{"id":45801,"date":"2018-04-27T10:52:39","date_gmt":"2018-04-27T13:52:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=45801"},"modified":"2018-04-27T10:52:39","modified_gmt":"2018-04-27T13:52:39","slug":"zika-trata-tumor-cerebral-em-cobaias-usp-vai-comecar-testes-em-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/zika-trata-tumor-cerebral-em-cobaias-usp-vai-comecar-testes-em-humanos\/","title":{"rendered":"Zika trata tumor cerebral em cobaias; USP vai come\u00e7ar testes em humanos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">C\u00e2nceres que afetam principalmente crian\u00e7as desapareceram completamente em 9 cobaias injetadas com c\u00e9lulas humanas pela 1\u00aa vez. A geneticista Mayana Zatz diz que resultados foram t\u00e3o promissores que pesquisadores se abra\u00e7aram em algumas fases da pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando as anomalias em fetos provocadas pelo v\u00edrus da zika come\u00e7aram a surgir em 2015 no Brasil, pesquisadores descobriram que o v\u00edrus tem uma &#8220;prefer\u00eancia&#8221; por c\u00e9lulas que v\u00e3o dar origem a neur\u00f4nios. Quase tr\u00eas anos depois, a surpresa \u00e9 que esse mesmo v\u00edrus que deflagrou uma emerg\u00eancia de sa\u00fade p\u00fablica por aqui pode ser usado para o tratamento de crian\u00e7as com tumores cerebrais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O zika poder\u00e1 ser usado como terapia porque as mesmas c\u00e9lulas que ele gosta de atacar em fetos est\u00e3o presentes em alguns tumores. Essa premissa deu a largada para uma s\u00e9rie de iniciativas para terapias de c\u00e2nceres cerebrais: uma delas, por exemplo, foi feita na Unicamp com o glioblastoma; a de agora, foi uma iniciativa que reuniu pesquisadores de grupos diferentes da USP e do Instituto Butantan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/nBgFftbkPn-LJ8mKwuoVAKEpUAo=\/0x0:1023x1023\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2018\/D\/f\/xWDqfVSdikkNrzh2arEA\/zikatecido.jpg\" alt=\"A imagem mostra o tumor no c\u00c3\u00a9rebro do camundongo. Cada ponto azul \u00c3\u00a9 o n\u00c3\u00bacleo de uma c\u00c3\u00a9lula tumoral. As partes verdes representam o c\u00c3\u00a9rebro do animal. J\u00c3\u00a1 as manchas vermelhas, s\u00c3\u00a3o o v\u00c3\u00adrus da zika dentro do tumor (Foto: N\u00c3\u00bacleo de Divulga\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o Cient\u00c3\u00adfica da USP)\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa iniciativa, pesquisadores trataram, pela 1\u00aa vez em cobaias que receberam c\u00e9lulas humanas, dois c\u00e2nceres mais comuns em crian\u00e7as: o meduloblastoma e o tumor AT\/RT (tumor terat\u00f3ide rabd\u00f3ide at\u00edpico). O meduloblastoma \u00e9 um tumor cerebral que tem sua origem nas c\u00e9lulas da medula. Afeta em torno de 25 crian\u00e7as a cada 1 milh\u00e3o e atinge mais comumemente crian\u00e7as entre 4 a 5 anos. J\u00e1 o AT\/RT, \u00e9 mais comum at\u00e9 os dois anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nApesar de feito em cobaias, os pesquisadores inseriram tumores humanos nos animais: com essa estrat\u00e9gia, conseguiram testar o potencial da terapia para tumores em indiv\u00edduos. \u00c9 por esse motivo que o estudo j\u00e1 fala diretamente de tumores que afetam em crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/wXStzY3a5jFQ0eK0HP5HQumeT9g=\/0x0:1233x552\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2018\/C\/t\/LvPD5RS3i4JmA94yEebw\/camundongoscancerusp.png\" alt=\"Pontos coloridos mostram o tumor; \u00c3\u00a0 esquerda, uma cobaia com tumor sem nenhum tratamento. Progressivamente, nota-se como o tumor vai desaparecendo paulatinamente com as inje\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es do v\u00c3\u00adrus da zika. C\u00c3\u00a9lulas tumorais foram modificadas para emitirem luz.  (Foto: N\u00c3\u00bacleo de Divulga\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o Cient\u00c3\u00adfica\/USP\/Kaid et al)\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois dos testes, o zika fez o tumor desaparecer em 9 cobaias e ainda teve efeitos positivos sobre a met\u00e1stase (quando o c\u00e2ncer se espalha para o restante do organismo). Importante lembrar que os testes feitos no Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e C\u00e9lulas-tronco da Universidade de S\u00e3o Paulo s\u00e3o iniciais, mas promissores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Estamos empolgad\u00edssimos. Ficamos t\u00e3o emocionados que, a cada fase da pesquisa, a gente se abra\u00e7ava. Vimos que o vil\u00e3o pode ser um bem-feitor&#8221;, lembra a pesquisadora Mayana Zatz.<br \/>\nO estudo foi publicado nesta quinta-feira (26) no prestigiado &#8220;Cancer Research&#8221;, a publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da American Association for Cancer Research. O trabalho teve como primeira autora a aluna Carolini Kaid, doutoranda da USP e orientanda do pesquisador Keith Okamoto, professor do Departamento de Gen\u00e9tica e Biologia Evolutiva da Universidade de S\u00e3o Paulo, que tamb\u00e9m assina o trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carolini fez as cirurgias para a implementa\u00e7\u00e3o de tumores e injetou o v\u00edrus do zika no local. Ela tamb\u00e9m acompanhou a evolu\u00e7\u00e3o do tratamento, informa o N\u00facleo de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica da USP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA pesquisa teve a coordena\u00e7\u00e3o da Mayana Zatz, tamb\u00e9m da USP, e contou com a participa\u00e7\u00e3o de outros pesquisadores. Tamb\u00e9m o Instituto Butantan, diz Mayana, foi um parceiro importante pelo conhecimento da institui\u00e7\u00e3o com o v\u00edrus da zika.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/bUpIQzVHVXRiKX_xzOCfC2awWeY=\/0x0:1700x1065\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2018\/O\/1\/OyC1mOTfmNwdvmugYkog\/img-6043.jpg\" alt=\"A pesquisadora Mayana Zatz, da USP (Foto: Caio Kenji\/G1)\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Detalhes e resultados do estudo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para testar o v\u00edrus da zika nos tumores, pesquisadores selecionaram camundongos transg\u00eanicos sem sistema imunol\u00f3gico. &#8220;Isso era importante para que eles n\u00e3o rejeitassem as c\u00e9lulas humanas&#8221;, conta a geneticista. Depois disso, essas cobaias receberam c\u00e9lulas similares \u00e0 presente em tumores de meduloblastoma. Por fim, os animais foram injetados com o v\u00edrus da zika selvagem, o mesmo que infectou fetos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nEm um acompanhamento de tr\u00eas meses, eles perceberam que 20 cobaias tiveram o tumor reduzido; e, em 9 delas, o tumor desapareceu por completo. &#8220;Tamb\u00e9m verificamos que n\u00e3o havia vest\u00edgios do tumor na coluna vertebral, um indicativo que o zika tamb\u00e9m \u00e9 eficaz contra a met\u00e1stase&#8221;, diz Mayana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;S\u00e3o resultados in\u00e9ditos. A gente sempre espera que a pesquisa que a gente faz tenha uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Ver o zika tratando tumores em crian\u00e7as ser\u00e1 um resultado que n\u00e3o ter\u00e1 pre\u00e7o.&#8221;<br \/>\nA pesquisa teve um grupo-controle (quando cientistas separam um grupo de cobaias que n\u00e3o v\u00e3o receber o tratamento). Assim, pesquisadores tamb\u00e9m viram a evolu\u00e7\u00e3o do tumor em camundongos sem terapia com zika. O resultado? Eles morreram em duas semanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/GPHpRBDVVZYZDVq155Aydr0htuM=\/0x0:582x765\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2018\/x\/I\/ZyNEK0QQyNpF1QHBF5Wg\/celulastumoraisesferasusp.png\" alt=\"Imagem retirada do estudo mostra a a\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o do zika sobre c\u00c3\u00a9lulas do tumor. As imagens mais \u00c3\u00a0 esquerda v\u00c3\u00a3o mostrando a a\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o do zika progressivamente. O v\u00c3\u00adrus vai desorganizando as esferas das c\u00c3\u00a9lulas tumorais  (Foto: Kaid et al)\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os caminhos da pesquisa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nMayana Zatz explica que a pesquisa teve um longo caminho. Antes, em um dos estudos feitos com g\u00eameos de m\u00e3e infectadas com v\u00edrus da zika, os cientistas perceberam com mais clareza como o v\u00edrus consegue infectar as c\u00e9lulas que d\u00e3o origem aos neur\u00f4nios (chamadas de neuroprogenitoras).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda, para entender melhor a a\u00e7\u00e3o do zika, pesquisadores testaram outras linhagens de tumores (pr\u00f3stata, intestino e mama) e perceberam que o v\u00edrus n\u00e3o teve a mesma a\u00e7\u00e3o. A prefer\u00eancia dele mesmo \u00e9 para tumores de c\u00e9rebro; e, como mencionado acima, especialmente para essas c\u00e9lulas &#8220;criadoras de neur\u00f4nios&#8221;. A partir desses achados, os cientistas da USP come\u00e7aram a pesquisa com o meduloblastama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;Conversamos com o grupo do Keith Okamoto, que tem interesse em tumores com essas c\u00e9lulas neuroprogenitoras. Estabelecemos uma parceria e come\u00e7amos os testes. Sabemos que tumores com essas c\u00e9lulas s\u00e3o mais agressivos, mais patog\u00eanicos. O Okamoto estava interessado nisso&#8221;, conta Zatz.<br \/>\nSobre esses tumores com c\u00e9lulas mais agressivas, Mayana explicou detalhadamente ao G1 como se d\u00e1 esse processo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Todos n\u00f3s viemos de uma \u00fanica c\u00e9lula, que foi se diferenciando em outras. Algumas c\u00e9lulas interrompem esse processo de diferencia\u00e7\u00e3o, mas outras continuam se dividindo loucamente gerando tumores. Esses tumores s\u00e3o mais comuns em crian\u00e7as, mas h\u00e1 casos de c\u00e2nceres desse tipo em adultos. Nos adultos, \u00e9 como se algumas dessas c\u00e9lulas-tronco ficassem em estado de lat\u00eancia e depois come\u00e7assem a se diferenciar no c\u00e2ncer&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pr\u00f3ximos passos e seguran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nOs pesquisadores esperam come\u00e7ar a testar a estrat\u00e9gia em humanos nos pr\u00f3ximos meses. &#8220;Vai demorar um pouco para cultivar o v\u00edrus em condi\u00e7\u00f5es especiais. Temos de ter certeza que n\u00e3o h\u00e1 outros pat\u00f3genos. Precisamos de laborat\u00f3rios especiais e pessoas treinadas e isso n\u00e3o \u00e9 trivial. Vamos contar com a expertise do Instituto Butantan para isso&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisadora diz que a estrat\u00e9gia primeiro ser\u00e1 feita em um grupo pequeno, de duas a tr\u00eas pessoas. O v\u00edrus usado ser\u00e1 o selvagem, como o usado em animais. A pesquisadora explica que, gra\u00e7as \u00e0 epidemia no Brasil, sabe-se que 80% das pessoas infectadas com o v\u00edrus da zika n\u00e3o apresentam sintomas; por isso, os testes seriam seguros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro achado importante da pesquisa \u00e9 que os cientistas viram que, depois que o v\u00edrus zika ataca as c\u00e9lulas neuroprogenitoras, ele fica mais &#8220;sossegado&#8221; e n\u00e3o tem o mesmo poder virulento como antes. &#8220;Ele perde o seu poder destruidor&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses pontos fazem com que os cientistas tenham alguma seguran\u00e7a de que, ao usarem o v\u00edrus da zika para o tratamento, ele n\u00e3o vai deflagrar efeitos ou infec\u00e7\u00f5es inesperadas. Apesar dos efeitos mais que promissores, contudo, a pesquisadora pontua que ainda h\u00e1 muito o que ser feito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n&#8220;Vamos precisar definir muitos fatores, como a dose ideal para o tratamento ou quantas vezes o zika ter\u00e1 de ser injetado. A gente n\u00e3o sabe isso ainda e vamos descobrir conforme os testes forem avan\u00e7ando&#8221;, conclui Mayana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e2nceres que afetam principalmente crian\u00e7as desapareceram completamente em 9 cobaias injetadas com c\u00e9lulas humanas pela 1\u00aa vez. A geneticista Mayana Zatz diz que resultados foram t\u00e3o promissores que pesquisadores se abra\u00e7aram em algumas fases da pesquisa. 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