{"id":29313,"date":"2016-03-02T10:13:34","date_gmt":"2016-03-02T13:13:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=29313"},"modified":"2016-03-02T10:21:21","modified_gmt":"2016-03-02T13:21:21","slug":"sofrimento-de-idosos-e-de-partir-o-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/sofrimento-de-idosos-e-de-partir-o-coracao\/","title":{"rendered":"Sofrimento de idosos \u00e9 de partir o cora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Quem sai do interior muito cedo, aprende a sentir cada volta como reencontro com um fio que nunca se parte. Enquanto o tempo se p\u00f5e em marcha e n\u00e3o permite ver os estragos que causa, a import\u00e2ncia dos mais velhos vai se fortalecendo nas muitas li\u00e7\u00f5es transmitidas e nas in\u00fameras demonstra\u00e7\u00f5es de amor, quase sempre incondicional. Voltar acaba sendo uma reafirma\u00e7\u00e3o do melhor da vida. Da\u00ed por que ao menos supor que o fim da estrada n\u00e3o reservar\u00e1 a eles a paz merecida e sim sofrimento e desamparo, angustia. Deparar-se com esta certeza, ent\u00e3o, faz um mal imenso. H\u00e1 pouco mais de dois meses, inaugurei uma \u00e9poca da vida em que ir ao Agreste significa voltar com o cora\u00e7\u00e3o partido. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil v\u00ea-los chorando de dor, v\u00e1rias vezes ao dia, pedindo para Deus apressar o dia da \u201cviagem\u201d. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil dizer que n\u00e3o existe rem\u00e9dio, tratamento ou esperan\u00e7a de ver a sa\u00fade novamente de volta. A maioria parece nem mesmo conseguir entender o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim das contas, ningu\u00e9m entende, pois como pode a vida ter passado, num piscar de olhos, para o comando de um mosquito contra o qual as armas parecem de brinquedo? Na tentativa de traduzir o assombro que sentem diante do inimigo poderoso e quase invisivel, os velhos remexem na mem\u00f3ria. Ao longo de tantos anos, viram a medicina desafiada incont\u00e1veis vezes, mas nunca com tamanha for\u00e7a. Muitos at\u00e9 desconfiam que a ci\u00eancia pode estar redondamente enganada ao imaginar tanto desmantelo surgindo de apenas um inseto e ficam entre a d\u00favida e o abatimento sempre que escutam algu\u00e9m enumerando as doen\u00e7as transmitidas por ele: dengue, zica v\u00edrus, chikungunya, S\u00edndrome de Guillain- Barr\u00e9, microcefalia e agora, miosite. Diante dos notici\u00e1rios de tv em que se veem diante da imagem de larvas do Aedes aegypti em movimento fren\u00e9tico dentro de tubos de ensaio, repetem que, quando eram jovens, aquilo n\u00e3o passava de \u201cmartelinhos\u201d pulando em \u00e1gua parada. Nada que significasse amea\u00e7a a ser levada a s\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se faltam certezas, rem\u00e9dios que devolvam os m\u00fasculos, as for\u00e7as, nada mais plaus\u00edvel do que encerrar qualquer conversa sobre o mosquito com a frase \u201c\u00e9 o fim dos tempos\u201d. O diagn\u00f3stico parece sob medida para explicar casamento perfeito entre a religi\u00e3o e a falta de confian\u00e7a nos recursos da medicina para combater o problema. Eles, os doentes, n\u00e3o s\u00f3 parecem mais tristes como est\u00e3o, de fato. Dizem (afinal, somos uma ilha cercada de d\u00favidas por todos os lados) que nos idosos as dores causadas pelo v\u00edrus da chikungunya contribuem para desencadear ou alimentar o fantasma da depress\u00e3o, por si s\u00f3 uma doen\u00e7a que \u201cn\u00e3o se deseja ao pior inimigo\u201d. Nas emerg\u00eancias lotadas de hospitais particulares ou na recep\u00e7\u00e3o das policl\u00ednicas, o semblante deles \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o do desamparo. Mesmo em volta da mesa do caf\u00e9 da tarde, cen\u00e1rio que costuma resumir a alegre ideia de fam\u00edlia, est\u00e3o cabisbaixos ou repetitivos, a lembrar, pela en\u00e9sima vez, que \u201cisso n\u00e3o \u00e9 vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na igreja do bairro, j\u00e1 n\u00e3o aparecem. As pernas n\u00e3o ajudam, embora tenham tanto a pedir. Ouvi de muitos, que desistiram de rezar durante as incont\u00e1veis horas presos \u00e0 cama, pois n\u00e3o veem a reza \u201csurtir efeito\u201d. Sofrem de certa desorienta\u00e7\u00e3o, inclusive, fruto dos dias que passam de forma absolutamente igual \u2013 entre gemidos de dor e o bendito sono, \u00fanica possibilidade de esquec\u00ea-los. N\u00e3o \u00e9 mera impress\u00e3o \u2013 as cidades do interior ficaram mais tristes depois que o mosquito come\u00e7ou a sitiar o pa\u00eds, obrigando a uma esp\u00e9cie de toque de recolher: quando o rel\u00f3gio se aproxima das 18h, as portas v\u00e3o se fechando, as ruas, ficando mais vagas e silenciosas.<br \/>\nDurante o dia, muita gente passa com p\u00e9s e punhos inchados, reclamando que n\u00e3o consegue trabalhar. Os reflexos est\u00e3o na queda da produtividade na ind\u00fastria do estado: a tr\u00edplice epidemia (de dengue, zika e chikungunya) afetou 42,3% de 144 empresas pesquisadas pelo \u00f3rg\u00e3o que as representa, a Fiepe. Foram 15% de faltas no per\u00edodo, enquanto 80% disseram ter precisado afastar funcion\u00e1rios, por \u201cordem\u201d do mosquito. Neste caso, a ajuda aos idosos enfermos fica naturalmente reduzida, pois quem poderia prover os cuidados necess\u00e1rios tamb\u00e9m caiu doente. Como eu j\u00e1 disse, n\u00e3o h\u00e1 garantias de ir ao Agreste sem voltar com o cora\u00e7\u00e3o partido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Diario de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem sai do interior muito cedo, aprende a sentir cada volta como reencontro com um fio que nunca se parte. Enquanto o tempo se p\u00f5e em marcha e n\u00e3o permite ver os estragos que causa, a import\u00e2ncia dos mais velhos vai se fortalecendo nas muitas li\u00e7\u00f5es transmitidas e nas in\u00fameras demonstra\u00e7\u00f5es de amor, quase sempre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"","ocean_second_sidebar":"","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"","ocean_custom_header_template":"","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"","ocean_menu_typo_font_family":"","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"","ocean_post_oembed":"","ocean_post_self_hosted_media":"","ocean_post_video_embed":"","ocean_link_format":"","ocean_link_format_target":"self","ocean_quote_format":"","ocean_quote_format_link":"post","ocean_gallery_link_images":"on","ocean_gallery_id":[]},"categories":[9],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29313"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29313"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29313\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29315,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29313\/revisions\/29315"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}