{"id":42527,"date":"2017-12-19T08:42:44","date_gmt":"2017-12-19T11:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=42527"},"modified":"2017-12-19T08:42:44","modified_gmt":"2017-12-19T11:42:44","slug":"corte-de-verbas-paralisa-testes-de-chip-brasileiro-que-pode-devolver-movimentos-a-tetraplegicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/corte-de-verbas-paralisa-testes-de-chip-brasileiro-que-pode-devolver-movimentos-a-tetraplegicos\/","title":{"rendered":"Corte de verbas paralisa testes de chip brasileiro que pode devolver movimentos a tetrapl\u00e9gicos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Cientistas tentam avan\u00e7ar em estudos com dispositivo que consiga transmitir ordens do c\u00e9rebro do paciente a um exoesqueleto, mas crise na ci\u00eancia dispersa equipe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 pouco mais de um ano, pesquisadores brasileiros e americanos unidos em um cons\u00f3rcio cient\u00edfico comemoravam os primeiros resultados de uma in\u00e9dita interface neural \u2013 um dispositivo capaz de conectar o c\u00e9rebro humano a um aparelho externo \u2013 que poderia ser a esperan\u00e7a daqueles sem os movimentos de bra\u00e7os e pernas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA alegria dos cientistas foi abreviada ainda em 2016, quando cortes de verba generalizados atingiram a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional. No caso do cons\u00f3rcio, primeiro, os testes foram paralisados. Depois, o time foi desmantelado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nDe 2014 para 2016, o or\u00e7amento de Ci\u00eancia e Tecnologia caiu 62% no Brasil, de R$ 8,4 bilh\u00f5es para R$ 3,2 bilh\u00f5es. Sem dinheiro no pa\u00eds, parte dos cientistas foi para o exterior \u2013 e os testes tiveram que esperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;Todos s\u00e3o procedimentos muito caros. Fizemos um lote de testes e foi quando o Brasil entrou nessa crise e faltou dinheiro para todo mundo&#8221;, diz Mario Gazziro, pesquisador na USP S\u00e3o Carlos, professor da Universidade Federal do ABC e um dos que encabe\u00e7am o projeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA empreitada para construir um chip implant\u00e1vel no c\u00e9rebro e operante com tecnologia sem fio para devolver movimentos a tetrapl\u00e9gicos come\u00e7ara ainda em 2010. Gazziro estava voltando do Jap\u00e3o ap\u00f3s um per\u00edodo de estudos custeados com bolsa do governo brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela \u00e9poca, ele j\u00e1 havia trabalhado com interfaces neurais, mas em insetos, e queria saltar para solu\u00e7\u00f5es em humanos. Foi quando conheceu o pesquisador americano Stephen Saddow, que h\u00e1 15 anos pesquisava um material para interfaces neurais que pudesse ser espetado no c\u00e9rebro apenas uma vez e ali ficasse para o resto da vida, sem irritar os anticorpos do entorno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;O material dele era flex\u00edvel e permitia uma inser\u00e7\u00e3o cerebral sem causar traumas. O eletrodo que ele desenvolveu \u00e9 como uma folhinha de papel, que precisa ser inserida no c\u00f3rtex cerebral. Ningu\u00e9m faz isso hoje&#8221;, explica Gazziro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A descoberta da biocompatibilidade do material, \u00e0 base de carbeto de sil\u00edcio, pavimentaria o in\u00edcio do projeto Interface Neural Implant\u00e1vel (INI), que reuniria, al\u00e9m de Gazziro e Saddow, a cientista Luciene Covolan, da Unifesp, e uma pequena empresa santa-catarinense, a Chipus Microelectronics, fundada por ex-pesquisadores da Unicamp e da USP S\u00e3o Carlos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nJuntos, eles buscavam desenvolver um chip min\u00fasculo, que transmitiria, via tecnologia wireless, ordens dos c\u00e9rebro a uma m\u00e1quina fora do corpo humano, que executaria os movimentos que os membros dos tetrapl\u00e9gicos n\u00e3o conseguem fazer. Se bem-sucedida, a pequena interface seria o elo que finalmente conectaria humanos e exoesqueletos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;H\u00e1 anos, pesquisas no campo da ci\u00eancia biom\u00e9dica buscam devolver movimentos a pessoas com defici\u00eancia, mas essa solu\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o existe&#8221;, afirma Paulo Augusto Dal Fabbro, cofundador da Chipus. &#8220;O projeto \u00e9 algo esperan\u00e7oso.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Implante no c\u00e9rebro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA busca por uma interface que possibilite o c\u00e9rebro comunicar-se diretamente com m\u00e1quinas come\u00e7ou ainda nos anos 1970. Quatro d\u00e9cadas depois, as estruturas rob\u00f3ticas vest\u00edveis est\u00e3o prontas. Um exemplo \u00e9 o exoesqueleto desenvolvido pelo time do cientista brasileiro Miguel Nicolelis e usado por um tetrapl\u00e9gico para o chute inaugural na abertura da Copa do Mundo em 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nPor\u00e9m, pesquisadores ainda buscam uma solu\u00e7\u00e3o implant\u00e1vel para que c\u00e9rebro e m\u00e1quina conversem, de forma que sejam dispensados os fios inseridos na cabe\u00e7a, cuja durabilidade m\u00e9dia \u00e9 de dois anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o quer ser uma pessoa andando com cabos que te ligam a um estimulador fora do corpo. Precisa de um sistema que seja duradouro. E se o fio se enrosca, perdemos o implante ou machucamos o paciente&#8221;, explica Luciene Covolan, professora-associada de neurofisiologia na Unifesp e respons\u00e1vel pelos testes do chip em animais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nMas para os fios serem substitu\u00eddos, era preciso uma op\u00e7\u00e3o que consumisse pouqu\u00edssima energia, funcionasse sem bateria e, mesmo abrigando em torno de 500 eletrodos, fosse pequena o suficiente para n\u00e3o ser rejeitada pelo organismo humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA interface de Gazziro, Covolan e seus colegas funciona por meio de eletrodos feitos de carbeto de sil\u00edcio, acoplados a um pequeno chip. Ao serem implantados no c\u00e9rebro de maneira cir\u00fargica, os eletrodos, que agem como uma esp\u00e9cie de fio, se comunicam com os neur\u00f4nios do c\u00f3rtex motor para captar mensagens neurol\u00f3gicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;\u00c9 dali que saem os sinais para a espinha (dorsal). Quando a pessoa quer movimentar o bra\u00e7o, a atividade cerebral existe: no c\u00e9rebro, voc\u00ea est\u00e1 movendo a m\u00e3o, mas, se a pessoa danificou a espinha, o sinal n\u00e3o chega ao corpo&#8221;, explica Gazziro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nO sinal dos neur\u00f4nios captado pelo eletrodo \u00e9 ent\u00e3o transmitido para o chip, que amplifica esse sinal e o manda, via frequ\u00eancia de r\u00e1dio, para fora da caixa craniana. Uma antena externa, no couro cabeludo, capta a mensagem inicial dos neur\u00f4nios e a envia para a estrutura rob\u00f3tica acoplada ao corpo do paciente, que responde aos sinais do c\u00e9rebro, movendo o membro solicitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nNos primeiros testes em animais, os eletrodos se mostraram resistentes e biocompat\u00edveis com o c\u00e9rebro, o que, em tese, faria com que o material durasse a vida toda. Uma \u00fanica cirurgia seria necess\u00e1ria, para inserir o chip, que n\u00e3o precisaria ser reposto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;O c\u00e9rebro \u00e9 extremamente sens\u00edvel. Cada vez que voc\u00ea espeta ali um eletrodo, \u00e9 uma agress\u00e3o ao tecido nervoso. Voc\u00ea n\u00e3o quer abrir o c\u00e9rebro a cada dois anos e espetar esse eletrodo l\u00e1&#8221;, explica Covolan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Hoje h\u00e1 interfaces com fios atravessando a caixa craniana, mas elas trazem a possibilidade de infec\u00e7\u00e3o e podem causar traumas fatais. A nossa solu\u00e7\u00e3o seria colocar os eletrodos dentro da cabe\u00e7a do paciente e nunca mais abri-la. Poderia ser feito com crian\u00e7as, e nunca mais precisaria repor&#8221;, aponta Gazziro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>Sem dinheiro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nEm 2012, dois anos ap\u00f3s a aproxima\u00e7\u00e3o inicial entre Gazziro e Saddow, o cientista americano conseguiu uma bolsa para ser professor-visitante na USP S\u00e3o Carlos e participar das pesquisas. O dinheiro veio pelo programa Ci\u00eancias Sem Fronteiras, que buscava, al\u00e9m de enviar pesquisadores brasileiros para o exterior, trazer cientistas de alto impacto para o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nEm meados de 2015, com a primeira gera\u00e7\u00e3o da interface pronta, os testes em animais come\u00e7aram, e os resultados foram animadores. &#8220;Nos nossos dados preliminares, o carbeto de sil\u00edcio praticamente n\u00e3o cria resposta inflamat\u00f3ria no tecido nervoso. O tecido responde de uma maneira muito mais satisfat\u00f3ria que com os eletrodos tradicionais&#8221;, afirma Covolan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nNo entanto, logo ap\u00f3s os resultados positivos, veio o rev\u00e9s inesperado: a verba de R$ 400 mil solicitada pelos cientistas para a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), ag\u00eancia do governo federal, em 2015, n\u00e3o saiu. Como resultado, ficou imposs\u00edvel cobrir os custos dos estudos cl\u00ednicos, entre R$ 25 e R$ 30 mil reais cada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nNo mesmo ano, a bolsa de Saddow com o Ci\u00eancias sem Fronteiras foi suspensa. O cientista mudou-se para a It\u00e1lia, onde passou os \u00faltimos anos para aprimorar interfaces motoras neuromusculares. Em abril de 2016, o Ci\u00eancias sem Fronteiras foi definitivamente encerrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nSem dinheiro para os testes e com o corte de verbas para pesquisadores, no ano passado Covolan mudou-se para os Estados Unidos, onde tinha uma oferta para continuar suas pesquisas, sobre epilepsia e acidentes vasculares cerebrais (AVC), no Lerner Research Institute, na Cleveland Clinic.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;O ano de 2016 foi muito dif\u00edcil. Voc\u00ea conversava com as pessoas e havia des\u00e2nimo geral&#8221;, diz Covolan. &#8220;Isso levou v\u00e1rias pessoas a buscar outros caminhos. (Vir para os EUA) foi uma alternativa que encontrei para continuar meus projetos e n\u00e3o perder produtividade&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gazziro lamenta a dispers\u00e3o do time: &#8220;Depois de tr\u00eas anos com todo mundo trabalhando junto, de repente, por uma crise, perdemos dois pesquisadores. Foi muito triste.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nProcurado para comentar o corte de verbas e o impacto do fim do programa Ci\u00eancia sem Fronteiras em pesquisas no Brasil, o Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>Chip entre os tr\u00eas de menor consumo de energia no mundo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nApesar da falta de investimentos, as pesquisas n\u00e3o pararam. No \u00faltimo ano, os pesquisadores refinaram a parte te\u00f3rica do projeto e melhoraram o consumo de energia do chip implant\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;Naquela \u00e9poca, (o nosso chip) j\u00e1 estava entre os tr\u00eas de menor consumo de energia do mundo, mas melhoramos aquele resultado em dez vezes de l\u00e1 para c\u00e1&#8221;, diz Gazziro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nOs pesquisadores tamb\u00e9m encontraram uma nova frequ\u00eancia de opera\u00e7\u00e3o para o chip, que resulta em menor absor\u00e7\u00e3o de energia pelos tecidos e a \u00e1gua que existem no c\u00f3rtex cerebral, o que melhora o funcionamento da interface. &#8220;O chip tem o eletrodo que capta informa\u00e7\u00f5es do c\u00f3rtex para enviar aos membros, e ele precisa de energia para trabalhar. Com essa descoberta, vamos redesenhar parte do circuito&#8221;, explica Augusto Dal Fabbro, da Chipus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nEm 2018, os cientistas tentar\u00e3o novo financiamento. Se sair e a pesquisa obtiver sucesso, os pesquisadores pretendem doar a patente a grandes laborat\u00f3rios para testarem a interface. &#8220;Os exoesqueleto est\u00e3o prontos, mas n\u00e3o existe ainda uma interface cerebral que permita que esse exoesqueleto seja unido ao corpo de maneira segura e permanente&#8221;, afirma Gazziro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: G1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;O mundo todo est\u00e1 buscando uma interface que funcione. O nosso trabalho \u00e9 provar para o mundo que essa solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a nossa.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cientistas tentam avan\u00e7ar em estudos com dispositivo que consiga transmitir ordens do c\u00e9rebro do paciente a um exoesqueleto, mas crise na ci\u00eancia dispersa equipe. 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