{"id":24860,"date":"2015-05-27T10:31:44","date_gmt":"2015-05-27T13:31:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=24860"},"modified":"2015-05-27T10:31:44","modified_gmt":"2015-05-27T13:31:44","slug":"%e2%80%9co-pais-nao-precisa-de-nenhum-outra-droga-legalizada%e2%80%9d","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/%e2%80%9co-pais-nao-precisa-de-nenhum-outra-droga-legalizada%e2%80%9d\/","title":{"rendered":"\u201cO Pa\u00eds n\u00e3o precisa de nenhum outra droga legalizada\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o precisamos de nenhuma outra roga legalizada\u201d. Esse \u00e9 o recado em tom e alerta da m\u00e9dica psiquiatra, professora filiada da Universidade Federal de S\u00e3o aulo (Unifesp) e presidente da Associa\u00e7\u00e3o brasileira de Estudos do \u00c1lcool e Outras Drogas (Abead), Ana Cec\u00edlia Marques. A especialista estar\u00e1 no Recife, na pr\u00f3xima sexta-feira, para um encontro onde ser\u00e3o discutidos temas como preven\u00e7\u00e3o, consumo de drogas e fam\u00edlia. A psiquiatra conversou com a Folha de Pernambuco sobre os desafios que o Pa\u00eds ainda tem pela frente no combate as drogas. Ana Cec\u00edlia Marques destacou que, apesar do cen\u00e1rio ca\u00f3tico, ainda acredita que o Brasil possa se \u201cendireitar\u201d, se houver um debate mais s\u00e9rio sobre a quest\u00e3o e mais clareza das a\u00e7\u00f5es governamentais sobre o tema. A especialista fez, ainda, cr\u00edticas sobre as estrat\u00e9gias de redu\u00e7\u00e3o de danos aplicadas e sobre a necessidade urgente que h\u00e1 em qualificar os profissionais que tratam dos usu\u00e1rios\/pacientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A senhora acha que o Brasil esta perdendo a guerra contra as drogas? A atual situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds pode agravar o cen\u00e1rio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em minha opini\u00e3o, quando um Pa\u00eds passa por tantas crises como aquelas que vivemos, a econ\u00f4mica, a educacional, na sa\u00fade e, portanto, social, o uso de drogas tende sim ao aumento. O que piora o cen\u00e1rio \u00e9 que no Brasil j\u00e1 estava em uma curva ascendente em rela\u00e7\u00e3o ao consumo de todas as drogas. Mas, mesmo assim, n\u00e3o penso que estamos perdendo a guerra. Estamos no come\u00e7o, e se pudermos \u201cendireitar\u201d as pol\u00edticas poderemos vencer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 ocorrendo um debate cego sobre as drogas no Pa\u00eds?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso que sim, pois n\u00e3o se discute os reais interesses que est\u00e3o por tr\u00e1s do com\u00e9rcio de qualquer droga, os interesses econ\u00f4micos. Fala-se apenas do direito individual de usar, como se o uso n\u00e3o afetasse o coletivo, n\u00e3o estivesse submetido \u00e0s leis de um mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A perspectiva de redu\u00e7\u00e3o de danos com a utiliza\u00e7\u00e3o de outras subst\u00e2ncias psicoativas, como acontece emoutras partes do Mundo, \u00e9 equivocada?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 equivocado. Vem sendo testada h\u00e1 muito tempo em alguns pa\u00edses desenvolvidos. Um dos protocolos utilizados \u00e9 o uso de drogas com o mesmo perfil farmacol\u00f3gico da droga de abuso, para que seja poss\u00edvel retirar a droga prim\u00e1ria, da depend\u00eancia. Mas, comm\u00e9todo avaliado para aferir a efetividade. S\u00f3 temos um exemplo referendado pela ci\u00eancia, em fun\u00e7\u00e3o dos primeiros resultados positivos, que \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o de hero\u00edna pela metadona. Hoje os resultados t\u00eam se mostrado regulares. O segundo protocolo \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o de seringas e agulhas utilizadas pelos usu\u00e1rios de drogas injet\u00e1veis para que n\u00e3o se contaminem com doen\u00e7as infectocontagiosas, como s\u00edfilis, hepatites e aids. Nesse caso n\u00e3o estamos tratando a depend\u00eancia, mas evita-se a complica\u00e7\u00e3o. Existem pa\u00edses que n\u00e3o conseguiram a efetividade esperada com esses m\u00e9todos. No Brasil, a redu\u00e7\u00e3o de danos se tornou uma panac\u00e9ia, serve para tudo. Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acredita que falta pol\u00edtica p\u00fablica para o tema?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos engatinhando. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds jovem, que vem vivendo suas epidemias de drogas no \u00faltimo s\u00e9culo, diferente dos outros pa\u00edses. Precisamos desenvolver pol\u00edticas pr\u00f3prias, incluir a cultura de cada regi\u00e3o do Pa\u00eds, para que funcione. N\u00e3o \u00e9 erro, \u00e9 hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o para se escolher ser \u201ccontra ou a favor\u201d. \u00c9 um fen\u00f4meno humano e assim precisa ser estudado para escolher o melhor caminho, que \u00e9 complexo. N\u00e3o basta mudar uma lei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito se fala do reflexo negativo das drogas na sa\u00fade p\u00fablica e desenvolvimento social. Poder\u00edamos dimension\u00e1los?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos um relat\u00f3rio mundial, realizado pela OMS a cada quatro anos, e enviado para todos os pa\u00edses. Ele mostra quais s\u00e3o os fatores que mais incapacitam a popula\u00e7\u00e3o e que causam mortalidade precoce, no caso do Brasil o primeiro \u00e9 o \u00e1lcool e o terceiro o tabaco. Significa que as duas drogas s\u00e3o as causas que pesam mais na determina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as graves, como cardiovasculares, respirat\u00f3rias, gastrointestinais e c\u00e2nceres, que outros problemas. Tais pol\u00edticas deveriam ser prioridades de qualquer governo. Temos alguns estudos econom\u00e9tricos que mostram o custo do tabagismo no Brasil: R$ 21 bilh\u00f5es ao ano!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro tema bem pol\u00eamico \u00e9 no trato com os usu\u00e1rios. Como trat\u00e1-los?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00e3o mocinhos. Muito menos bandidos. H\u00e1 muito tempo que lutamos contra o estigma. Contra o preconceito, e n\u00e3o contra usu\u00e1rio. Mesmo quando o modelo de uso de drogas era o moral, o usu\u00e1rio n\u00e3o era bandido, ele era considerado uma v\u00edtima. Penso que ainda estamos \u201cparalizados\u201d nessa vis\u00e3o. Precisamos avan\u00e7ar. Nem o usu\u00e1rio dependente sabe que tem direito ao tratamento de uma doen\u00e7a que se desenvolve no c\u00e9rebro, nem a popula\u00e7\u00e3o sabe que tem direito de n\u00e3o usar drogas. Isso \u00e9 muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crack virou foco das discuss\u00f5es e campanhas nacionais. Quais os motivos que levaramo consumo dessa droga a crescer no Pa\u00eds?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 v\u00e1rios aspectos. Primeiro, a coca\u00edna fumada \u00e9 altamente depend\u00f3gena. Assim como o tabaco e a hero\u00edna,\u00a0pode levar a depend\u00eancia em meses. E depois vem todo o resto, que s\u00e3o as consequ\u00eancias, desde o abandono da pr\u00f3pria vida social, familiar, at\u00e9 as mais graves doen\u00e7as, entre elas a aids. Al\u00e9m do mais \u00e9 uma droga suja, t\u00f3xica, adoece r\u00e1pido. E mais: n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica que o indiv\u00edduo utiliza, estamos falando de um usu\u00e1rio bastante vulner\u00e1vel, poliusu\u00e1rio. \u00c9 uma carreira que j\u00e1 come\u00e7ou bem antes. Parece-me que ficar olhando para o crack, com tantas limita\u00e7\u00f5es, n\u00e3o vai resolver o problema. Vai nos deixar mais cegos sobre quais caminhos temos que escolher, pois o problema no Brasil s\u00e3o as drogas l\u00edcitas para adultos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO pa\u00eds n\u00e3o precisa de nenhuma outra droga legalizada\u201d. A que se referiu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As drogas psicotr\u00f3picas que alguns querem liberar n\u00e3o s\u00e3o drogas simples. N\u00e3o estamos falando de medicamentos. Mas sim de subst\u00e2ncias que alteram a capacidade de qualquer um de n\u00f3s decidir, discernir, resolver problemas e de dizer n\u00e3o! Temos drogas legalizadas que n\u00e3o est\u00e3o suficientemente reguladas. Os medicamentos que podem ser origin\u00e1rios de drogas psicotr\u00f3picas devem ser profundamente estudados. E, se liberados para tratamento,\u00a0regulados rigidamente, de forma a proteger quem os utilizar\u00e1 e os demais tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rias cidades t\u00eam investido tem estrat\u00e9gias contra o crack, a exemplo de S\u00e3o Paulo. H\u00e1 algum case de sucesso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil n\u00e3o tem um case do crack. N\u00e3o que eu conhe\u00e7a. Estamos engatinhando, infelizmente. Em S\u00e3o Paulo h\u00e1 muitas a\u00e7\u00f5es, sim, mas n\u00e3o \u00e9 um case ainda. A cidade tem o programa do Recome\u00e7o, que \u00e9 um programa de tratamento, e o projeto Bra\u00e7os Abertos, onde \u00e9 ofertada a reinser\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios no\u00a0trabalho, e em moradias. Ma s\u00e3o programas que est\u00e3o no in\u00edcio. E s\u00f3 o acompanhamento no longo prazo, em torno de 12 meses, produzir algum resultado confi\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 interna\u00e7\u00e3o com puls\u00f3ria. A senhora acredit que essa medida \u00e9 v\u00e1lida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acredito que serve par poucos casos, que dependo da utiliza\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios claros, como foi utilizada e S\u00e3o Paulo. Para qualquer tip de interna\u00e7\u00e3o tem que ter crit\u00e9rios. Ningu\u00e9m sai internan do qualquer pessoa. Na inter na\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, o pacient aceita a recomenda\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico e segue para o loca onde desenvolver\u00e1 seu tratamento. Na involunt\u00e1ria, o m\u00e9 dico e fam\u00edlia, diante de risc de morte para ele ou para outrem, recomenda a inter na\u00e7\u00e3o. A compuls\u00f3ria \u00e9 de terminada pelo juiz, quand algum crime foi cometido e usu\u00e1rio precisa de tratamen to. Por exemplo, crian\u00e7as e situa\u00e7\u00e3o de rua sem qualquer cuidado, ou adultos co transtornos mentais na mesma situa\u00e7\u00e3o. De mil interna\u00e7\u00f5es que foram recomendadas no ano de 2014 menos de 1% foi compuls\u00f3ria A maioria foi volunt\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que falar das comunidade terap\u00eauticas, j\u00e1 que a maioria emprega a religiosidade com tratamento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 tratamento. A comu nidade terap\u00eautica faz rein ser\u00e7\u00e3o social. O indiv\u00edduo s trata nos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como avan\u00e7ar na capacita\u00e7\u00e3 dos profissionais que lida com a depend\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tem outra sa\u00edda. Temos que habilitar os profissionais O governo federal deve dire cionar os recursos do crac para esse fim. Ningu\u00e9m sabia e ainda sabemos pouco sobr o tratamento da depend\u00eancia de crack. \u00c9 preciso capacita todos, as emerg\u00eancias, Samu, os agentes comunit\u00e1 rios de sa\u00fade, o m\u00e9dico d PSF e, principalmente, o Caps. Mas o que estamos as sistindo \u00e9 CAPS semm\u00e9dicos como se a equipe multidisci plinar n\u00e3o fosse important para manejar tal problema Como podemos tratar um doen\u00e7a t\u00e3o grave, maligna como \u00e9 a depend\u00eancia, se essa articula\u00e7\u00e3o dos profis sionais e da sociedade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Folha de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o precisamos de nenhuma outra roga legalizada\u201d. Esse \u00e9 o recado em tom e alerta da m\u00e9dica psiquiatra, professora filiada da Universidade Federal de S\u00e3o aulo (Unifesp) e presidente da Associa\u00e7\u00e3o brasileira de Estudos do \u00c1lcool e Outras Drogas (Abead), Ana Cec\u00edlia Marques. 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