{"id":34717,"date":"2016-11-11T07:26:50","date_gmt":"2016-11-11T10:26:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=34717"},"modified":"2016-11-11T07:26:50","modified_gmt":"2016-11-11T10:26:50","slug":"em-um-ano-virus-zika-mudou-a-forma-como-mulheres-encaram-a-gravidez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/em-um-ano-virus-zika-mudou-a-forma-como-mulheres-encaram-a-gravidez\/","title":{"rendered":"Em um ano, v\u00edrus Zika mudou a forma como mulheres encaram a gravidez"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O medo das consequ\u00eancias da infec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus Zika e o impacto emocional das primeiras not\u00edcias sobre a epidemia mudaram o significado da gravidez para a mulher brasileira desde o fim de 2015. Nesta sexta-feira (11) completa um ano desde que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade decretou a epidemia como Situa\u00e7\u00e3o de Emerg\u00eancia em Sa\u00fade P\u00fablica de Import\u00e2ncia Nacional.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica de enfermagem Ros\u00e2ngela Veloso trabalha h\u00e1 mais de 20 anos no Centro Integrado de Sa\u00fade Amaury de Medeiros, conhecida como maternidade da Encruzilhada, no Recife (PE). Acostumada \u00e0 rotina de auxiliar os m\u00e9dicos nos exames de ultrassom, ela conta que a epidemia afetou o comportamento das pacientes. \u201cAntigamente, a preocupa\u00e7\u00e3o era o sexo, hoje em dia \u00e9 o tamanho da cabe\u00e7a. Os m\u00e9dicos dizem que a fase da gravidez mais atuante para desencadear a s\u00edndrome \u00e9 de cinco meses em diante, mas no primeiro ultrassom ela j\u00e1 quer saber o tamanho da cabe\u00e7a\u201d, relata Ros\u00e2ngela.<\/p>\n<p>O obstetra e gestor executivo da maternidade, Ol\u00edmpio Moraes Filho, tem a mesma impress\u00e3o de sua colega. \u201cAntigamente as mulheres iam felizes fazer ultrassom, hoje parece que est\u00e3o entrando numa c\u00e2mara de g\u00e1s, parece uma tortura, \u00e9 um medo tremendo. A gravidez tornou-se um sofrimento muito grande para as mulheres e n\u00e3o estamos oferecendo informa\u00e7\u00f5es seguras para elas, porque a zika surgiu h\u00e1 pouco tempo\u201d.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o dos profissionais da maternidade comprova-se por estudos feitos com as gr\u00e1vidas. O Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o e o Data Popular divulgaram pesquisa com gestantes de todas as regi\u00f5es do pa\u00eds que fizeram o pr\u00e9-natal pelo SUS, no contexto da epidemia. O estudo mostra que 6 em cada 10 t\u00eam medo de fazer o ultrassom e descobrir que o beb\u00ea tem microcefalia. Apesar do temor, mais da metade delas gostariam de fazer mais exames durante o pr\u00e9-natal. A pesquisa revela ainda que 31% dessas mulheres n\u00e3o programaram a gravidez, 23% temem o per\u00edodo da gesta\u00e7\u00e3o devido \u00e0 possibilidade do beb\u00ea ter algum problema e 99% delas sabem que se a gestante for infectada pelo zika, o beb\u00ea pode ter microcefalia.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda maior entre aquelas que n\u00e3o planejaram a gesta\u00e7\u00e3o, realidade comum entre as pacientes da maternidade da Encruzilhada. \u201cN\u00f3s temos uma clientela normalmente de baixa renda, com pouca informa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 procura informa\u00e7\u00e3o a respeito da zika e dos males que o mosquito provoca quando engravidam. A maioria do nosso p\u00fablico \u00e9 jovem, meninas com menos de 20 anos. Elas chegam aqui amedrontadas, com pouca informa\u00e7\u00e3o sobre como lidar com aquela situa\u00e7\u00e3o, porque para elas \u00e9 tudo muito novo. E agora mais essa problem\u00e1tica do v\u00edrus com a probabilidade do beb\u00ea nascer com sequelas.\u201d, relata a t\u00e9cnica de enfermagem Vilma Martins.<\/p>\n<p>Planejamento e direitos reprodutivos<\/p>\n<p>Os riscos da epidemia e o desconhecimento sobre os reais efeitos da S\u00edndrome Cong\u00eanita do Zika levaram o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, e em seguida a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, a recomendarem que as mulheres adiassem os planos de engravidar. A recomenda\u00e7\u00e3o acendeu o debate acerca do planejamento familiar e dos direitos relacionados \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o e \u00e0 sexualidade.<\/p>\n<p>Para a representante do Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Fernanda Lopes, a crise trouxe uma oportunidade de falar sobre os direitos reprodutivos e planejamento familiar. \u201cA epidemia do v\u00edrus Zika revela primeiro que os direitos das mulheres n\u00e3o s\u00e3o considerados como direitos de primeiro plano, em especial o direito em decidir por uma gravidez nesse momento, dentro desse contexto de emerg\u00eancia sanit\u00e1ria, em especial, o direito de planejar de forma volunt\u00e1ria, sem coer\u00e7\u00e3o, sem discrimina\u00e7\u00e3o, sem viol\u00eancia a sua vida reprodutiva\u201d defende Fernanda.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de engravidar ou n\u00e3o e quantos filhos ter \u00e9 um direito previsto na Constitui\u00e7\u00e3o Federal. O artigo 226 diz que o casal tem liberdade de planejar sua vida familiar e reprodutiva e o Estado deve garantir os recursos para exerc\u00edcio desse direito. Em 1990, o Brasil regulamentou essa quest\u00e3o com a edi\u00e7\u00e3o da Lei do Planejamento Familiar que, entre outros pontos, inclui o direito \u00e0 esteriliza\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria. Apesar das pol\u00edticas, a gravidez n\u00e3o planejada \u00e9 uma realidade no Brasil: segundo o Inqu\u00e9rito Nacional sobre o Parto e o Nascimento, 30% das m\u00e3es entrevistadas n\u00e3o queriam engravidar.<\/p>\n<p>A recomenda\u00e7\u00e3o para adiar ou planejar a gravidez esbarra em outro direito: o de acesso aos m\u00e9todos contraceptivos, principalmente entre a popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 mais vulner\u00e1vel \u00e0 epidemia. A Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utiliza\u00e7\u00e3o e Promo\u00e7\u00e3o do Uso Racional de Medicamentos no Brasil (PNAUM 2014) revela que 89,4% das mulheres n\u00e3o gr\u00e1vidas tinham acesso a contraceptivos orais e injet\u00e1veis, em servi\u00e7os p\u00fablicos ou privados de sa\u00fade. Entre as jovens de 13 a 19 anos, 13,2% n\u00e3o tinham acesso. As regi\u00f5es Centro-Oeste e Nordeste apresentaram as maiores propor\u00e7\u00f5es de acesso nulo aos m\u00e9todos, 15% e 10,4%, respectivamente.<\/p>\n<p>As Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade deveriam ter todos os m\u00e9todos contraceptivos disponibilizados para a popula\u00e7\u00e3o. Mas, na pr\u00e1tica, h\u00e1 dificuldades para atender toda a demanda. A farm\u00e1cia popular da maternidade do Cisam, no Recife, por exemplo, mant\u00e9m o estoque com as doa\u00e7\u00f5es que recebe de laborat\u00f3rios farmac\u00eauticos e as remessas n\u00e3o s\u00e3o constantes. Os postos de sa\u00fade passam por problemas semelhantes. Em Jo\u00e3o Pessoa (PB), uma das unidades de sa\u00fade da fam\u00edlia oferece todos os m\u00e9todos contraceptivos, mas os que s\u00e3o mais utilizados, p\u00edlula combinada e injet\u00e1vel, acabam logo. A remessa que deve ser enviada anualmente pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para munic\u00edpios acima de 500 mil habitantes n\u00e3o chega no prazo.<\/p>\n<p>A coordenadora de Sa\u00fade da Mulher e da Rede Cegonha de Jo\u00e3o Pessoa, Tanea Lucena, refor\u00e7a que a oferta de todos os m\u00e9todos \u00e9 essencial para o trabalho de planejamento familiar, principalmente entre jovens e adolescentes.\u201cEu sempre digo que tudo come\u00e7a no planejamento da vida sexual e reprodutiva. Quando a gente fala no planejamento da vida sexual e reprodutiva s\u00e3o mulheres e homens, n\u00e3o tem como eles ficarem de fora. Porque a gente entende que tendo acesso na unidade de sa\u00fade, com o aconselhamento correto, com atividades educativas, isso vai reduzir bastante a quest\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 das DST&#8217;s, mas de gravidez indesejada. Sabemos que hoje alguns problemas de sa\u00fade que acometem o beb\u00ea podem ser evitados por meio das consultas. Ela chega na unidade de sa\u00fade e diz que quer engravidar daqui a dois ou tr\u00eas meses. A partir dali ela come\u00e7a a fazer uso de alguns medicamentos que previnem v\u00e1rios problemas neurol\u00f3gicos. A gente sabe que uma grande parte dos nascidos, em quase todos os munic\u00edpios, s\u00e3o de gravidez que n\u00e3o foi planejada\u201d, afirma Tanea.<\/p>\n<p>Em nota, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade respondeu que \u201capoia e promove a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade sexual e reprodutiva, por meio da disponibiliza\u00e7\u00e3o de orienta\u00e7\u00f5es, informa\u00e7\u00f5es e m\u00e9todos contraceptivos, sempre com respeito \u00e0 autonomia e ao direito de exercer a sexualidade e a reprodu\u00e7\u00e3o, livre de discrimina\u00e7\u00e3o, imposi\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia.\u201d A nota diz ainda que, de 2011 a 2015, o minist\u00e9rio distribuiu em todo o pa\u00eds 2,4 bilh\u00f5es de preservativos masculinos e femininos e investiu, no mesmo per\u00edodo, R$ 160,6 milh\u00f5es na aquisi\u00e7\u00e3o de diferentes m\u00e9todos. No caso do estado da Para\u00edba, o minist\u00e9rio alega que foram enviados em 2015 e no primeiro semestre de 2016, mais de 400 mil contraceptivos, entre ampolas injet\u00e1veis, cartelas de p\u00edlulas e o dispositivo intrauterino (DIU).<\/p>\n<p>Considerando a possibilidade de transmiss\u00e3o sexual do v\u00edrus Zika e outras doen\u00e7as, o minist\u00e9rio orienta que \u201cdeve haver envolvimento e corresponsabiliza\u00e7\u00e3o de homens adultos, adolescentes e jovens na escolha e no uso do m\u00e9todo e na dupla prote\u00e7\u00e3o\u201d e recomenda, em especial \u00e0s gestantes e seus parceiros, a utiliza\u00e7\u00e3o de preservativos masculinos ou femininos em todas as rela\u00e7\u00f5es sexuais (oral, anal e vaginal).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Folha de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O medo das consequ\u00eancias da infec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus Zika e o impacto emocional das primeiras not\u00edcias sobre a epidemia mudaram o significado da gravidez para a mulher brasileira desde o fim de 2015. 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