{"id":47463,"date":"2018-08-03T09:49:23","date_gmt":"2018-08-03T12:49:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=47463"},"modified":"2018-08-03T09:49:23","modified_gmt":"2018-08-03T12:49:23","slug":"mulheres-que-fizeram-aborto-relatam-momentos-de-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/mulheres-que-fizeram-aborto-relatam-momentos-de-medo\/","title":{"rendered":"Mulheres que fizeram aborto relatam momentos de medo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Entre 2006 e 2015, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade contabilizou 770 \u00f3bitos de mulheres por complica\u00e7\u00f5es ap\u00f3s procedimentos de aborto. De acordo com a pasta, o aborto \u00e9 a quarta causa de mortalidade materna no pa\u00eds<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um pa\u00eds marcado por abismos socioecon\u00f4micos, uma quest\u00e3o pol\u00eamica de sa\u00fade p\u00fablica, como o aborto, acaba revelando privil\u00e9gios. No Brasil, onde a interrup\u00e7\u00e3o da gravidez s\u00f3 \u00e9 permitida em casos espec\u00edficos, abortos seguros s\u00e3o prerrogativa de mulheres ricas que podem arcar com pre\u00e7os cobrados por m\u00e9dicos ou cl\u00ednicas ilegais espalhadas pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mulheres pobres, em geral, recorrem a m\u00e9todos perigosos em casa ou em cl\u00ednicas de p\u00e9ssima qualidade. Muitas delas morrem devido a hemorragias graves causadas por procedimentos mal feitos. Tamb\u00e9m s\u00e3o elas as mais atingidas pela criminaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a publica\u00e7\u00e3o 20 anos de Pesquisa Sobre Aborto do Brasil, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto atinge especialmente mulheres jovens, desempregadas ou em situa\u00e7\u00e3o informal, negras, com baixa escolaridade, solteiras e moradoras de \u00e1reas perif\u00e9ricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levantamento conduzido pela Defensoria P\u00fablica do Rio de Janeiro no ano passado, mostrava que ao menos 42 mulheres que fizeram aborto no estado, entre 2005 e 2017, foram processadas e respondiam a processo criminal. A maioria delas era negra, pobre, tinha entre 22 e 25 anos e j\u00e1 era m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 2006 e 2015, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade contabilizou 770 \u00f3bitos de mulheres por complica\u00e7\u00f5es ap\u00f3s procedimentos de aborto. De acordo com a pasta, o aborto \u00e9 a quarta causa de mortalidade materna no pa\u00eds. Especialistas acreditam que esses n\u00fameros sejam ainda maiores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o C\u00f3digo Penal, o aborto \u00e9 crime no Brasil, com pena de um a tr\u00eas anos, salvo em situa\u00e7\u00f5es em que h\u00e1 risco de vida para a mulher ou para o beb\u00ea, em casos de estupro e de anencefalia do feto. A partir desta sexta-feira (3), a quest\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto estar\u00e1 em debate durante audi\u00eancias p\u00fablicas no Supremo Tribunal Federal (STF).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Ag\u00eancia Brasil entrevistou duas mulheres de diferentes perfis que optaram pela interrup\u00e7\u00e3o de uma gravidez indesejada. Sob a promessa de anonimato, elas relataram \u00e0 reportagem suas hist\u00f3rias de vida e o motivo que as levaram a decidir pelo aborto. Medo, desconhecimento, falhas na educa\u00e7\u00e3o sexual, desespero e, muitas vezes, desamparo. As situa\u00e7\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es a que as duas mulheres foram submetidas s\u00e3o bem distintas. Em comum, apenas o entendimento da necessidade de uma pol\u00edtica integral de atendimento \u00e0 mulher que evite mortes desnecess\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Neste m\u00eas de agosto, est\u00e1 fazendo um ano que eu fiz esse procedimento. Eu tinha 31 anos, na \u00e9poca. Eu me relacionei com um rapaz que conheci atrav\u00e9s da internet. Eu j\u00e1 o conhecia, na verdade. Ele \u00e9 escritor e eu o seguia [nas redes sociais], era muito f\u00e3 dele.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram com essas palavras que Lara* iniciou seu relato sobre a decis\u00e3o de fazer um aborto. Quando concedeu a entrevista, ela estava a mais de 2 mil km de sua casa, localizada no interior de Alagoas, e cuidava, a pedido de um amigo, de uma mulher que havia acabado de interromper uma gravidez, em outra regi\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ela, foram os constantes pedidos por dinheiro emprestado, sob alega\u00e7\u00e3o de dificuldades financeiras, que provocaram nela o desencantamento que se instalou de forma definitiva. Os apelos n\u00e3o eram feitos exclusivamente a ela, que descobriu que o rapaz tinha o mesmo hist\u00f3rico com outras mulheres. &#8220;As circunst\u00e2ncias foram essas, decorrentes de um relacionamento que existiu para mim, em que eu me apaixonei, mas o cara s\u00f3 se aproximou para tirar coisas de mim. Quando eu entendi isso, eu fiquei deprimid\u00edssima e, logo depois, eu descobri a gravidez&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ela, um componente que contribuiu para que engravidasse foram as falhas em sua educa\u00e7\u00e3o sexual, comuns a muitas brasileiras. &#8220;Eu estudei em escola particular, no interior do Alagoas, onde as cabe\u00e7as s\u00e3o bem fechadas. A minha fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 religiosa, mas alguns temas, simplesmente, n\u00e3o eram tratados. Eu n\u00e3o fui educada para conhecer meu corpo, para frequentar m\u00e9dico&#8221;, disse. &#8220;Ent\u00e3o, com uns dois meses, eu tinha uns sangramentos que eu achava que eram menstrua\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o eram&#8221;, acrescentou, suspirando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decepcionada com um afeto que n\u00e3o encontrava reciprocidade, Lara procurou focar na solu\u00e7\u00e3o, da forma mais objetiva poss\u00edvel, j\u00e1 que n\u00e3o pretendia ter filhos de um homem com comportamentos que condenava. &#8220;Eu decidi no ato, imediatamente. S\u00f3 que eu n\u00e3o sabia como fazer. Sabe aquela coisa sobre a qual ningu\u00e9m fala, que ningu\u00e9m sabe onde conseguir, com quem falar? Fiquei totalmente desesperada&#8221;, declarou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Determinada, Lara encontrou no pr\u00f3prio c\u00edrculo social uma mulher que informou um local onde o aborto poderia ser feito. &#8220;Essa pessoa, uma grande amiga, me indicou tr\u00eas possibilidades: uma cl\u00ednica em Salvador, que seria a mais cara, a compra de medicamento pela internet, que chegaria no endere\u00e7o para fazer auto-aplica\u00e7\u00e3o, ou uma mo\u00e7a, na capital [Macei\u00f3], que fazia na casa dela&#8221;, contou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara conta que, primeiramente, comprou o medicamento pela internet, mas a caixa veio vazia. Desesperada, tentou ir a cl\u00ednica em Salvador, mas n\u00e3o tinha todo o dinheiro necess\u00e1rio. Foi ent\u00e3o que ela resolveu recorrer \u00e0 op\u00e7\u00e3o mais barata: uma mo\u00e7a que fazia abortos na pr\u00f3pria casa, em Macei\u00f3, e cobrava R$ 2 mil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela resolveu seguir no plano B sozinha, percorrendo, de carro, o caminho de sua cidade at\u00e9 Macei\u00f3. &#8220;Eu tinha muito, muito, muito medo. Eu sabia que eu ia \u00e0 casa de uma mulher, mas n\u00e3o sabia o que ela ia fazer comigo. Ent\u00e3o, a gente tem, primeiro, o medo de morrer. Segundo, o medo de n\u00e3o morrer e ir para um hospital e, de repente, ser presa ou ser submetida a algum tipo de viol\u00eancia e constrangimento.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela conta que tremia muito antes de chegar \u00e0 casa, localizada em um bairro bem humilde da capital alagoana. \u201cEra uma rua bem estreitinha, os vizinhos na porta e eu pensando comigo: &#8216;Todo mundo sabe o que eu vim fazer aqui.&#8217; Cheguei l\u00e1 e j\u00e1 comecei a chorar. Ela conversou muito comigo. Ela j\u00e1 era uma senhora. E, pronto, aplicou o rem\u00e9dio na parede do \u00fatero, me dando algumas unidades para colocar debaixo da l\u00edngua. A\u00ed, eu fui pra casa.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem o efeito esperado, Lara teve que retornar ao local, uma semana depois. &#8220;Da segunda vez, n\u00e3o fez efeito. Eu fiquei desesperada. Tentamos a terceira vez e eu com medo de tanto rem\u00e9dio no meu organismo, sem saber o que estava acontecendo, muito assustada. Na terceira vez, ela me deu uma dose maior para ingerir, duas horas depois, quando eu estivesse em casa.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir disso, Lara teve contra\u00e7\u00f5es que duraram nove horas e, hoje, define o sentimento associado \u00e0 experi\u00eancia como al\u00edvio. &#8220;Eu estava me sentindo duplamente lesada por esse cara. Eu tive um preju\u00edzo financeiro de mais de R$ 15 mil e um preju\u00edzo emocional que n\u00e3o tem pre\u00e7o&#8221;, declara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jasmin*, 68 anos, foi criada em bairros nobres do Rio de Janeiro. Casada pela primeira vez aos 18 anos, j\u00e1 gr\u00e1vida de seu primog\u00eanito, ela disse que suas escolhas estavam limitadas, por valores morais impostos pela fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o quis fazer aborto e minha solu\u00e7\u00e3o era ou ser m\u00e3e solteira, o que, para minha fam\u00edlia, era pesado demais admitir na \u00e9poca, ou o casamento. Como era um namorado, uma pessoa com quem tinha um relacionamento, o casamento foi uma consequ\u00eancia natural, e ele queria ter o filho tamb\u00e9m. Um ano e tr\u00eas meses depois, eu tive outro&#8221;, revelou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 22 anos, Jasmin recorreu a uma cl\u00ednica clandestina de aborto, para interromper a gesta\u00e7\u00e3o de seu terceiro filho. &#8220;Eu tive duas filhas. No meu segundo casamento, a rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava ruim e eu engravidei pela terceira vez. Nem meu marido, nem eu quer\u00edamos [ter a crian\u00e7a]. Eu achava que n\u00e3o tinha muito sentido ter [um beb\u00ea] quando tudo estava ruim&#8221;, contou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A op\u00e7\u00e3o foi fazer aborto num clima de seguran\u00e7a, num ambiente que atende \u00e0 elite. Agora, para mim, foi uma experi\u00eancia muito traum\u00e1tica. Eu me arrependi depois, mas \u00e9 uma quest\u00e3o de foro \u00edntimo.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ela, que foi acompanhada de uma amiga ao endere\u00e7o, tamb\u00e9m em um bairro nobre da cidade, pr\u00f3ximo \u00e0 sua resid\u00eancia, o procedimento era considerado normal entre as pessoas de sua faixa et\u00e1ria. &#8220;Foi um homem [quem fez o aborto]. Como era muito caro, ele me tratou muito bem&#8221;, destacou. &#8220;Quase todo mundo da minha gera\u00e7\u00e3o fez algum aborto.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a Pesquisa Nacional do Aborto, realizada em 2016 pela Anis Instituto de Bio\u00e9tica, uma em cada cinco mulheres j\u00e1 decidiram interromper uma gravidez n\u00e3o desejada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela reconhece que foi uma mulher privilegiada por conseguir se dirigir a uma cl\u00ednica que, al\u00e9m de preservar sua identidade, ofereceu um atendimento de qualidade. Jasmin defende que as pol\u00edticas de sa\u00fade da mulher no Brasil sejam aprimoradas, a fim de que esse p\u00fablico n\u00e3o fique t\u00e3o suscet\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Hoje em dia, [a mulher] acaba tendo que fazer um aborto em que s\u00e3o usados m\u00e9todos medievais. Muitas vezes, as meninas morrem e s\u00e3o muito maltratadas quando chegam l\u00e1 [ao hospital]&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>*O nome das entrevistadas \u00e9 fict\u00edcio<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Leia J\u00e1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre 2006 e 2015, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade contabilizou 770 \u00f3bitos de mulheres por complica\u00e7\u00f5es ap\u00f3s procedimentos de aborto. De acordo com a pasta, o aborto \u00e9 a quarta causa de mortalidade materna no pa\u00eds Em um pa\u00eds marcado por abismos socioecon\u00f4micos, uma quest\u00e3o pol\u00eamica de sa\u00fade p\u00fablica, como o aborto, acaba revelando privil\u00e9gios. 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