e no of\u00edciodo direito e da  medicina, foi tamb\u00e9m o a\u00e7\u00facar e seu monop\u00f3lio agricultural que cavou um abismo  de distribui\u00e7\u00e3o de renda, at\u00e9 hoje intranspon\u00edvel, e que reflete no dia a dia  desta parte da na\u00e7\u00e3o; e foi o a\u00e7\u00facar de Pernambuco que fez acontecer uma coisa  de arrepiar os soci\u00f3logos que ousem estudar nossa hist\u00f3ria e nosso comportamento  social. O casamento da aristocracia canavieira em decad\u00eancia com a emergente  burguesia comercial e industrial, concentrando mais ainda a riqueza, queimando  uma etapa de luta e evolu\u00e7\u00e3o social, e praticamente esmagando quaisquer  possibilidades de organiza\u00e7\u00e3o e mobilidade das classes de trabalhadores rurais  sem nenhuma propriedade ou bem de produ\u00e7\u00e3o e a classe do proletariado  urbano.<\/p>\n<p>A cultura da cana de a\u00e7\u00facar criou cidades entre antigos engenhos  e perto das usinas. Cidades de a\u00e7\u00facar com casas de a\u00e7\u00facar, pra\u00e7as de a\u00e7\u00facar,  ruas ribeirinhas sem tra\u00e7ado urbano, sem esgoto, sem drenagem. Cidadania de  a\u00e7\u00facar. Cidades bonitas, de doces folguedos para os filhos dos senhores que  vinham de f\u00e9rias da capital, cidades banhadas de cacha\u00e7a entre uma safra e  outra, entre uma esmola e outra, ou um par de sand\u00e1lias em novembro.<\/p>\n<p>O  a\u00e7\u00facar \u00e9 doce, por\u00e9m derrete. E as casas se foram, e as ruas se foram, na  primeira chuva. E o doce se esvaiu como uma lembran\u00e7a fortuita. Como um algod\u00e3o  doce que se vai \u00e0 primeira saliva. Ficou apenas o melado acre e marrom. Ficaram  a dor e o futuro que n\u00e3o houve. Ficou o massap\u00ea onde a cana soberana \u00e9 senhora  de homens e animais, esparramado como a cobertura de um bolo chorado, onde havia  casas e ruas, e poucas escolas e poucos postos de sa\u00fade. Ficou a fr\u00e1gil  cidadania na lama feita com os registros civis, processos, anota\u00e7\u00f5es notariais.  Ficou o barro, donde se nasciam com arte os bonecos, bois, cavalos, feirantes,  santos, todos os santos.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, algo mais doce que o a\u00e7\u00facar, mais  perene e mais belo, \u00e9 a solidariedade. Essa brota como uma fonte silenciosa e  vai penetrando no cora\u00e7\u00e3o das pessoas, e vai mudando suas vidas na medida em que  elas mudam a vida dos outros. Acolher, cuidar, alimentar, agasalhar, saciar, s\u00e3o  palavras brotadas da fonte da solidariedade, na constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais  justo, onde a cobi\u00e7a cede \u00e0 fraternidade, onde o fac\u00e3o \u00e9 transformado em arado,  o a\u00e7oite em carinho, a boia fria em refei\u00e7\u00e3o partilhada de irm\u00e3os e irm\u00e3s,  iguais em direito e dignidade. Essa a chuva n\u00e3o derrete, nem a correnteza  destr\u00f3i.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Assuero Gomes \/\/ M\u00e9dico e Escritor O a\u00e7\u00facar, verdadeiro ouro branco, riqueza primeira deste Brasil chamado Pernambuco, que construiu cidades, domesticou feras, domou florestas e espa\u00e7os in\u00f3spitos, que acordou a cobi\u00e7a de povos, que escravizou corpos d&#8217;\u00c1frica, que dizimou \u00edndios, que ergueu monumentos, sacr\u00e1rios, civiliza\u00e7\u00e3o. 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