{"id":23764,"date":"2015-03-30T09:46:35","date_gmt":"2015-03-30T12:46:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=23764"},"modified":"2015-03-30T09:56:17","modified_gmt":"2015-03-30T12:56:17","slug":"por-uma-medicina-de-qualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/por-uma-medicina-de-qualidade\/","title":{"rendered":"Por uma medicina de qualidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A Academia Pernambucana de Medicina completa 45 anos em 2015. Fundada pelo professor Fernando Figueira, a institui\u00e7\u00e3o se consolidou ao longo dos anos como a casa da nata do saber m\u00e9dico do estado. Atualmente, \u00e9 presidida por Edmundo Machado Ferraz, que em dezembro do ano passado foi homenageado com o t\u00edtulo de professor em\u00e9rito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Reconhecido internacionalmente pelo trabalho cient\u00edfico desenvolvido, o presidente da APM foi o fundador do curso de doutorado em medicina da UFPE, ex-diretor do Hospital das Cl\u00ednicas, membro titular e fundador da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bari\u00e1trica e Metab\u00f3lica, consultor da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade e do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, entre outros cargos. Na d\u00e9cada de 1990, foi ainda o primeiro m\u00e9dico do Norte e Nordeste a realizar uma cirurgia bari\u00e1trica. Em entrevista ao Diario, Edmundo Ferraz fala sobre obesidade, a qualidade e o acesso \u00e0 sa\u00fade no Brasil, a expans\u00e3o dos cursos de medicina e atesta: a falta de recursos \u00e9 hoje o grande entrave do SUS, resultando em deteriora\u00e7\u00e3o total do sistema brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de tratar o paciente\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, existem atualmente 248 cursos de medicina. S\u00f3 entre 2011 e 2014, foram abertas mais de 60 novas gradua\u00e7\u00f5es na \u00e1rea. Em Pernambuco, nos \u00faltimos tr\u00eas anos, a quantidade de cursos m\u00e9dicos aumentou em um ter\u00e7o. O mercado crescente significa melhora no sistema de sa\u00fade?<br \/>\nA Academia Pernambucana de Medicina tem mais de 40 anos de atividade e sempre foi uma institui\u00e7\u00e3o com grande preocupa\u00e7\u00e3o no ensino da sa\u00fade. A\u00a0 \u00e1rea est\u00e1 sofrendo uma falta de qualidade na implanta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e institui\u00e7\u00f5es. A gente observa todo dia o crescimento enorme de hospitais e de outras institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade que n\u00e3o funcionam porque n\u00e3o foram preparadas antes de serem inauguradas. O crescimento dos hospitais em Pernambuco foi enorme, mas sem qualidade. A gente v\u00ea hospitais que n\u00e3o t\u00eam a menor condi\u00e7\u00e3o de tratar doente grave. O indiv\u00edduo que mora no Sert\u00e3o tem que ser removido, n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de ser tratado em uma cidade pequena, sobretudo de doen\u00e7as de evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, acidentes automobil\u00edsticos. Isso leva a uma migra\u00e7\u00e3o em massa de pacientes para o Recife, para serem minimamente tratados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O senhor foi diretor-superintendente do Hospital das Cl\u00ednicas, unidade universit\u00e1ria de sa\u00fade da UFPE. Como analisa a atual situa\u00e7\u00e3o dos hospitais universit\u00e1rios?<br \/>\nH\u00e1 um colapso nos hospitais universit\u00e1rios. Da funda\u00e7\u00e3o do HC para hoje, houve uma deteriora\u00e7\u00e3o do setor p\u00fablico, que est\u00e1 se acentuando particularmente nos \u00faltimos quatro anos. Acontece por causa da m\u00e1 gest\u00e3o, da incapacidade de gerir os problemas t\u00e9cnicos nas \u00e1reas de engenharia, f\u00e1rmacia\u2026 Em todas as atividades que lidam com sa\u00fade. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a falta de investimento, \u00e9 a falta de conhecimento. S\u00e3o pessoas que n\u00e3o conhecem o que est\u00e3o fazendo e, por motivos pol\u00edticos, s\u00e3o arroladas para certas regi\u00f5es para serem respons\u00e1veis pela sa\u00fade e isso \u00e9 um desastre. Isso acontece n\u00e3o s\u00f3 em Pernambuco, mas no Brasil inteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Empresa Brasileira de Servi\u00e7os Hospitalares (Ebserh), vinculada ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, foi criada para coordenar o programa de reestrutura\u00e7\u00e3o dos hospitais universit\u00e1rios brasileiros. Dentre as unidades geridas por ela, est\u00e1 o Hospital das Cl\u00ednicas da UFPE. A entrada da Ebserh pode significar uma mudan\u00e7a qualitativa na unidade?<br \/>\nEsse \u00e9 um quadro muito tumultuado. A Ebserh \u00e9 uma entidade criada para resolver a burocracia da demora do atendimento, das licita\u00e7\u00f5es, quest\u00f5es pr\u00f3prias do setor p\u00fablico. Mas os recursos desapareceram, como aconteceu nos outros setores do Brasil inteiro. Quando ela chegou no HC, fez uma s\u00e9rie de incurs\u00f5es na estrutura no hospital, mas isso durou poucos meses, porque o governo n\u00e3o consegue jogar recursos. Ent\u00e3o, aquela miss\u00e3o de recuperar os hospitais universit\u00e1rios n\u00e3o est\u00e1 sendo cumprida. O HC deu uma melhorada, recebeu equipamentos, deu esperan\u00e7a em per\u00edodo curto e hoje n\u00e3o d\u00e1 mais. Isso mostra o quanto o sistema p\u00fablico de sa\u00fade est\u00e1 em fal\u00eancia t\u00e9cnica, de incentivo fiscal e de recursos financeiros. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o vi nessa mesma intensidade em meus 40 anos de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O programa Mais M\u00e9dicos foi criado pelo governo federal com a miss\u00e3o de investir em infraestrutura e profissionais para qualificar o Sistema \u00danico de Sa\u00fade, resolvendo sobretudo a quest\u00e3o do acesso aos servi\u00e7os b\u00e1sicos. Ent\u00e3o, seria ele capaz de reverter\u00a0 a atual situa\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica brasileira?<br \/>\nIsso era uma grande esperan\u00e7a quando surgiu, mas n\u00e3o h\u00e1 financiamento. O dinheiro que se tinha imaginado para esse objetivo deixou de ser aplicado. Com falta de recurso, n\u00e3o se mant\u00e9m o que j\u00e1 tava feito nem se cria absolutamente nada. Se voc\u00ea percorrer o pa\u00eds inteiro, o cen\u00e1rio \u00e9 o mesmo. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de tratar o paciente. Pernambuco, apesar de ser um estado pequeno, tinha uma estrutura bem razo\u00e1vel e nem isso tem mais. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de operar uma apendicite aguda em 90% dos munic\u00edpios do estado. Uma opera\u00e7\u00e3o resolvida em meia hora. Isso se repete at\u00e9 em S\u00e3o Paulo, um estado rico, mas que viu o setor p\u00fablico ter uma quebra vertiginosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Metade dos brasileiros est\u00e1 acima do peso e quase 20% destes est\u00e3o obesos. O senhor foi o primeiro m\u00e9dico a realizar uma cirurgia bari\u00e1trica no Norte e Nordeste do pa\u00eds, ainda nos anos 1990. Por que a obesidade permanece preocupando tanto os m\u00e9dicos?<br \/>\nA obesidade \u00e9 um dos desvios que acontece com o progresso. Antigamente, s\u00f3 ficava gordo quem era rico, hoje em dia n\u00e3o tem mais essa. A obesidade \u00e9 uma endemia que ocorreu no mundo inteiro. Quando ela come\u00e7ou no Brasil, eram casos menos frequentes. Depois que operei o primeiro paciente, no HC, veio uma enxurrada de doente que a gente nem imaginava existir. A obesidade \u00e9 um problema s\u00e9rio, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de tratamento muito dif\u00edcil. Cansei de ter pacientes com 300 kg que, depois da cirurgia, diminu\u00edam para 70kg, mas voltavam a engordar cerca de dois anos ap\u00f3s o procedimento. Eles ficam na faixa dos 100kg, o que para uma pessoa de at\u00e9 1,70 metro \u00e9 uma calamidade. Um superobeso dificilmente chega aos 60 anos.\u00a0 Ele morre de hipertens\u00e3o, de cardiopatias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos termos mais ressaltados quando se fala em medicina atualmente \u00e9 a humaniza\u00e7\u00e3o. Para o senhor, o que contribuiu ao longo dos anos para o distanciamento dos m\u00e9dicos com os pacientes?<br \/>\nIsso \u00e9 problema s\u00e9rio, o que acontece \u00e9 que a prepara\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico mudou muito nos \u00faltimos anos, ele tem que correr muito para preencher os empregos que tem e tratar a demanda de pacientes, que tamb\u00e9m aumentou muito. Isso gera m\u00e1 qualidade do atendimento. Nenhum estudante de medicina sai da gradua\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de tratar ningu\u00e9m, isso ele obt\u00e9m na resid\u00eancia m\u00e9dica. Al\u00e9m do contexto da sociedade atual, onde todo mundo quer se dar bem. O estudante, sobretudo se ele for de fam\u00edlia mais pobre, vai querer uma qualidade de vida melhor. Ent\u00e3o, nem sempre ele pode se dedicar a uma resid\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">saiba mais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Academia Pernambucana de Medicina<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criada em 17 de dezembro de 1970, pelo professor Fernando Figueira<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Localizada atualmente no Memorial da Medicina de Pernambuco<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ex-presidentes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Jorge Sim\u00e3o dos Santos Figueira (1970 \u2013 1998)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salom\u00e3o Kelner (1998 \u2013 2000)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bertoldo Kruse Grande de Arruda (03\/2000 \u2013 12\/2000)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Geraldo Jos\u00e9 Marques Pereira (2000 &#8211; 12\/2012)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edmundo Machado Ferraz (2013 &#8211; em exerc\u00edcio)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Diario de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Academia Pernambucana de Medicina completa 45 anos em 2015. 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