{"id":32925,"date":"2016-08-29T07:46:35","date_gmt":"2016-08-29T10:46:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=32925"},"modified":"2016-08-29T07:46:35","modified_gmt":"2016-08-29T10:46:35","slug":"medico-pernambucano-viaja-pelo-mundo-operando-maos-de-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/medico-pernambucano-viaja-pelo-mundo-operando-maos-de-criancas\/","title":{"rendered":"M\u00e9dico pernambucano viaja pelo mundo operando m\u00e3os de crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O itiner\u00e1rio de viagens internacionais do pernambucano Rui Ferreira, desde 2004, \u00e9 extenso e inusitado: no in\u00edcio de 2016 ele esteve no Ir\u00e3; em setembro visita a regi\u00e3o da Palestina. Tem viagem marcada para o Camboja e o L\u00edbano. Jord\u00e2nia, Vietn\u00e3, Egito, M\u00e9xico, Chile e Col\u00f4mbia tamb\u00e9m entram na lista de lugares visitados. O que define os roteiros \u00e9 a necessidade que cada pa\u00eds tem para receber as miss\u00f5es humanit\u00e1rias das quais o m\u00e9dico faz parte. S\u00e3o mutir\u00f5es de cirurgias reparadoras, especialmente voltadas para crian\u00e7as e adolescentes com deformidades nos membros inferiores e superiores, principalmente as m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em parceria com a ONG francesa La Chaine de L\u2019Espoir (A Corrente da Esperan\u00e7a), 74 miss\u00f5es j\u00e1 foram realizadas. \u201cNa Jord\u00e2nia, fronteira com S\u00edria, os mutir\u00f5es atendem crian\u00e7as que est\u00e3o nos campos de refugiados, mutiladas pelos conflitos\u201d, afirma o m\u00e9dico. Nos anos 1980, o Ir\u00e3 teve aten\u00e7\u00e3o especial por causa dos oito anos de guerra com o Iraque &#8211; o pa\u00eds j\u00e1 recebeu 12 miss\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Egito s\u00e3o comuns os casos de deformidades provocadas por partos mal conduzidos. \u201cO parto \u00e9 feito de qualquer jeito quando eles descobrem que o filho \u00e9 uma menina. A mulher n\u00e3o tem nenhuma import\u00e2ncia na cultura deles\u201d, testemunhou. \u201cE quatro dos meus cinco filhos s\u00e3o mulheres. Isso me chocou demais.\u201d A Col\u00f4mbia j\u00e1 recebeu 25 miss\u00f5es. \u201c\u00c9 o pa\u00eds com maior quantidade de deformidade cong\u00eanita das m\u00e3os no mundo, por causa do veneno usado para combater planta\u00e7\u00f5es de coca\u201d, revela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00c9DICO POR PAIX\u00c3O<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico brasileiro que se junta a especialistas de diversos pa\u00edses para operar m\u00e3os de crian\u00e7as mundo afora \u00e9 do Sert\u00e3o de Pernambuco. Nascido em Sert\u00e2nia, a mais de 300 quil\u00f4metros do Recife, ainda muito novo ele vendeu roupas e trabalhou numa padaria para ajudar no sustento da fam\u00edlia. Rui Ferreira buscou recuperar na juventude os estudos que n\u00e3o p\u00f4de ter nos primeiros anos de vida. E deu conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aprovado no conceituado ITA (Instituto Tecnol\u00f3gico da Aeron\u00e1utica), tentou ser militar, mas n\u00e3o se acostumou aos rigores da carreira: \u201cFoi um choque\u201d, confessa. Optou depois por economia, ganhou bolsa para estudar na ent\u00e3o Tchecoslov\u00e1quia. Armou-se de mala e cuia. Por\u00e9m, uma enchente que atingiu o Recife deixou o estudante ilhado na Madalena, bairro da Zona Norte da cidade \u2013 ele perdeu o voo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A medicina veio quase que por acaso. Passando f\u00e9rias em Caruaru, come\u00e7ou a ajudar os amigos que fariam vestibular a estudar, j\u00e1 que tinha certa intimidade com n\u00fameros. Tamb\u00e9m apaixonou-se por uma mo\u00e7a de fam\u00edlia bem mais rica do que a dele. Para conseguir a permiss\u00e3o para o namoro, fez vestibular para ser doutor. \u201cTodo mundo me dizia: a m\u00e3e dela s\u00f3 deixa namorar se for estudante de medicina\u201d, lembra. Pois bem, Rui Ferreira virou doutor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFui fazer medicina num momento cr\u00edtico do Brasil. Entrei na faculdade em 1965, um ano depois do golpe militar.\u201d Durante o curso, descobriu que tinha habilidade com as m\u00e3os. \u201cEu n\u00e3o sabia porque fui um menino do interior\u201d, conta. \u201cMeu sonho era um dia ter dinheiro pra comprar um cavalo e correr vaquejada. Foi o que fiz com o primeiro dinheiro que ganhei na vida. Paix\u00e3o \u00e9 paix\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curso conclu\u00eddo no Recife, em 1971, ele foi ao Rio de Janeiro especializar-se em cirurgia \u2013 geral, pl\u00e1stica e das m\u00e3os. A forma\u00e7\u00e3o seguiu rumo internacional com passagens pela Fran\u00e7a, China e Jap\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta a Pernambuco, aplicou no Recife o que havia aprendido l\u00e1 fora: cirurgias reparadoras, reimplantes, transfer\u00eancias de dedos do p\u00e9 para a m\u00e3o, cirurgia do plexo braquial (conjunto de nervos da regi\u00e3o do pesco\u00e7o que movimenta bra\u00e7os e m\u00e3os).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sertanejo fala quatro l\u00ednguas, al\u00e9m do portugu\u00eas: \u201cAprendi pela necessidade de estudar\u201d. Hoje, aos 70 anos, divide a vida entre a sela do cavalo, ainda correndo vaquejada, e as cirurgias reparadoras em suas corridas pelos mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MUTIR\u00d5ES NO RECIFE<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ansiedade, apreens\u00e3o, gratid\u00e3o, dedica\u00e7\u00e3o, medo, al\u00edvio: est\u00e1 tudo ali nas salas de espera e recupera\u00e7\u00e3o de um pequeno hospital no Recife. As fam\u00edlias assistem \u00e0s suas crian\u00e7as entrarem na sala de cirurgia. Esperam. L\u00e1 dentro est\u00e1 uma equipe formada por tr\u00eas franceses, um venezuelano, um norte-americano e sete brasileiros \u2013 Rui Ferreira \u00e9 um deles. \u00c9 a 33\u00aaa a\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria que acontece no Brasil, todas elas no Recife, gra\u00e7as \u00e0 parceira da ONG francesa com o Instituto SOS M\u00e3o Crian\u00e7a, do qual Rui \u00e9 fundador, junto com o m\u00e9dico Mauri Cortez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na miss\u00e3o que acompanhamos, a maratona de cirurgias come\u00e7ou \u00e0s 7h e seguiu at\u00e9 \u00e0s 23h. Dois dias na mesma pisada, sem intervalo. Cirurgi\u00f5es, anestesistas, enfermeiros, auxiliares \u2013 para nenhum deles h\u00e1 remunera\u00e7\u00e3o financeira. \u201cA gente deixa de ganhar dinheiro fora daqui, suspendemos nossas atividades. A felicidade \u00e9 poder ajudar\u201d, diz a anestesista Andr\u00e9a Galv\u00e3o. A colega Camila Caminha interrompeu a licen\u00e7a maternidade, deixou em casa um beb\u00ea de 2 meses e enfrentou os dois dias da miss\u00e3o humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rui Ferreira explica como \u00e9 feita a triagem dos pacientes para as cirurgias. \u201cNa nossa especialidade, temos prioridades que s\u00e3o: independ\u00eancia para comer &#8211; ent\u00e3o, a gente procura fazer uma m\u00e3o que a crian\u00e7a possa comer sozinha; depois de conseguir levar a m\u00e3o \u00e0 boca, ela precisa fazer sua higi\u00eane pessoal. Fazemos tudo para que se transforme numa pessoa aut\u00f4noma\u201d, diz. \u201cProcuramos deixar independentes as crian\u00e7as que s\u00e3o dependentes, pouco a pouco, com as cirurgias que fazemos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cau\u00e3, 9 anos, recebe cuidados da m\u00e3e depois da cirurgia. Ev\u00e2nia Santos, auxiliar de servi\u00e7os gerais, moradora do Ibura, bairro da periferia do Recife, est\u00e1 aliviada \u2013 ele tinha os dedos colados, o que a ci\u00eancia chama de sindactilia. Encaminhado ao instituto por uma pediatra, foram quatro consultas at\u00e9 a cirurgia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00eania Rodrigues, trabalhadora rural, veio de Bet\u00e2nia, Sert\u00e3o do Piau\u00ed, com a filha J\u00falia, 5 anos. Foram 12 horas de estrada, viagem de \u00f4nibus. Aos 2, a crian\u00e7a foi ao quintal onde a fam\u00edlia cozinhava doces num fogo a lenha. Sem que ningu\u00e9m notasse, pegou em brasa viva de carv\u00e3o, teve queimaduras de terceiro grau. Chegou a perder alguns dos dedos, as m\u00e3os ficaram fechadas. Um amigo pernambucano, o policial civil Luiz Carlos Leit\u00e3o, j\u00e1 tinha ouvido falar no lugar onde crian\u00e7as com deformidades nas m\u00e3os eram operadas gratuitamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e3e e filha embarcaram para o Recife sem data prevista para a volta. O amigo policial acolheu as duas em sua casa, conseguiu marcar consulta e, enfim, a cirurgia gratuita. J\u00eania admite que, logo que soube da possibilidade da opera\u00e7\u00e3o, ficou apreensiva, tentando n\u00e3o alimentar expectativas. \u201cJ\u00e1 sofremos tanto, eu, ela e o pai dela.\u201d Mas deu tudo certo. \u201cAgora estou esperan\u00e7osa e contente. Meu sonho \u00e9 que ela fa\u00e7a tudo o que uma crian\u00e7a normal faz, como escrever\u201d, afirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alex Sandro Holanda, morador do Brejo da Madre de Deus, cidade do Agreste pernambucano, tamb\u00e9m nasceu com os dedos grudados. Foi operado por Rui Ferreira ainda crian\u00e7a. Hoje, aos 39 anos, agradece porque os seus dois filhos Catarina, 6 anos, e Lorenzo, 2, depois de diversas cirurgias, recuperaram-se do mesmo problema. Sobre Rui Ferreira ele diz: \u201c\u00c9 muito humano. Faz cirurgias de gra\u00e7a pra quem \u00e9 carente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os quatro netos e cinco filhos, um deles estudante de medicina, poderiam aquietar Rui em sua casa &#8211; ou entre seus pacientes pernambucanos. As miss\u00f5es humanit\u00e1rias, al\u00e9m de serem, em geral, em pa\u00edses distantes, n\u00e3o s\u00e3o remuneradas. \u201cPreciso de pouco para viver\u201d, responde r\u00e1pido. Aos 70 anos, ele n\u00e3o parece nem perto de querer parar. \u201cQuando a gente faz alguma coisa, n\u00e3o se sente velho. N\u00e3o me pus uma data para parar. Enquanto estiver l\u00facido, com vontade e prazer de fazer coisas que pouca gente faz, enquanto eu puder ensinar o que sei, eu continuo.\u201d O que o senhor leva de Sert\u00e2nia, do Sert\u00e3o, mundo afora? \u201cDizem que a gente sai do Sert\u00e3o, mas o Sert\u00e3o n\u00e3o sai da gente. Eu acho que a for\u00e7a que o sertanejo tem de sobreviv\u00eancia, a vontade de viver.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Di\u00e1rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pedido da reportagem, Rui Ferreira produziu um di\u00e1rio em sua \u00faltima miss\u00e3o humanit\u00e1ria, realizada no Ir\u00e3. O relato registra dias corridos, de muito trabalho e total dedica\u00e7\u00e3o aos pacientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miss\u00e3o Ir\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegada<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de dois dias que sa\u00ed do Recife, chego ?a? Teer\u00e3 com os outros mission\u00e1rios franceses e uma jornalista, filha de? ?Fran\u00e7ois Mitterrand ?(ex-presidente da Fran\u00e7a)?, que nos acompanha. S\u00e3o 3? horas? da manh\u00e3. ?\u00c0?s ?9h ?come\u00e7ar?\u00e3o? a?s? consulta?s? ?e sabemos de antem\u00e3o?: s\u00e3o mais de 100 crian\u00e7as.?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1\u00ba Dia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na consulta atendemos 105 crian\u00e7as com 54 indica\u00e7\u00f5es de cirurgia. Trinta e cinco foram marcadas, totalizando aproximadamente 72 horas de cirurgias, divididas em dois dias para dois cirurgi\u00f5es. Resultado: nos dois dias, ser\u00e3o 18 horas para cada cirurgi\u00e3o. \u00c9 um calculo que fazemos e que geralmente d\u00e1 certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2\u00b0 Dia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caf\u00e9 \u00e0s 6h, sa\u00edda \u00e0s 6h30. Come\u00e7amos a operar \u00e0s 8h e seguimos at\u00e9 \u00e0s 23 horas. Foram 16 cirurgias. Havia uma recep\u00e7\u00e3o programada para n\u00f3s m\u00e9dicos na Embaixada da Fran\u00e7a em Teer\u00e3, \u00e0s 18h. Claro que n\u00e3o fomos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a03\u00ba dia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesma programa\u00e7\u00e3o e mesmo n\u00famero de cirurgias. Terminamos nossa jornada \u00e0s 20h30. Uma jornalista da Paris Match faz reportagem sobre nossas miss\u00f5es. \u00c9 comum ter algum atendimento paralelo, de pessoas importantes ligadas aos nossos anfitri\u00f5es. H\u00e1 dois anos operamos um &#8216;star&#8217; iraniano, um rapper &#8211; foi o maior frisson no hospital. Hoje vou atender uma celebridade do Ir\u00e3, atriz muito conhecida que teve um acidente de carro e est\u00e1 com uma paralisia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Jornal do Commercio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O itiner\u00e1rio de viagens internacionais do pernambucano Rui Ferreira, desde 2004, \u00e9 extenso e inusitado: no in\u00edcio de 2016 ele esteve no Ir\u00e3; em setembro visita a regi\u00e3o da Palestina. Tem viagem marcada para o Camboja e o L\u00edbano. Jord\u00e2nia, Vietn\u00e3, Egito, M\u00e9xico, Chile e Col\u00f4mbia tamb\u00e9m entram na lista de lugares visitados. 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