{"id":34879,"date":"2016-11-16T07:25:25","date_gmt":"2016-11-16T10:25:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novoportal\/?p=34749"},"modified":"2016-11-16T07:25:25","modified_gmt":"2016-11-16T10:25:25","slug":"epidemia-de-zika-reacende-debate-sobre-interrupcao-da-gravidez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/epidemia-de-zika-reacende-debate-sobre-interrupcao-da-gravidez\/","title":{"rendered":"Epidemia de zika reacende debate sobre interrup\u00e7\u00e3o da gravidez"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Especialistas, m\u00e9dicos e ativistas t\u00eam defendido a possibilidade de garantir \u00e0 mulher o direito de interromper legalmente a gravidez enquanto perdurar a emerg\u00eancia da epidemia do v\u00edrus zika. O principal argumento \u00e9 o sofrimento e o impacto emocional a que as mulheres s\u00e3o submetidas e a defesa de que o aborto \u00e9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica e bem-estar.<\/p>\n<p>\u201cEu penso que, dada a gravidade do problema e ele ser persistente durante a vida do beb\u00ea, \u00e9 um direito da mulher decidir o que ela pode carregar sobre os ombros, isso \u00e9 fundamental, \u00e9 um direito humano, \u00e9 um direito sexual e reprodutivo e \u00e9 um respeito \u00e0s mulheres, notadamente as de menor renda\u201d, defende o especialista em<\/p>\n<p>A Professora da Faculdade de Medicina da Santa Casa de S\u00e3o Paulo, T\u00e2nia Lago, tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para a gravidade da epidemia. \u201c\u00c9 importante que as mulheres, ao decidirem ficar gr\u00e1vidas, tenham claro os riscos aos quais elas est\u00e3o sendo submetidas e seria muito importante que aquelas mulheres que engravidaram e que tenham zika pudessem ter acesso \u00e0 op\u00e7\u00e3o de interromper a gravidez em fun\u00e7\u00e3o do risco de uma doen\u00e7a grave acometendo o feto, porque as consequ\u00eancias podem ser mais graves do que inicialmente pareciam\u201d, alerta T\u00e2nia.<\/p>\n<p>At\u00e9 o fim deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar uma a\u00e7\u00e3o direta de inconstitucionalidade (ADI 5581) que inclui o pedido de interrup\u00e7\u00e3o da gravidez como uma possibilidade excepcional para mulheres gr\u00e1vidas infectadas pelo v\u00edrus Zika e que est\u00e3o sofrendo com a epidemia. O documento foi protocolado pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Defensores P\u00fablicos (Anadep) e destaca que, diante de uma situa\u00e7\u00e3o de iminente perigo \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, h\u00e1 a necessidade da garantia de pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas para as mulheres e crian\u00e7as atingidas pelo v\u00edrus Zika, como o acesso a medicamentos, transporte e benef\u00edcios sociais como o Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada e o Tratamento Fora de Domic\u00edlio.<\/p>\n<p>\u201cA ADI tem grande repercuss\u00e3o e impacto, sobretudo pelos pleitos principais de implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de informa\u00e7\u00f5es, diagn\u00f3stico e tratamento integral \u00e0s m\u00e3es e crian\u00e7as atingidas. Como \u00e9 de dom\u00ednio p\u00fablico estamos diante de uma epidemia mundial que exige atua\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e eficaz do Estado brasileiro\u201d, destaca Joaquim Neto, presidente da Anadep.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem o apoio da Anis Instituto de Bio\u00e9tica, coordenado pela pesquisadora D\u00e9bora Diniz, que acompanhou por dois meses a rotina das mulheres afetadas pela epidemia. \u201cEssa a\u00e7\u00e3o n\u00e3o visa a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto no pa\u00eds, porque n\u00f3s estamos falando da epidemia, n\u00f3s temos uma situa\u00e7\u00e3o concreta que bate \u00e0 porta. N\u00f3s estamos falando das mulheres durante a epidemia e \u00e9 nelas que n\u00f3s queremos pensar. Como proteger os direitos violados. \u00c9 claro que, ao lan\u00e7ar a quest\u00e3o do aborto como parte de uma prote\u00e7\u00e3o, o debate do aborto volta pra cena nacional. E n\u00f3s esperamos muito que ele [o debate] volte de uma maneira mais qualificada e reconhe\u00e7a o intenso sofrimento e risco [que as mulheres] tem ao se manter gr\u00e1vidas contra sua vontade\u201d, argumenta D\u00e9bora Diniz.<\/p>\n<p>Religi\u00e3o<\/p>\n<p>O contexto da epidemia e a press\u00e3o de ativistas, no entanto, n\u00e3o mudaram a posi\u00e7\u00e3o de grupos religiosos sobre a possibilidade de legalizar a interrup\u00e7\u00e3o da gravidez. A Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirma que compreende a afli\u00e7\u00e3o das mulheres e defende que elas precisam ser amparadas, mas refor\u00e7a que a epidemia n\u00e3o justifica a interrup\u00e7\u00e3o o direito de viver dos nascituros. \u201cO posicionamento da CNBB continua o mesmo, que \u00e9 o de defesa da vida. Nos chama a aten\u00e7\u00e3o a dificuldade de acolhimento dessas crian\u00e7as. O que devemos fazer \u00e9 chamar a sociedade para ser presente na vida dessas mulheres e crian\u00e7as. Existe um descuido geral e temos que retomar essa quest\u00e3o da necessidade de combate ao mosquito. N\u00e3o se fazem mais trabalhos junto \u00e0s escolas e os meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o falam mais do assunto. Mas o mosquito n\u00e3o transmite s\u00f3 o zika, ent\u00e3o, todo o cuidado \u00e9 pouco\u201d, alerta Dom Leonardo Steiner, secret\u00e1rio-geral da CNBB.<\/p>\n<p>Tanto a CNBB quanto a Anadep devem continuar o debate sobre o aborto depois do julgamento da a\u00e7\u00e3o no STF. \u201cAcreditamos que h\u00e1 pontos que podem exigir uma amplia\u00e7\u00e3o do debate, a exemplo de audi\u00eancias p\u00fablicas nos termos que a pr\u00f3pria lei disp\u00f5e e, portanto, virem a ser apreciados posteriormente ao julgamento da medida cautelar\u201d, afirma Joaquim Neto, presidente da Anadep. \u201cJ\u00e1 dialogamos com a Anadep. H\u00e1 elementos importantes que concordamos na a\u00e7\u00e3o. E vamos continuar buscando o di\u00e1logo para mostrar a import\u00e2ncia da vida e do cuidado com o ser humano\u201d, refor\u00e7a Dom Leonardo.<\/p>\n<p>Aborto inseguro<\/p>\n<p>O Instituto Anis liderou uma pesquisa nacional sobre o aborto e constatou que a interrup\u00e7\u00e3o da gravidez j\u00e1 \u00e9 uma pr\u00e1tica entre as mulheres brasileiras. \u201cN\u00f3s encontramos que uma em cada cinco mulheres aos 40 anos j\u00e1 fez pelo menos um aborto na vida. Isso significa que o aborto \u00e9 um evento comum, de mulheres comuns. Ele \u00e9 um evento reprodutivo que faz parte da vida das mulheres. Ao mesmo tempo que n\u00f3s criminalizamos o aborto e o descrevemos como um tabu, n\u00f3s estamos falando de mulheres muito pr\u00f3ximas a n\u00f3s. Todas n\u00f3s conhecemos cinco mulheres e uma em cada cinco j\u00e1 fez um aborto\u201d, afirma a pesquisadora D\u00e9bora Diniz.<\/p>\n<p>O medo do futuro e a incerteza dos fatos relacionados \u00e0 S\u00edndrome Cong\u00eanita do Zika t\u00eam levado muitas mulheres ao aborto clandestino e inseguro. Desde a emerg\u00eancia da epidemia, profissionais de sa\u00fade perceberam um aumento no n\u00famero de cirurgias de curetagem, procedimento que retira os restos de um aborto realizado de forma insegura ou clandestina.<\/p>\n<p>A enfermeira Qu\u00e9ssia Rodrigues trabalha em um dos maiores hospitais p\u00fablicos de Salvador e observou a diferen\u00e7a na demanda de cirurgias desde o in\u00edcio da epidemia. \u201cEu tenho me assustado com o n\u00famero de abortamentos que tem acontecido na unidade. A gente percebe que t\u00e1 relacionado \u00e0 quest\u00e3o dela ter tido zika. A gente presencia abortamentos espont\u00e2neos, mas a gente tem tido muito abortamento provocado. \u00c0s vezes, a gente questiona ela e percebe o medo que ela tem de desenvolver uma crian\u00e7a com microcefalia,\u201d relata Qu\u00e9ssia.<\/p>\n<p>L\u00edderes comunit\u00e1rias tamb\u00e9m relatam a ocorr\u00eancia de abortamentos depois da epidemia. \u201cTivemos muitos casos de aborto aqui e o que nos traz mais indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 que as mulheres realizam aborto de uma maneira muito insegura. O maior \u00edndice de morte materna na nossa capital, em Salvador, \u00e9 por conta do aborto&#8221;, conta a l\u00edder do coletivo de mulheres do Calafate, em Salvador, Marta Leiro. Ela ressalta que quem tem maior poder aquisitivo fica menos exposto a riscos: &#8220;Quem tem dinheiro faz em cl\u00ednicas e tem todo um acompanhamento ou ent\u00e3o vai pra um pa\u00eds onde [o aborto] \u00e9 legalizado e fica de boa, sem sentimento de culpa\u201d.<\/p>\n<p>Um estudo da Revista Cient\u00edfica The New England Journal of Medicine mostra que, desde que Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade decretou a epidemia do zika como emerg\u00eancia internacional, houve aumento de pedidos de aborto por mulheres latino-americanas a um grupo internacional que fornece p\u00edlulas abortivas e orienta mulheres de pa\u00edses onde a interrup\u00e7\u00e3o da gravidez \u00e9 proibida.<\/p>\n<p>No Brasil, a comercializa\u00e7\u00e3o de p\u00edlulas abortivas, como o Mifepristone e o Misoprostol, tamb\u00e9m conhecido como Cytotec, \u00e9 considerada crime desde 2005. A Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria, Anvisa, fiscaliza e apreende os medicamentos vendidos de forma irregular. Do final de 2005 at\u00e9 o momento, a Anvisa determinou a suspens\u00e3o de 75 p\u00e1ginas de Internet que divulgavam ou comercializavam o Cytotec. Outros 45 sites ainda est\u00e3o sob a an\u00e1lise da Ag\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Folha de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialistas, m\u00e9dicos e ativistas t\u00eam defendido a possibilidade de garantir \u00e0 mulher o direito de interromper legalmente a gravidez enquanto perdurar a emerg\u00eancia da epidemia do v\u00edrus zika. 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