{"id":36542,"date":"2017-01-30T11:07:10","date_gmt":"2017-01-30T14:07:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=36542"},"modified":"2017-01-30T11:07:10","modified_gmt":"2017-01-30T14:07:10","slug":"peste-uma-ameaca-silenciosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/peste-uma-ameaca-silenciosa\/","title":{"rendered":"Peste: uma amea\u00e7a silenciosa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Peste. Uma das mais terr\u00edveis doen\u00e7as que j\u00e1 assolou o mundo, e que marcou tamb\u00e9m nossa regi\u00e3o, causando medo e morte. Para al\u00e9m das narrativas do passado, tamb\u00e9m no presente ela se faz importante e temida nos mist\u00e9rios de silenciamentos inexplic\u00e1veis. Calada, n\u00e3o significa erradicada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bacilo Yers\u00ednia pestis, ensinado na escola sob o nome de Peste Negra, respons\u00e1vel por dizimar um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o da Europa na Idade M\u00e9dia, seguiu rota pelo Brasil no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, hist\u00f3ria pouco conhecida pela maioria dos brasileiros. Os recorrentes surtos em Pernambuco, de 1902 at\u00e9 os anos 1960, colocaram o Estado numa posi\u00e7\u00e3o de alerta nos cen\u00e1rios nacional e internacional, mas tamb\u00e9m de destaque na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, reconhecida at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 aqui, por exemplo, que est\u00e1 a maior cole\u00e7\u00e3o de Yers\u00ednia pestis da Am\u00e9rica Latina e a \u00fanica do Pa\u00eds, com 917 cepas (v\u00edrus isolado). E foi plantada aqui a vigil\u00e2ncia mais antiga em territ\u00f3rio nacional: o Servi\u00e7o de Refer\u00eancia em Peste (SRP) da Fiocruz PE, que completou 50 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A instala\u00e7\u00e3o do SRP, em 1966, surgiu como uma resposta \u00e0 emerg\u00eancia em sa\u00fade. \u201cA situa\u00e7\u00e3o no Brasil estava calamitosa. O Pa\u00eds era o 3\u00ba do mundo em registros de casos de peste. S\u00f3 perdia para a Birm\u00e2nia (hoje Rep\u00fablica do Myanmar) e para o Vietn\u00e3. Naquele ano, ap\u00f3s meio s\u00e9culo da chegada da doen\u00e7a no Brasil, ainda havia muitas d\u00favidas sobre a enfermidade, a profilaxia, o diagn\u00f3stico e a ecologia dela. Foi nesse contexto que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade solicitou ajuda \u00e0 OMS para a indica\u00e7\u00e3o de uma grande autoridade no tema que ajudasse a organizar um plano de trabalho para estudar a peste no Brasil\u201d, relembra a pesquisadora Alzira Almeida, coordenadora do SRP e uma das primeiras estudiosas da doen\u00e7a no Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela, com forma\u00e7\u00e3o inicial de nutri\u00e7\u00e3o, e o bi\u00f3logo C\u00e9lio Rodrigues foram enviados com uma pequena equipe para a localidade de Exu, no Sert\u00e3o, epicentro nacional da doen\u00e7a \u00e0 \u00e9poca. O munic\u00edpio sertanejo passava por mais um ciclo do mal na d\u00e9cada de 1960, com 65 enfermos sendo investigados, e era acompanhando por notifica\u00e7\u00f5es em Araripina (28 registros), Ipubi (8), Bodoc\u00f3 (7), Ouricuri (1) e Granito (1). N\u00fameros que se sabem muito maiores diante da subnotifica\u00e7\u00e3o gritante do passado. \u201cEu n\u00e3o tinha a menor ideia do que era peste. Fui come\u00e7ar do zero. Contudo, diante da falta de pessoal qualificado naquele tempo, o projeto desenvolvido pelo franc\u00eas Marcel Baltazard previa a forma\u00e7\u00e3o de pessoal\u201d, comenta Alzira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A precariedade moment\u00e2nea n\u00e3o foi obst\u00e1culo diante da necessidade de se combater a pulveriza\u00e7\u00e3o de casos no Interior, n\u00e3o s\u00f3 de Pernambuco, mas ainda do Cear\u00e1, Para\u00edba, Bahia. Foi assim que Alzira Almeida passou de nutricionista \u00e0 microbiologista, come\u00e7ando j\u00e1 naquela \u00e9poca o isolamento de cepas de Yers\u00ednia pestis, tanto de coletas humanas quanto de roedores e pulgas, que comp\u00f5em a cole\u00e7\u00e3o Fiocruz-CYP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 1980, outro m\u00e9rito dela: a implanta\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o do ant\u00edgeno para diagn\u00f3stico da peste no Brasil, que garante at\u00e9 hoje os servi\u00e7os de vigil\u00e2ncia da enfermidade. \u201cDesde 1980 n\u00e3o temos registro de casos de peste em Exu, mas os olhos continuam voltados para a cidade para ver se ela volta e como volta. S\u00e3o os sil\u00eancios da peste. Estamos estudando esse fen\u00f4meno de silenciamento, mas que n\u00e3o significa seu desaparecimento. N\u00e3o podemos esquecer que ela \u00e9 uma doen\u00e7a que sempre est\u00e1 pregando surpresas e que surge em lugares onde j\u00e1 n\u00e3o havia sinais h\u00e1 muitos anos\u201d, alerta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do car\u00e1ter de vigil\u00e2ncia em sa\u00fade, o programa de Yers\u00ednia tem valor para seguran\u00e7a global. A bact\u00e9ria, que tem na sua hist\u00f3ria secular at\u00e9 mesmo implica\u00e7\u00f5es como arma de guerra, est\u00e1 sob a prote\u00e7\u00e3o de um forte esquema de seguran\u00e7a porque poderia ser artefato num conflito biol\u00f3gico. Alzira lembra que, no dia do atentado \u00e0s Torres G\u00eameas, no 11 de setembro de 2001, precisou passar cadeados na geladeira da cole\u00e7\u00e3o sob a amea\u00e7a de roubo terrorista. Todo o material e conhecimentos conquistados durante esses 50 anos de estudo deixaram Exu, em 1970, e hoje est\u00e3o reunidos no laborat\u00f3rio do Recife.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do temor, o encantamento<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da peste ao longo das civiliza\u00e7\u00f5es \u00e9 recheada de narrativas \u00e9picas que envolvem a ci\u00eancia, a sociedade e at\u00e9 mesmo a religiosidade, j\u00e1 que a doen\u00e7a foi atribu\u00edda \u00e0 puni\u00e7\u00e3o divina contra os homens em v\u00e1rias Eras. Como ela surgiu? Dif\u00edcil de precisar. Por isso, pesquisadores estabeleceram uma divis\u00e3o cl\u00e1ssica de tr\u00eas pandemias mundiais que dizimaram milh\u00f5es de pessoas. \u201cA 1\u00aa ocorreu durante o chamado Reinado de Justiniano, em cerca de 500 anos depois de Cristo, e que, contribuiu para a queda do Imp\u00e9rio Romano, uma vez que os soldados foram dizimados. A 2\u00aa foi na Idade M\u00e9dia, que assolou a humanidade durante v\u00e1rios s\u00e9culos. J\u00e1 a 3\u00ba foi em 1894, depois de uma grande epidemia na China e de Hong-Kong ter disseminado para todo o mundo\u201d, explica Alzira Almeida. Foi justamente nesta \u00faltima pandemia que come\u00e7aram os relatos da chegada da peste no Brasil. A maior facilidade de viagens e aumento de velocidade nos transportes da \u00e9poca, com o navio a vapor, foram decisivos para a enfermidade alcan\u00e7ar o Pa\u00eds. Em 1899, o primeiro caso foi registrado no porto de Santos, em S\u00e3o Paulo, e at\u00e9 os primeiros 15 anos de 1900 todos os portos do Brasil viram a Yers\u00ednia chegar sorrateira nos por\u00f5es de navios infestados de ratos e pulgas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) Celso Tavares, em um trabalho sobre contexto, estrutura e processos da enfermidade no Brasil, resgatou mem\u00f3rias da peste em Pernambuco. Identificou que a doen\u00e7a aportou em mar\u00e7o de 1902, ap\u00f3s a escala no Recife, de navio austr\u00edaco. Jornais da \u00e9poca, que j\u00e1 noticiavam a explos\u00e3o de casos no Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, prenunciavam que a peste n\u00e3o tardaria a chegar ao Recife. Antes da confirma\u00e7\u00e3o dos doentes, houve uma grande mortalidade de ratos nos bairros de Santo Ant\u00f4nio e S\u00e3o Jos\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira morte documentada foi a do advogado e jornalista Albuquerque Sales, no fim de mar\u00e7o de 1902. Nos meses subsequentes, o que se viu foi um pandem\u00f4nio na Capital. Escolas foram fechadas para evitar a dissemina\u00e7\u00e3o. Houve desinfec\u00e7\u00e3o urgente dos pr\u00e9dios dos Correios. Suspens\u00e3o das aulas na Faculdade de Direito. Fogueiras eram colocadas nas ruas para afugentar ratos e a doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Recife conviveu com a peste at\u00e9 1924. Por outro lado, a partir de 1913 ganhou for\u00e7a no Interior, come\u00e7ando por Caruaru e S\u00e3o Caetano. At\u00e9 1936, mais de 40 munic\u00edpios tinham registros. Um dos epis\u00f3dios mais dram\u00e1ticos aconteceu em Triunfo, que teve 2,3 mil casos registrados e 1,4 mil mortes entre 1926 e 1927. A \u00faltima epidemia no Estado data dos anos 1960. No Brasil, o \u00faltimo surto foi na Para\u00edba, em 1986. E o \u00faltimo diagn\u00f3stico no Pa\u00eds foi em 2005, no Cear\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma realidade ainda mundial<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisadora Nilma Leal, do SRP, explica que os 35 anos de silenciamento da Yers\u00ednia pestis em humanos no Estado, depois do \u00faltimo caso registrado nos anos 1980, n\u00e3o significam que a bact\u00e9ria desapareceu. Ela acredita, inclusive, que os per\u00edodos de seca que Pernambuco, assim como o Nordeste, enfrentou nos \u00faltimos anos podem ter ajudado a cal\u00e1-la. Para refor\u00e7ar a necessidade de vigil\u00e2ncia constante e a import\u00e2ncia do programa no Brasil, a cientista aponta no cen\u00e1rio internacional a volta de doentes em Madagascar nos \u00faltimos meses, na \u00e1rea de Befotaka, que estava sem a enfermidade h\u00e1 50 anos. At\u00e9 27 de dezembro do ano passado j\u00e1 eram 62 casos reportados \u00e0 OMS, incluindo 26 mortes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de Madagascar, entre 2010 e 2015, foram reportados casos e mortes na Uganda e Tanz\u00e2nia, na \u00c1frica; Bol\u00edvia, Peru e Estados Unidos, nas Am\u00e9ricas; e China, R\u00fassia, Mong\u00f3lia e Quirquist\u00e3o, na \u00c1sia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre um poss\u00edvel \u201cdespertar\u201d da doen\u00e7a no Brasil, ela praticamente descarta que isso aconte\u00e7a pelas capitais, uma vez que a bact\u00e9ria parece n\u00e3o ser bem compat\u00edvel aos ratos urbanos, tendo maior afinidade para roedores silvestres. Sem ratos contaminados, a pulga, que \u00e9 o vetor, n\u00e3o carrega a doen\u00e7a, nem a transmite para humanos. Outro fator que a especialista exemplifica \u00e9 que, atualmente, a mortalidade da doen\u00e7a seria menor, uma vez que o bacilo \u00e9 facilmente tratado com antibi\u00f3ticos. \u201cAcho que n\u00e3o teria o impacto de antes. De certo, ter\u00edamos muitas mortes no come\u00e7o porque os primeiros casos iriam passar despercebidos. Mas, felizmente, ela \u00e9 sens\u00edvel a antibi\u00f3ticos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, a infec\u00e7\u00e3o, que \u00e9 transmitida pela picada de pulga de ratos infectados, ainda assim exige urg\u00eancia no tratamento. Devido \u00e0 alta capacidade de se multiplicar, se o tratamento n\u00e3o for iniciado nas primeiras 48 horas de sintomas o paciente pode vir a \u00f3bito em aproximadamente quatro dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Folha de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peste. Uma das mais terr\u00edveis doen\u00e7as que j\u00e1 assolou o mundo, e que marcou tamb\u00e9m nossa regi\u00e3o, causando medo e morte. Para al\u00e9m das narrativas do passado, tamb\u00e9m no presente ela se faz importante e temida nos mist\u00e9rios de silenciamentos inexplic\u00e1veis. Calada, n\u00e3o significa erradicada. 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