{"id":33343,"date":"2016-09-15T07:46:10","date_gmt":"2016-09-15T10:46:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=33343"},"modified":"2016-09-15T07:46:10","modified_gmt":"2016-09-15T10:46:10","slug":"todo-pequeno-paciente-precisa-de-uma-ana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/todo-pequeno-paciente-precisa-de-uma-ana\/","title":{"rendered":"Todo pequeno paciente precisa de uma Ana"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Sabia, na sua rotina di\u00e1ria de cuidados de uma filha especial\u00edssima, que cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e \u00e9 terra que nem todos pisam. Ent\u00e3o, inquieta, tratou de usar seu arado para ajudar a quem precisava. Ana Branco emprestava os ouvidos \u00e0s fam\u00edlias com crian\u00e7as e adolescentes em tratamento de c\u00e2ncer. Num olhar, garantia a cumplicidade dos encontros. Cercada de sutilezas, dava-lhes o ombro para amparar choros incontidos nos momentos mais \u00edntimos ou improv\u00e1veis. Com as fam\u00edlias, sofria junto. Aos poucos, a roupa de observadora ficou justa para ela. N\u00e3o se sabe quando, mas Ana passou a ser admirada e vestiu-se como uma mulher reconhecida por transformar o meio onde vivia &#8211; e vive.<\/p>\n<p>Ana tinha rosto familiar para muitos que circulavam pelos corredores de hospitais do Recife e via hist\u00f3rias que se assemelhavam \u00e0 dela. \u201cLembro que tinha noites que sa\u00eda da minha casa com Ricardo, meu marido, para pegar meia ampola de rem\u00e9dio doada por uma fam\u00edlia com filho em hospital particular para aliviar a dor de um paciente internado em unidade p\u00fablica\u201d. Costumava ser orientada por profissionais de sa\u00fade para o transporte da droga, aliviando enjoos de pequenos pacientes que sonhavam em seguir em frente com radioterapia ou quimioterapia. Era, \u00e0 \u00e9poca, diretora e volunt\u00e1ria do N\u00facleo de Apoio \u00e0 Crian\u00e7a com C\u00e2ncer (Nacc), com o qual colaborou em tempo quase integral por oito anos.<\/p>\n<p>Ana \u00e9 uma mulher de muitas palavras, sorrisos e entrega. Chegava a levar para casa pacientes do interior para passar uma noite sobre um colch\u00e3o mais macio. \u201cIa contra a regra, mas eu me envolvia e a quebrava vez por outra\u201d. N\u00e3o ajudava apenas os mais pobres. Teve uma m\u00e3e que, certo dia, precisou viajar para os Estados Unidos e deixou a determina\u00e7\u00e3o: \u201cS\u00f3 quem pode entrar no quarto de fulano \u00e9 Ana\u201d. A concess\u00e3o foi bem usada junto \u00e0 crian\u00e7a, lembrada pelo nome at\u00e9 hoje. \u201cAcho que a m\u00e3e pensava assim: \u2018Essa da\u00ed conhece minha dor\u2019\u201d. Por certo. Ana era (\u00e9) especialista no que se trata de c\u00e2ncer na primeira inf\u00e2ncia. Tem resposta para perguntas de natureza diversa. Quando n\u00e3o, as busca nem que seja no subjetivismo do apoio moral. Sua Nat\u00e1lia tem agora 27 anos; e Ana ainda usa oportunidades m\u00ednimas para tratar o m\u00e1ximo de inclus\u00e3o social, de preconceito para com pacientes com c\u00e2ncer e minimizar d\u00favidas, inquietudes e sofrimentos alheios.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Ana Branco n\u00e3o teve in\u00edcio em Nat\u00e1lia, a segunda filha, diagnosticada com m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita assim que nasceu e que, aos dois anos, passou a se tratar de um meduloblastoma, tipo de tumor cerebral. Nat\u00e1lia &#8211; v\u00edtima de m\u00faltiplos c\u00e2nceres e apelidada do estado como \u201ca paciente lend\u00e1ria\u201d &#8211; abriu novos caminhos para Ana.<\/p>\n<p>A m\u00e3e Ana tinha uma rotina comum, de classe m\u00e9dia. Come\u00e7ou a trabalhar como telefonista aos 16 anos, na Cooperativa de Cr\u00e9dito dos Plantadores de Cana. Virou banc\u00e1ria. Vivia tratando de n\u00fameros, envolvida na \u00e1rea cont\u00e1bil. Teve Rafaela, a primeira filha (hoje com 32 anos). Quando Nat\u00e1lia chegou, a rotina da casa foi revolucionada. A menininha deu-lhe novos desafios. \u201cPago um pre\u00e7o por minha vida, mas minha vida \u00e9 essa\u201d. Reinventou-se depois, de novo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um neurologista, Dr. Hildo Azevedo, recomendou: \u201cQuero que voc\u00ea v\u00e1 conhecer um lugar: o Nacc\u201d. Ana diz ter se apaixonado. Fez da rotina no Nacc, dividida com os cuidados com Nat\u00e1lia, um sacerd\u00f3cio. Agarrou a pr\u00f3pria causa e acolheu a dos outros. Os corredores do Hospital do C\u00e2ncer poderiam at\u00e9 narrar. \u201cCansei de ir l\u00e1. N\u00e3o ia para tratar de Nat\u00e1lia. Ia por causa do Nacc\u201d.<\/p>\n<p>Ana deixou de fazer parte de institui\u00e7\u00f5es formalmente, mas mant\u00e9m uma esp\u00e9cie de sacerd\u00f3cio como ouvidora de quem precisa de um ombro ou mesmo de um incentivo para lidar com uma crian\u00e7a ou adolescente com c\u00e2ncer. Ela \u00e9 o retrato da face oculta dos que mant\u00e9m o ano inteiro a ess\u00eancia da campanha Setembro Dourado. O movimento valoriza a conscientiza\u00e7\u00e3o do combate ao c\u00e2ncer infantojuvenil e defende o diagn\u00f3stico precoce de c\u00e2ncer em crian\u00e7as e adolescentes no Brasil. Confundido com outras enfermidades, o c\u00e2ncer muitas vezes tem diagn\u00f3stico encoberto. Estima-se que hoje 70% dos casos da doen\u00e7a na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia s\u00e3o cur\u00e1veis e podem ser descobertos no in\u00edcio, assim como Ana descobriu o caso de sua Nat\u00e1lia aos dois anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Diario de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabia, na sua rotina di\u00e1ria de cuidados de uma filha especial\u00edssima, que cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e \u00e9 terra que nem todos pisam. Ent\u00e3o, inquieta, tratou de usar seu arado para ajudar a quem precisava. Ana Branco emprestava os ouvidos \u00e0s fam\u00edlias com crian\u00e7as e adolescentes em tratamento de c\u00e2ncer. Num olhar, garantia a cumplicidade dos encontros. 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