{"id":45464,"date":"2018-04-13T10:40:18","date_gmt":"2018-04-13T13:40:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=45464"},"modified":"2018-04-13T10:40:18","modified_gmt":"2018-04-13T13:40:18","slug":"a-condicao-rara-que-faz-um-medico-sentir-a-dor-de-seus-pacientes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/a-condicao-rara-que-faz-um-medico-sentir-a-dor-de-seus-pacientes\/","title":{"rendered":"A condi\u00e7\u00e3o rara que faz um m\u00e9dico &#8216;sentir&#8217; a dor de seus pacientes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O americano Joel Salinas tem a chamada sinestesia &#8216;espelho-toque&#8217;, que faz com que, toda vez que ele veja algu\u00e9m sentindo dor, seu c\u00e9rebro recrie as sensa\u00e7\u00f5es dessa pessoa em seu pr\u00f3prio corpo &#8211; para seguir a carreira na Medicina, foi preciso aprender a lidar com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o m\u00e9dico Joel Salinas, a m\u00fasica cria cores, n\u00fameros t\u00eam personalidades e a dor de outras pessoas \u00e9 quase como a sua pr\u00f3pria. Ele achava que todo mundo vivia dessa forma \u2013 at\u00e9 ir para a Faculade de Medicina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salinas descobriu que essa caracter\u00edstica era diferente um dia em que passou mal na universidade. Ele correu para o banheiro do hospital e vomitou at\u00e9 ficar sem ar. Lavando o rosto, o ent\u00e3o aluno do terceiro ano de curso encarou seu rosto p\u00e1lido no espelho e implorou a si mesmo para seguir vivendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele ainda n\u00e3o sabia, mas tinha uma condi\u00e7\u00e3o chamada &#8220;sinestesia espelho-toque&#8221;, algo que fazia com que, toda vez que visse algu\u00e9m sentindo dor, seu c\u00e9rebro recriasse as sensa\u00e7\u00f5es dessa pessoa no seu pr\u00f3prio corpo. E nesse dia, em 2008, ele simplesmente tinha assistido a uma pessoa morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Algu\u00e9m teve uma parada card\u00edaca e isso me pegou completamente desprevenido&#8221;, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;Eu vi que o paciente estava recebendo compress\u00f5es no peito e eu podia sentir minhas costas no ch\u00e3o e as compress\u00f5es no meu peito. Eu senti o tubo de oxig\u00eanio rasgando o fundo da minha garganta&#8221;.<br \/>\nQuando o paciente foi oficialmente declarado morto, 30 minutos depois, Salinas experimentou um &#8220;sil\u00eancio misterioso&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu tive essa completa aus\u00eancia de sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Era assustador. Era como estar em um quarto com ar condicionado e de repente ele ter sido desligado do nada&#8221;, disse. Ele fugiu para o banheiro, onde conseguiu confirmar para si pr\u00f3prio que n\u00e3o estava morto \u2013 e jurou que n\u00e3o iria se permitir ter uma rea\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sinestesia \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o em que um ou mais dos sentidos se mistura com outro, em vez de ambos serem percebidos separadamente. Algumas pessoas sentem um sabor quando ouvem m\u00fasica, enquanto outras perceberm cores ao olharem para letras e n\u00fameros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salinas tem lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia sobre como ouvia o sino soando em azul e amarelo em sua escola prim\u00e1ria na Fl\u00f3rida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando eu pintava desenhos na escola, eu sempre fui muito espec\u00edfico com isso. Meu B tinha que ter o tom certo de laranja e os n\u00fameros precisavam ser amarelos&#8221;, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;Quando eu fazia somas, isso tamb\u00e9m n\u00e3o fazia sentido intuitivamente para mim. Meu 2 era uma pessoa maternal vermelha e meu 4 era uma pessoa amig\u00e1vel azul. Ent\u00e3o como 2 + 2 poderia ser igual a 4?&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, as associa\u00e7\u00f5es com cores tamb\u00e9m o ajudavam a lembrar as informa\u00e7\u00f5es que aprendia \u2013 o que fazia com que Salinas se tornasse um &#8220;g\u00eanio do vocabul\u00e1rio e da ortografia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele tamb\u00e9m se lembra de ter tido dificuldades para &#8220;se encaixar&#8221; nos grupos da escola e tamb\u00e9m de ter perguntado \u00e0 m\u00e3e por que ningu\u00e9m gostava dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema \u00e9 que ele gostava muito de abra\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Abra\u00e7ar era uma experi\u00eancia totalmente imersiva&#8221;, escreveu no livro que publicou em 2017, intitulado Mirror Touch. O ato fazia com que ele se sentisse aquecido e seguro e com aquele mesmo sentimento azul que o n\u00famero quatro despertava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quando ele abra\u00e7ava outras crian\u00e7as, elas muitas vezes achavam aquilo esquisito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de frequentes rejei\u00e7\u00f5es, Salinas se recolheu ainda mais no seu mundo pr\u00f3prio. Ele passava horas vendo televis\u00e3o de uma forma que seu corpo sentia cada toque e movimento que estava passando na tela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando o Papa L\u00e9guas colocava a l\u00edngua para fora, eu sentia como se fosse a minha &#8216;fugindo&#8217; da minha boca. Quando o coiote era atingido por um caminh\u00e3o, eu tamb\u00e9m sentia!&#8221;, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nQuando adolescente, Salinas percebeu que fazer com que os outros se sentissem bem faria com que ele pr\u00f3prio se sentisse bem &#8211; gra\u00e7as \u00e0 sua experi\u00eancia sensorial compartilhada. Ele entendeu que sua voca\u00e7\u00e3o seria &#8216;curar pessoas&#8217; e decidiu seguir a carreira na medicina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele ainda n\u00e3o havia falado com ningu\u00e9m sobre suas experi\u00eancias at\u00e9 aquele momento, j\u00e1 que entendia que todo mundo via e sentia o mundo da mesma maneira. No entanto, em uma viagem \u00e0 \u00cdndia pela faculdade em 2005, Salinas descobriu que n\u00e3o era esse o caso. Quando um colega de sala descreveu um grupo de pessoas que percebia cores nas letras, Salinas refor\u00e7ou que isso seria o caso da maioria das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele me olhou e disse: &#8216;esse definitivamente n\u00e3o \u00e9 o caso para todo mundo'&#8221;, diz Salinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nMas entender isso n\u00e3o o preparou para os desafios que viriam na pr\u00f3xima fase dos seus estudos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A dor do espelho-toque ficou latente na faculdade de Medicina, quando eu comecei a presenciar essas situa\u00e7\u00f5es extremas de trauma f\u00edsico&#8221;, conta o m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando assistia a um procedimento em um adolescente em uma sala de cirurgia, ele sentiu a incis\u00e3o como se tivesse sendo feita em seu pr\u00f3prio abd\u00f4men, seguida pela experi\u00eancia quente e contorcida de ver os \u00f3rg\u00e3os internos do menino ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo veio \u00e0 tona no dia em que um paciente morreu, e ele se viu vomitando no banheiro do hospital. Foi quando ele percebeu que teria que encontrar uma forma de lidar com isso se quisesse realmente ser m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salinas percebeu que as sensa\u00e7\u00f5es de &#8216;espelho-toque&#8217; eram mais intensas quando ele estava surpreso ou quando a pessoa que ele estava atendendo era mais parecida com ele. Ent\u00e3o ele come\u00e7ou a se preparar para essas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu foquei em desviar o olhar. Ficar olhando para a manga do paciente ou para a gola, ou fixar os olhos no meu pr\u00f3prio corpo&#8221;, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ele tamb\u00e9m entendeu que sua &#8216;hiper-empatia&#8217; o ajudava a tratar seus pacientes. Salinas percebia quase que imediatamente se o paciente estava com sede ou com dor, prestando aten\u00e7\u00e3o nos detalhes mais sutis de movimentos de face e de corpo. &#8220;Eu realmente tenho uma participa\u00e7\u00e3o no bem-estar dos meus pacientes porque, naquele momento, tamb\u00e9m \u00e9 o meu bem-estar que est\u00e1 em jogo&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Estar no hospital pode ser algo bastante solit\u00e1rio para o paciente e conseguir, de alguma forma, habitar aquele mesmo lugar pode significar muito.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nUma pesquisa sobre sinestesia estava ainda bem no in\u00edcio em 2007, quando Salinas visitou o neurologista respons\u00e1vel por ela, V S Ramachandran, para participar de alguns testes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O especialista disse para ele que sua experi\u00eancia de sentir toques quando via algu\u00e9m sendo tocado era uma descoberta recente, de um tipo ainda pouco conhecido de sinestesia chamado &#8220;espelho-toque&#8221;. Essa condi\u00e7\u00e3o afeta cerca de 1,6% da popula\u00e7\u00e3o, de acordo com um estudo liderado por Michael Banissy.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salinas tamb\u00e9m descobriu que sua pr\u00f3pria irm\u00e3 tamb\u00e9m percebia cores nas letras, e sua m\u00e3e e seu irm\u00e3o tamb\u00e9m tiveram experi\u00eancias de &#8220;espelho-toque&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cientistas agora acham que todos nascemos com sinestesia de alguma maneira. Um estudo recente descobriu que beb\u00eas associam formas diferentes a cores distintas. No entanto, essa mistura de sentidos diminui na maioria das pessoas, porque nossos c\u00e9rebros removem conex\u00f5es desnecess\u00e1rias em um processo de &#8220;pod\u00e1-las&#8221; (conhecido como &#8220;pruning&#8221; em ingl\u00eas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma hip\u00f3tese \u00e9 que as pessoas com sinestesia t\u00eam um defeito nesse processo de &#8220;poda&#8221;, ent\u00e3o acabam ficando com um excesso de conex\u00f5es&#8221;, explicou Salinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, como neurologista da Escola de Medicina em Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts, Salinas achou mais f\u00e1cil falar sobre suas experi\u00eancias \u00e0 medida que a pesquisa sobre o assunto se aprofundava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Antes havia o risco de ser visto como &#8216;estranho&#8217;, como &#8216;diferente&#8217; ou como um &#8216;mentiroso&#8217;. Agora, eu posso defender essa condi\u00e7\u00e3o como algo real&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele concordou em ser entrevistado pela artista Daria Martin, que estava produzindo um filme sobre o espelho-toque para a Wellcome Collection em Londres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00f3s acreditamos que as pessoas t\u00eam cinco sentidos: olfato, audi\u00e7\u00e3o, vis\u00e3o, tato e paladar. Mas, al\u00e9m disso, h\u00e1 v\u00e1rios sentidos reconhecidos cientificamente, incluindo dor e temperatura&#8221;, disse Martin.<br \/>\n&#8220;A sinestesia pode transitar entre tudo isso, \u00e9 uma mistura de todos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nMartin criou dois filmes explorando a sinestesia de espelho-toque. Ela entrevisou diversas pessoas com a condi\u00e7\u00e3o e apresentou Salinas para uma delas: Fiona Torrance, de Liverpool.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nossas experi\u00eancias foram surpreendentemente similares, mas ela pareceu ter sentido mais o impacto das experi\u00eancias f\u00edsicas&#8221;, afirmou Salinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Por exemplo, houve um incidente em que ela estava no carro e uma pessoa por perto levou um soco. A experi\u00eancia que ela sentiu na hora foi t\u00e3o forte e verdadeira que ela chegou a desmaiar.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salinas conta que o encontro com outras pessoas sinest\u00e9sicas faz com que quem sofre dessa condi\u00e7\u00e3o se sinta mais &#8220;normal&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, ele \u00e9 contra pensar na sinestesia como um dist\u00farbio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu n\u00e3o vejo isso como b\u00ean\u00e7\u00e3o ou uma maldi\u00e7\u00e3o. Eu acho que pode ser um pouco dos dois&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;Eu n\u00e3o consigo imaginar minha vida sem a sinestesia. Eu n\u00e3o seria quem eu sou agora sem isso.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O americano Joel Salinas tem a chamada sinestesia &#8216;espelho-toque&#8217;, que faz com que, toda vez que ele veja algu\u00e9m sentindo dor, seu c\u00e9rebro recrie as sensa\u00e7\u00f5es dessa pessoa em seu pr\u00f3prio corpo &#8211; para seguir a carreira na Medicina, foi preciso aprender a lidar com isso. 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