{"id":34625,"date":"2016-11-08T09:09:35","date_gmt":"2016-11-08T12:09:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=34625"},"modified":"2016-11-08T09:09:35","modified_gmt":"2016-11-08T12:09:35","slug":"epidemia-do-virus-zika-no-brasil-completa-um-ano-com-desafio-na-area-de-pesquisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/epidemia-do-virus-zika-no-brasil-completa-um-ano-com-desafio-na-area-de-pesquisa\/","title":{"rendered":"Epidemia do v\u00edrus Zika no Brasil completa um ano com desafio na \u00e1rea de pesquisa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Na pr\u00f3xima sexta-feira, (11) completa-se um ano desde que o Brasil foi oficialmente atingido por uma das maiores epidemias de sua hist\u00f3ria. Em 11 de novembro de 2015, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade decretou a epidemia do v\u00edrus Zika como Situa\u00e7\u00e3o de Emerg\u00eancia em Sa\u00fade P\u00fablica de Import\u00e2ncia Nacional. Naquela data, j\u00e1 se passavam dois meses desde que m\u00e9dicos do Nordeste alertaram para o alto n\u00famero de nascimentos de beb\u00eas com microcefalia em diversos estados.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava ali um longo per\u00edodo de investiga\u00e7\u00e3o e ang\u00fastia para m\u00e3es, mulheres gr\u00e1vidas e fam\u00edlias. Pesquisadores de diversas \u00e1reas mobilizaram-se at\u00e9 constatar que os casos de microcefalia poderiam estar relacionados a um novo v\u00edrus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. A zika passou a ser o novo vil\u00e3o da sa\u00fade nacional.<\/p>\n<p>A descoberta<\/p>\n<p>Os primeiros casos de infec\u00e7\u00e3o pelo zika no Brasil ocorreram em meados de abril de 2015, na cidade de Cama\u00e7ari, regi\u00e3o metropolitana de Salvador (BA). O infectologista Ant\u00f4nio Bandeira atendeu os primeiros pacientes com os sintomas do v\u00edrus ainda desconhecido no pa\u00eds. \u201cEu fiquei impressionado com a quantidade muito grande de pessoas que estavam sendo atendidas na emerg\u00eancia do hospital naquele momento, que chegavam com o mesmo sintoma. Manchas no corpo, febre baixa, uma conjuntivitezinha e dores pelo corpo. Era como se fosse a esp\u00e9cie de uma xerox de uma pessoa para outra.\u201d, lembra o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Os exames dos pacientes de Cama\u00e7ari foram enviados para a Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde foram submetidos \u00e0 an\u00e1lise de virologistas que constataram a presen\u00e7a do Zika e comprovaram sua transmiss\u00e3o por vetor. \u201cQuase a totalidade daquelas amostras eram positivas para zika e a gente estava diante do primeiro surto documentado do v\u00edrus no continente americano naquele momento. N\u00f3s comunicamos o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade imediatamente no dia 29 de abril.\u201d<\/p>\n<p>Como nem todos os pacientes manifestam os sintomas da infec\u00e7\u00e3o, o registro do v\u00edrus no pa\u00eds s\u00f3 chamou a aten\u00e7\u00e3o a partir do segundo semestre de 2015, depois do surgimento de casos de adultos com a S\u00edndrome de Guillain-Barr\u00e9 e do nascimento de centenas de beb\u00eas com microcefalia, principalmente em Pernambuco.<\/p>\n<p>Zika e microcefalia<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o do v\u00edrus Zika com a microcefalia foi descoberta pelos pesquisadores do Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim (Ipesq), em Campina Grande (PB). \u201cNa realidade, a gente complementou o trabalho que j\u00e1 vinha sendo feito em Pernambuco, os pesquisadores de l\u00e1 j\u00e1 tinham levantado essa hip\u00f3tese, mas n\u00e3o tinham conseguido encontrar o v\u00edrus. Conseguimos detectar no l\u00edquido amni\u00f3tico e descobrimos que era o v\u00edrus asi\u00e1tico que est\u00e1 circulando aqui no Brasil. Ele \u00e9 muito mais agressivo e tem uma predile\u00e7\u00e3o muito grande pelo sistema nervoso central\u201d, esclarece Adriana Melo, especialista neonatal e coordenadora do Ipesq.<\/p>\n<p>O assunto ainda n\u00e3o tinha sido amplamente divulgado pela imprensa quando Elaine Michele, 29 anos, percebeu em seu corpo o sinal da not\u00edcia que mudaria sua vida. Ela mora em S\u00e3o Louren\u00e7o da Mata, cidade da regi\u00e3o metropolitana do Recife (PE). Como o pr\u00f3prio nome sugere, o munic\u00edpio \u00e9 rodeado por uma mata, condi\u00e7\u00e3o que, aliada \u00e0 falta de saneamento, favorece a prolifera\u00e7\u00e3o do mosquito Aedes aegypti.<\/p>\n<p>M\u00e3e de Eduarda, de 14 anos, Elaine esperava o segundo filho. S\u00f3 n\u00e3o imaginava que seu sonho seria abalado por uma epidemia. No terceiro m\u00eas de gesta\u00e7\u00e3o, ela acordou toda vermelha. As manchas no corpo passaram r\u00e1pido, mas os efeitos foram permanetes em sua vida. As oito ultrassons feitas durante o pr\u00e9-natal n\u00e3o foram suficientes para mostrar as calcifica\u00e7\u00f5es no c\u00e9rebro do beb\u00ea, descoberta somente depois do nascimento.<\/p>\n<p>\u201cFiz ultra com dopler colorido, fiz ultra 3D, nada mostrava. Quando ele nasceu, para mim, foi um baque. Fiquei sem ch\u00e3o. Mas, primeiramente, Deus e segundo, meu esposo, me deram muita for\u00e7a. Mas, no come\u00e7o, eu n\u00e3o aceitava. Perguntava por que eu? Por que comigo? Me via s\u00f3 porque eu n\u00e3o sabia que existiam tantos beb\u00eas iguais ao meu. N\u00e3o conhecia a microcefalia como eu conhe\u00e7o hoje, achei que fosse o fim\u201d, lembra Elaine.<\/p>\n<p>De acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, de outubro de 2015 at\u00e9 outubro de 2016, foram notificados 9.953 casos de microcefalia e outras altera\u00e7\u00f5es no sistema nervoso. Desse total, 4.797 casos foram descartados e 2.079 foram confirmados como microcefalia. Outros 3.077 casos suspeitos permaneciam em investiga\u00e7\u00e3o at\u00e9 22 de outubro. Do total de casos confirmados (2.079), 392 tiveram resultado positivo para o v\u00edrus Zika. O minist\u00e9rio, no entanto, considera que houve infec\u00e7\u00e3o pelo Zika na maior parte das m\u00e3es que tiveram beb\u00eas com diagn\u00f3stico final de microcefalia.<\/p>\n<p>Diagn\u00f3stico tardio<\/p>\n<p>Tr\u00eas tipos de testes s\u00e3o capazes de detectar o v\u00edrus, mas apenas o chamado PCR est\u00e1 dispon\u00edvel na rede p\u00fablica de s\u00e1ude. Os testes r\u00e1pidos que identificam em 20 minutos se o paciente j\u00e1 foi infectado alguma vez na vida pelo zika j\u00e1 est\u00e3o prontos, mas ainda n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). O minist\u00e9rio anunciou a distribui\u00e7\u00e3o de 2 milh\u00f5es de kits at\u00e9 o final deste ano e mais 1,5 milh\u00e3o at\u00e9 fevereiro de 2017. Enquanto isso, muitas mulheres s\u00f3 sabem que foram infectadas com o v\u00edrus Zika depois do nascimento do beb\u00ea.<\/p>\n<p>A subnotifica\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado da dificuldade em realizar os testes. O diagn\u00f3stico r\u00e1pido e preciso ainda \u00e9 um desafio, aponta o Professor Universidade Federal da Bahia e Diretor do Hospital Geral Roberto Santos, Ant\u00f4nio Raimundo. \u201cA grande dificuldade \u00e9 o exame em si. N\u00f3s tivemos muitos problemas com o RTPCR, um exame muito caro e que voc\u00ea precisa fazer tr\u00eas vezes\u201d. O infectologista Ant\u00f4nio Bandeira tamb\u00e9m se queixa de dificuldades. \u201cInfelizmente, a gente tem o Aedes Aegypti transmitindo esses tr\u00eas v\u00edrus e tem que ter sistemas melhores de diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Investimento em pesquisa<\/p>\n<p>Um ano depois do surto, especialistas j\u00e1 reconhecem que os efeitos do v\u00edrus Zika podem ir muito al\u00e9m da microcefalia. \u201cEsse v\u00edrus j\u00e1 demonstrou sua associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 com microcefalia, mas uma sequ\u00eancia de defeitos cong\u00eanitos, de complica\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas que hoje caracterizam o que a gente chama de S\u00edndrome de Zika Cong\u00eanita\u201d, alerta a professora de Ginecologia e Obstetr\u00edcia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Mel\u00e2nia Amorim.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o do conceito de S\u00edndrome Cong\u00eanita do Zika n\u00e3o trouxe respostas para todas as incertezas que persistem sobre a doen\u00e7a. O Instituto de Pesquisa de Campina Grande se dedica atualmente \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o de beb\u00eas com microcefalia infectados pelo v\u00edrus Chicungunya, al\u00e9m de casos suspeitos de infec\u00e7\u00e3o por outros v\u00edrus. O desafio \u00e9 conseguir verba para concluir as pesquisas.<br \/>\n\u201cTodo mundo est\u00e1 trabalhando meio que volunt\u00e1rio, ningu\u00e9m tem bolsa ou recebe para fazer pesquisa. A gente n\u00e3o tem insumos. A nossa sorte tem sido as parcerias, tanto com a prefeitura, quanto com a universidade privada que tem ajudado na parte do diagn\u00f3stico e, principalmente, com a Universidade Federal do Rio de Janeiro que tem nos enviado todos os reagentes para pesquisa. Do contr\u00e1rio, a gente estaria de bra\u00e7os cruzados\u201d, relata Adriana Melo, do Ipesq.<\/p>\n<p>O Hospital Geral Roberto Santos, um dos maiores da rede p\u00fablica de Salvador (BA), tamb\u00e9m tem desenvolvido pesquisas sobre o v\u00edrus e luta por investimento. \u201cPara n\u00f3s n\u00e3o existe mais d\u00favida de que existe uma rela\u00e7\u00e3o entre o v\u00edrus Zika e a microcefalia. Mas, cada vez que a gente estuda isso, surgem mais perguntas. Por qu\u00ea? Por que t\u00e3o grave? Qual \u00e9 o per\u00edodo mais perigoso? Existe alguma rela\u00e7\u00e3o entre isso e uma infec\u00e7\u00e3o pr\u00e9via por outro v\u00edrus? Ent\u00e3o, n\u00f3s estamos estruturando diversos projetos de pesquisa para responder a algumas dessas perguntas. Agora precisamos entender como prevenir. Voc\u00ea pegou zika e est\u00e1 gr\u00e1vida, tem alguma coisa a se fazer? Vai ter que fazer pesquisa para descobri isso. \u00c9 preciso recurso, o Brasil tem que investir em ci\u00eancia e tecnologia\u201d, afirma Ant\u00f4nio Raimundo, diretor do hospital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Folha de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na pr\u00f3xima sexta-feira, (11) completa-se um ano desde que o Brasil foi oficialmente atingido por uma das maiores epidemias de sua hist\u00f3ria. Em 11 de novembro de 2015, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade decretou a epidemia do v\u00edrus Zika como Situa\u00e7\u00e3o de Emerg\u00eancia em Sa\u00fade P\u00fablica de Import\u00e2ncia Nacional. 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