{"id":29428,"date":"2016-03-08T09:54:07","date_gmt":"2016-03-08T12:54:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=29428"},"modified":"2016-03-08T09:54:07","modified_gmt":"2016-03-08T12:54:07","slug":"medicina-feita-com-o-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/medicina-feita-com-o-coracao\/","title":{"rendered":"Medicina feita com o cora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 primeira vista, a seriedade da neuropediatra Ana Van der Linden pode afastar um pouco. Mas \u00e9 s\u00f3 uma impress\u00e3o. A m\u00e9dica que virou refer\u00eancia na investiga\u00e7\u00e3o de casos de beb\u00eas com microcefalia \u00e9 cheia de delicadezas. Numa conversa franca, ela se deixa mostrar para al\u00e9m do jaleco que veste h\u00e1 50 anos. No dia em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o JC encerra a s\u00e9rie &#8220;Tr\u00eas mulheres, uma vida&#8221;, com o olhar de Ana sobre a maternidade e sua f\u00e9 numa medicina voltada, sobretudo, para as pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ciaracalves@gmail.com<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A senhora se permite chorar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No hospital, n\u00e3o. Eu s\u00f3 choro sozinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas j\u00e1 ocorreu de ir para uma salinha, um cantinho, sem ningu\u00e9m ver?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o. Aqui (no Imip) eu n\u00e3o posso. Aqui eu sou m\u00e9dica. Eu s\u00f3 choro em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como faz com a emo\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A emo\u00e7\u00e3o existe. Mas eu penso: Se eu chorar, o que vai ser delas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos seis meses, descobrir &#8220;o que vai ser delas?&#8221; tem sido praticamente a vida da neuropediatra Ana Van der Linden. &#8220;Delas&#8221;, leia-se, as m\u00e3es de beb\u00eas com microcefalia. Ana est\u00e1 no come\u00e7o de tudo. Foi ela a primeira m\u00e9dica, em conversa com a filha Vanessa Van der Linden, neuropediatra igual \u00e0 m\u00e3e, a identificar um n\u00famero at\u00edpico de nascimentos de beb\u00eas com a malforma\u00e7\u00e3o. O m\u00eas: setembro de 2015. Primeiro, surgiu um caso no Imip. Na semana seguinte, outro. &#8220;Medicina \u00e9 de par. Quando a gente v\u00ea um caso diferente sempre vem outro na sequ\u00eancia.&#8221; A m\u00e1xima, tantas vezes repetida pela m\u00e9dica, aqui teria outro desfecho. Em duas semanas, nove casos de crian\u00e7as nascidas no hospital com a malforma\u00e7\u00e3o. &#8220;A\u00ed eu disse: agora as coisas mudaram. Algo novo est\u00e1 acontecendo. Alguma coisa est\u00e1 errada.&#8221; Como se sabe, ela tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A velocidade com que tudo aconteceu e a gravidade do que se tem visto t\u00eam deixado marcas profundas em Ana. Como m\u00e3e e m\u00e9dica. &#8220;Eu saio daqui cansada, como se tivesse levado uma surra. Quando eu vejo uns dois beb\u00eas, d\u00e1 para aguentar. Mas quando vejo uns quatro&#8230;&#8221; Ana se parte por dentro. Mas isso, s\u00f3 ela v\u00ea. &#8220;Porque voc\u00ea tem que mostrar essa for\u00e7a. Fraqueza n\u00e3o pode fazer parte de seu semblante. Pelo contr\u00e1rio, tem que rir. Tem que brincar. E dizer assim: \u0091olha, ele fez isso, m\u00e3e! Amanh\u00e3 vai ainda mais longe.\u0092&#8221; Medicina \u00e9 f\u00e9. \u00c9, antes de tudo, acreditar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Setenta e cinco anos de vida. Cinquenta, de profiss\u00e3o. Os anos s\u00e3o apenas uma forma de contar o tempo. A doutora Ana \u00e9 uma mulher de hoje. Sua vida \u00e9 agora. &#8220;Modernidade \u00e9 maravilhoso, \u00e9 evolu\u00e7\u00e3o. Quando voc\u00ea deixa de evoluir, voc\u00ea para. E come\u00e7a a regredir.&#8221; Ela tem como regra n\u00e3o olhar o passado com saudosismo. &#8220;N\u00e3o sou daquelas que dizem: Ah, no meu tempo&#8230;&#8221; Gosta do progresso porque, como m\u00e9dica, a tecnologia lhe deu possibilidades de ir mais longe: nos diagn\u00f3sticos, nas pesquisas, na miss\u00e3o de salvar vidas. &#8220;Eu aprendi medicina sem ter tomografia, sem ter resson\u00e2ncia.&#8221; Cita, justamente, dois exames essenciais na atual batalha para entender at\u00e9 onde a infec\u00e7\u00e3o por zika v\u00edrus compromete o c\u00e9rebro dos beb\u00eas com microcefalia. Diante do exerc\u00edcio de imaginar como seria lidar com uma explos\u00e3o semelhante de casos de malforma\u00e7\u00e3o, em d\u00e9cadas passadas, a m\u00e9dica reconhece: &#8220;A gente s\u00f3 veria o tamanho pequeno da cabe\u00e7a e n\u00e3o conseguiria ir muito al\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem tudo na medicina moderna lhe agrada. Quando ensina aos jovens m\u00e9dicos residentes em neuropediatria, ensina sobretudo que medicina \u00e9 confian\u00e7a. A impessoalidade e a pressa dos tempos de hoje s\u00e3o um preju\u00edzo tanto para o m\u00e9dico quanto para o paciente. &#8220;Antigamente voc\u00ea era a doutora Ana, a neurologista. Agora voc\u00ea tem \u0091a neuro\u0092, \u0091a fono\u0092, \u0091a gastro\u0092. Muda de plano, muda de m\u00e9dico. Despersonaliza a rela\u00e7\u00e3o. Corta o v\u00ednculo. Perde parte do sentido da medicina, que \u00e9 a troca, a constru\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Casada durante 23 anos com um neurocirurgi\u00e3o (o marido faleceu em 1987), o amor pela medicina contaminou a fam\u00edlia. Os tr\u00eas filhos s\u00e3o m\u00e9dicos. Todos trilharam o mesmo caminho da m\u00e3e e atuam com crian\u00e7as. Mas a neuropediatria n\u00e3o foi a primeira escolha de Ana. Ela trabalhava com adultos. At\u00e9 o destino lhe obrigar, rec\u00e9m-formada, a tirar as f\u00e9rias de outro m\u00e9dico na pediatria. Foi paix\u00e3o imediata. Detalhista, dedicada, foi estudar tudo de novo. &#8220;Eu que tinha me preparado at\u00e9 ali para tratar adultos, fui aprender como cuidar de crian\u00e7as. Fui buscar outras compet\u00eancias pra lidar com essa crian\u00e7a de uma forma mais completa.&#8221; Nesses anos todos, aprendeu uma coisa que lhe acompanha at\u00e9 hoje: &#8220;Escutar as m\u00e3es \u00e9 fundamental. Porque elas percebem as m\u00ednimas varia\u00e7\u00f5es de seus filhos. S\u00e3o olhos atentos que nos ajudam muito&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No m\u00eas passado, quando visitou o Imip, a diretora-geral da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), Margaret Chan, fez quest\u00e3o de conhecer Ana e sua filha Vanessa. Numa sala reservada, longe dos jornalistas e dos flashes dos fot\u00f3grafos, a chinesa pegou a m\u00e3o das duas e agradeceu, emocionada. &#8220;Tivemos que dar a ela uns cinco len\u00e7os de papel. At\u00e9 ela se recompor.&#8221; Mulher de gestos, mais do que palavras, Ana diz acreditar no empenho pessoal de Chan para conseguir dinheiro para as pesquisas sobre zika v\u00edrus e microcefalia. A diretora \u00e9 da mesma escola de Ana. &#8220;Pelo que vi, ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 gestora. \u00c9 uma pessoa humana que se preocupa com o outro.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o que \u00e9 medicina para a senhora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha vida. \u00c9 o que eu gosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe medicina sem o humano?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil. Embora se fa\u00e7a (ela diz isso, chorando).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu disse que n\u00e3o me emociono? Me emocionei.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Postura firme, jeito s\u00e9rio, n\u00e3o s\u00e3o poucas as vezes que, numa impress\u00e3o ligeira, pode ser vista como uma pessoa chata. &#8220;Mas eu sou \u00e9 t\u00edmida. No tempo de col\u00e9gio, passei quase um ano sendo chamada de Rosa e eu atendia porque eu n\u00e3o tinha coragem de dizer que eu era Ana.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ana Van der Linden, m\u00e3e de tr\u00eas filhos, av\u00f3 de seis netos, \u00e9 vaidosa, apaixonada por jardinagem e acha que a medicina \u00e9, antes de mais nada, saber ouvir. Uma m\u00e9dica de antigamente, no melhor sentido da palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Jornal do Commercio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 primeira vista, a seriedade da neuropediatra Ana Van der Linden pode afastar um pouco. Mas \u00e9 s\u00f3 uma impress\u00e3o. A m\u00e9dica que virou refer\u00eancia na investiga\u00e7\u00e3o de casos de beb\u00eas com microcefalia \u00e9 cheia de delicadezas. Numa conversa franca, ela se deixa mostrar para al\u00e9m do jaleco que veste h\u00e1 50 anos. 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