{"id":47876,"date":"2018-08-23T08:15:46","date_gmt":"2018-08-23T11:15:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=47876"},"modified":"2018-08-23T08:15:46","modified_gmt":"2018-08-23T11:15:46","slug":"criados-em-laboratorio-por-brasileiros-minicerebros-ajudam-a-entender-o-cerebro-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/criados-em-laboratorio-por-brasileiros-minicerebros-ajudam-a-entender-o-cerebro-humano\/","title":{"rendered":"Criados em laborat\u00f3rio por brasileiros, minic\u00e9rebros ajudam a entender o c\u00e9rebro humano"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Pequenos no tamanho, mas enormes em import\u00e2ncia, os organoides cerebrais servem de modelo para estudos do tecido deste \u00f3rg\u00e3o e o desenvolvimento de novas drogas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles s\u00e3o bem pequenos, com tamanho m\u00e9dio entre tr\u00eas e cinco mil\u00edmetros, mas representam um enorme avan\u00e7o para o estudo do c\u00e9rebro humano, suas doen\u00e7as e rea\u00e7\u00f5es a drogas e medicamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o os minic\u00e9rebros ou organoides, agregados tridimensionais de neur\u00f4nios criados em laborat\u00f3rio a partir de c\u00e9lulas epiteliais (da pele) reprogramadas. Eles reproduzem, em parte, as estruturas, tipos celulares e respostas fisiol\u00f3gicas encontradas no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo L\u00edvia Goto, p\u00f3s-doutoranda do Instituto D&#8217;Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), da equipe do laborat\u00f3rio Stevens Rehen, pioneiro no desenvolvimento de minic\u00e9rebros no Brasil, esses organoides apresentam algumas caracter\u00edsticas semelhantes \u00e0s observadas no c\u00e9rebro humano em forma\u00e7\u00e3o, principalmente no que diz respeito \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o das camadas primordiais e aos tipos celulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nesse sentido, s\u00e3o bons modelos para estudar alguns dos processos fisiol\u00f3gicos, bioqu\u00edmicos e metab\u00f3licos observados no tecido cerebral&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nOs minic\u00e9rebros s\u00e3o feitos a partir de c\u00e9lulas da pele ou da urina de um volunt\u00e1rio, induzidas em laborat\u00f3rio a voltarem ao est\u00e1gio de c\u00e9lulas-tronco, com potencial de se transformarem em qualquer tecido do corpo humano \u2013 s\u00e3o, por isso, chamadas c\u00e9lulas-tronco de pluripot\u00eancia induzida (iPS). Em seguida, em um l\u00edquido com nutrientes semelhantes aos do ambiente de desenvolvimento do embri\u00e3o humano, s\u00e3o transformadas em neur\u00f4nios e outras c\u00e9lulas do sistema nervoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rehen, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do IDOR, explica que j\u00e1 existem no mundo organoides de intestino, rins, test\u00edculos, p\u00e2ncreas, pulm\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o utilizados atualmente em pesquisas biom\u00e9dicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Dentre todos os desenvolvidos, entretanto, talvez aqueles que agu\u00e7am mais a curiosidade sejam os cerebrais&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nEle ressalva, no entanto, que eles est\u00e3o longe de ser um c\u00e9rebro, porque, entre outros motivos, n\u00e3o t\u00eam \u2013 pelo menos, por enquanto \u2013 consci\u00eancia, nem pensamentos nem mem\u00f3ria. Al\u00e9m disso, t\u00eam apenas cinco milh\u00f5es de neur\u00f4nios ante os 86 bilh\u00f5es do ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Rehen, apesar das limita\u00e7\u00f5es, os minic\u00e9rebros s\u00e3o um bom modelo para estudo de tecido humano vivo. &#8220;Com eles \u00e9 poss\u00edvel fazer uma s\u00e9rie de descobertas sobre altera\u00e7\u00f5es celulares e moleculares do tecido cerebral exposto, por exemplo, a agentes causadores de doen\u00e7as&#8221;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas n\u00e3o s\u00f3 isso. Os organoides cerebrais tamb\u00e9m servem para entendermos quais s\u00e3o as respostas dos neur\u00f4nios a medicamentos ou a subst\u00e2ncias que podem vir a se tornar um novo rem\u00e9dio, como \u00e9 o caso dos psicod\u00e9licos.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>Estudos com minic\u00e9rebros geraram resultados concretos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nIsso n\u00e3o \u00e9 apenas teoria. Rehen j\u00e1 tem resultados concretos nessas \u00e1reas. Num trabalho realizado em 2016 no IDOR, em parceria com a UFRJ e a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), ele e sua equipe identificaram a rela\u00e7\u00e3o entre o v\u00edrus da zika e microcefalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em laborat\u00f3rio, infectamos organoides cerebrais com o v\u00edrus e observamos que ele matava, em uma semana, as c\u00e9lulas neurais, comprometendo o correto desenvolvimento do c\u00e9rebro&#8221;, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com ele, esse flaviv\u00edrus, origin\u00e1rio da \u00c1frica, causa les\u00f5es no DNA, o que faz com que as c\u00e9lulas parem de se multiplicar e morram, comprometendo a forma\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os organoides foram \u00fateis ainda para a identifica\u00e7\u00e3o de dois medicamentos que poder\u00e3o ser eventualmente utilizados por mulheres gr\u00e1vidas, em caso de nova epidemia. O trabalho foi publicado na prestigiosa revista &#8220;Science&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nO grupo de Rehen tamb\u00e9m vem estudando o efeito de subst\u00e2ncias psicod\u00e9licas &#8211; com potencial de dar origem a novos medicamentos no futuro &#8211; sobre neur\u00f4nios humanos. Apesar de algumas delas serem consumidas h\u00e1 muito tempo, pouco se sabe sobre seus eventuais efeitos terap\u00eauticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo pesquisado por Rehen \u00e9 a dimetiltriptamina, presente, em duas formas distintas, no sapo Bufo alvarius e a ayahuasca, ch\u00e1 que altera a consci\u00eancia, tamb\u00e9m conhecida como daime ou santo-daime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quase mil prote\u00ednas foram alteradas, a maior parte associada \u00e0 neuroplasticidade, redu\u00e7\u00e3o de inflama\u00e7\u00e3o e de neurodegenera\u00e7\u00e3o&#8221;, conta. &#8220;O estudo demonstra o potencial cl\u00ednico pouco explorado dos psicod\u00e9licos na medicina.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<strong>Pouco conhecidos do p\u00fablico, organoides tem uma hist\u00f3ria antiga na ci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nApesar de serem ainda pouco conhecidos do p\u00fablico em geral, os organoides t\u00eam uma hist\u00f3ria mais antiga do que se poderia imaginar. &#8220;As culturas tridimensionais de tecido nervoso t\u00eam sido estudadas desde a d\u00e9cada de 1950, passando por diversos aprimoramentos a partir de c\u00e9lulas animais&#8221;, diz L\u00edvia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No Brasil, Fernando Mello e Rafael Linden foram pioneiros na cria\u00e7\u00e3o de modelos tridimensionais da retina (que \u00e9 parte do c\u00e9rebro).&#8221;<br \/>\nRehen, por sua vez, lembra que, em 2008, o japon\u00eas Yoshiki Sasai criou em seu pa\u00eds os primeiros organoides que lembravam olhos ou partes do c\u00e9rebro. &#8220;O hiato em virtude de sua morte prematura (suicidou-se ao ver seu nome associado a uma fraude cient\u00edfica) foi preenchido em 2013&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na \u00c1ustria, Madeline Lancaster e Juergen Knoblich foram pioneiros ao produzir minic\u00e9rebros humanos mantidos em suspens\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele pr\u00f3prio come\u00e7ou a estudar a forma\u00e7\u00e3o da retina a partir de estruturas tridimensionais na d\u00e9cada de 1990. Nos anos 2000, nos Estados Unidos, Rehen desenvolveu modelos tridimensionais para o estudo do c\u00e9rebro de camundongos, que ajudaram na descoberta de fatores capazes de influenciar a gera\u00e7\u00e3o dos giros e sulcos (dobramentos) do c\u00e9rebro. A partir de 2014, j\u00e1 de volta ao Brasil, adaptou a receita de Lancaster para criar os primeiros minic\u00e9rebros no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com ele, &#8220;esse avatar biol\u00f3gico vivo&#8221; tem facilitado bastante as pesquisas sobre a neurog\u00eanese normal e associada a enfermidades. &#8220;C\u00e9lulas-tronco de pacientes com doen\u00e7as neurodegenerativas ou transtornos mentais podem ser usadas para criar minic\u00e9rebros, que crescem por meses em laborat\u00f3rio, para estud\u00e1-las e melhor entend\u00ea-las&#8221;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje j\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios resultados concretos mundo afora. Rehen conta que nos Estados Unidos, por exemplo, utilizando organoides cerebrais, Flora Vaccarino revelou um desbalan\u00e7o neuroqu\u00edmico associado ao autismo e &#8220;Kristen Brennand descobriu altera\u00e7\u00f5es num receptor celular que facilitar\u00e1 a identifica\u00e7\u00e3o de medicamentos para a esquizofrenia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, Fred Gage transplantou minic\u00e9rebros para o interior do sistema nervoso de roedores. &#8220;O objetivo era fazer com que vasos sangu\u00edneos do animal nutrissem o tecido humano&#8221;, explica Rehen. &#8220;Ele observou que houve troca de informa\u00e7\u00e3o entre organoide e c\u00e9rebro.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele explica que os minic\u00e9rebros n\u00e3o se desenvolvem da mesma forma que o nosso \u00f3rg\u00e3o maior. E tampouco possuem consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel mant\u00ea-los vivos por mais de nove meses, per\u00edodo que coincide com o tempo de uma gesta\u00e7\u00e3o humana&#8221;, diz. &#8220;Paola Arlotta, de Harvard, por exemplo, gerou organoides cerebrais sens\u00edveis a luz, algo que poder\u00e1 &#8211; no futuro &#8211; permitir a comunica\u00e7\u00e3o entre eles e os cientistas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pequenos no tamanho, mas enormes em import\u00e2ncia, os organoides cerebrais servem de modelo para estudos do tecido deste \u00f3rg\u00e3o e o desenvolvimento de novas drogas. 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