{"id":48182,"date":"2018-09-03T09:05:22","date_gmt":"2018-09-03T12:05:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=48182"},"modified":"2018-09-03T10:11:51","modified_gmt":"2018-09-03T13:11:51","slug":"gripe-espanhola-100-anos-da-epidemia-mais-letal-da-historia-recente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/gripe-espanhola-100-anos-da-epidemia-mais-letal-da-historia-recente\/","title":{"rendered":"Gripe espanhola: 100 anos da epidemia mais letal da hist\u00f3ria recente"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Doen\u00e7a, que recebeu esse nome em fun\u00e7\u00e3o da guerra, matou mais de 50 milh\u00f5es de pessoas no mundo e chegou ao Recife em setembro de 1918.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 100 anos, o Recife parou. As escolas cancelaram as aulas. Os clubes derrubaram a agenda de programa\u00e7\u00f5es. As igrejas suspenderam as missas. Nas ruas, n\u00e3o se via quase ningu\u00e9m. Quem n\u00e3o estava agonizando em casa ou chorando as perdas repentinas, estava com medo. O mundo se abateu diante da pandemia mais letal de que se tem conhecimento na hist\u00f3ria recente: a gripe espanhola, respons\u00e1vel por contaminar um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o do planeta e matar 5% dela. Capaz de provocar mais mortes do que as que aconteceram em combate nas duas grandes guerras mundiais. Em um s\u00e9culo, essa hist\u00f3ria provocou avan\u00e7os na medicina, mas muitas li\u00e7\u00f5es n\u00e3o aprendidas ficaram pelo meio do caminho e podem ser determinantes para a gravidade de novos epis\u00f3dios como esse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim de agosto de 1918, os primeiros casos de gripe espanhola come\u00e7aram a ser reportados no mundo. As pessoas apresentavam dores de cabe\u00e7a, febre, calafrios, vomitavam sangue, tinham perturba\u00e7\u00f5es nos nervos card\u00edacos, infec\u00e7\u00f5es no intestino, nos pulm\u00f5es e nas meninges. Primeiro foram Estados Unidos e Europa, em seguida a doen\u00e7a se alastrou para a \u00c1sia e as Am\u00e9ricas. Em setembro daquele ano, chegou ao Brasil com navios que aportavam em cidades portu\u00e1rias como Salvador e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Recife, a doen\u00e7a teria desembarcado com dois passageiros acometidos que estavam no vapor Piauhy no dia 24 de setembro, segundo not\u00edcia publicada no Pequeno Jornal e recontada na disserta\u00e7\u00e3o \u201cRecife, uma cidade doente: a gripe espanhola no espa\u00e7o urbano recifense\u201d, do historiador Alexandre Caetano Silva. \u201cEm outubro, aconteceu o apogeu da gripe. A cidade parou, as pessoas n\u00e3o podiam sequer acompanhar os enterros dos parentes. Naquele m\u00eas, chegaram a morrer 100 pessoas por dia na cidade. H\u00e1 relatos de que, \u00e0 noite, os \u00fanicos sons ouvidos eram de tosse e do martelar dos caix\u00f5es\u201d, conta o pesquisador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um m\u00eas, a gripe provocou 1,8 mil mortes que se t\u00eam conhecimento, 70% da mortalidade da cidade naquele m\u00eas. Estima-se, entretanto, que tenham sido pelo menos o dobro de v\u00edtimas. Cerca de 120 mil doentes, numa capital que tinha 220 mil pessoas. A gripe espanhola foi provocada pelo v\u00edrus da influenza H1N1, que se tornou famoso sobretudo depois da pandemia de 2009. E porque ele deixou esse rastro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 que o v\u00edrus da gripe tem uma capacidade alt\u00edssima de recombina\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o para burlar o sistema imune, explica o pesquisador do Centro de Pesquisas Aggeu Magalh\u00e3es (CpqAM\/Fiocruz) Lindomar Pena. Segundo ele, o \u201csegredo\u201d est\u00e1 no significado da sigla que nomeia o agente infeccioso. \u201cO v\u00edrus da influenza tem v\u00e1rios tipos, A at\u00e9 D. O mais importante para os humanos, causador de todas as pandemias, \u00e9 o A. Al\u00e9m disso, tem um genoma de oito segmentos e duas prote\u00ednas principais em sua \u2018casca\u2019: a neuroaminidase (N) e a hemaglutinina (H). O N tem 11 subtipos e o H 18 subtipos, que podem se recombinar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 2005, pouco se sabia, entretanto, mais detalhes que pudessem ter explicado tantas mortes. Parte das respostas vieram depois que o corpo de uma v\u00edtima foi recuperado no Alaska e o v\u00edrus foi \u201cressuscitado\u201d em laborat\u00f3rio. \u201cDescobriu-se que ele, por si s\u00f3, \u00e9 extremamente letal. Tem uma capacidade de infectar c\u00e9lulas de maneira eficiente e se espalhar pelo corpo\u201d, explica Lindomar Pena. Isso, associado ao fato de que naquela \u00e9poca n\u00e3o existiam antibi\u00f3tico, esquema de notifica\u00e7\u00e3o ou vacina, muito menos hospitais suficientes para receber todos os doentes, contaram na soma da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo jeito que veio, a epidemia se foi e no fim de outubro de 1918 a vida cotidiana come\u00e7ou a se reorganizar nas cidades. No Recife, o epis\u00f3dio fomentou a consci\u00eancia de car\u00e1ter social para a atua\u00e7\u00e3o do estado nas pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade. Depois dela, vieram outras tr\u00eas pandemias mundias de gripe, sem a mesma gravidade. Entre os especialistas, \u00e9 unanimidade que uma pr\u00f3xima vir\u00e1, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prever quando. A d\u00favida \u00e9: a sociedade est\u00e1 mais preparada e alerta?<\/p>\n<p><strong>V\u00edrus da gripe n\u00e3o deve ser subestimado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img src=\"http:\/\/imgsapp.diariodepernambuco.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2018\/09\/01\/761632\/20180831221306959492a.JPG\" alt=\"Lindomar Pena e Adal\u00c3\u00bacia Silva pesquisam atualmente v\u00c3\u00adrus da influenza em su\u00c3\u00adnos em Pernambuco. Cr\u00c3\u00a9dito: Thalyta Tavares\/DP (Cr\u00c3\u00a9dito: Thalyta Tavares\/DP)\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela m\u00e1xima de \u201c\u00e9 s\u00f3 uma gripe\u201d deveria ser revista, dizem os especialistas. A influenza \u00e9, historicamente, subestimada de maneira err\u00f4nea pela popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o bastasse o fato de ser muito adapt\u00e1vel, o v\u00edrus tem como hospedeiros \u2013 o que os mant\u00e9m na natureza \u2013 as aves aqu\u00e1ticas. Nela, ocorrem muta\u00e7\u00f5es que podem chegar a aves terrestres, su\u00ednos, humanos, mam\u00edferos voadores, equinos e caninos. N\u00e3o se pode erradic\u00e1-lo, apenas control\u00e1-lo e trat\u00e1-lo. Por isso, dentro desse contexto, a vacina tem import\u00e2ncia como fator de preven\u00e7\u00e3o e, sobretudo, para evitar que os casos se agravem e levem \u00e0 morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO v\u00edrus pand\u00eamico de 2009, por exemplo, tinha genes de aves, de humanos e de su\u00ednos, algo que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tinha acontecido\u201d, explica Lindomar Pena. O v\u00edrus de 2009, inclusive, \u00e9 como se fosse um \u201cprimo distante\u201d do v\u00edrus de 1918. A \u00faltima epidemia, diante desse car\u00e1ter imprevis\u00edvel, provocou uma mudan\u00e7a na forma de monitoramento da gripe. \u201cEm 2012, percebeu-se que era importante n\u00e3o s\u00f3 monitorar a H1N1, mas os outros tipos. Ampliou-se a defini\u00e7\u00e3o de caso e a notifica\u00e7\u00e3o ficou mais sens\u00edvel\u201d, explica a gerente de Preven\u00e7\u00e3o e Controle das Doen\u00e7as Imunopreven\u00edveis da SES-PE, Ana Antunes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2009, por exemplo, Pernambuco teve 200 casos de H1N1, com nove mortes. Atualmente, a vigil\u00e2ncia da gripe \u00e9 feita a partir da notifica\u00e7\u00e3o de casos de S\u00edndrome Respirat\u00f3ria Aguda Grave (SRGA). Isso significa que os casos mais graves, de internamento, que apresentem sintomas de infec\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria, s\u00e3o notificados em todos os hospitais. Desses, se investiga se \u00e9 gripe ou n\u00e3o. Em Pernambuco, h\u00e1 tamb\u00e9m quatro hospitais sentinelas para monitorar os casos leves. Al\u00e9m do monitoramento feito em UTIs sentinelas. Os dados que saem desse monitoramento anual servem para gerar informa\u00e7\u00f5es de quais os tipos de v\u00edrus da gripe que est\u00e3o circulando no ano vigente e ajudam a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) a estimar quais circular\u00e3o no ano seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para a produ\u00e7\u00e3o da vacina. \u201cUm tipo circula mais ou menos dois anos. At\u00e9 2009, s\u00f3 se vacinavam os idosos. Isso tamb\u00e9m mudou e foram inclu\u00eddos outros grupos de risco, como imunossuprimidos, gestantes, crian\u00e7as, profissionais de sa\u00fade\u201d, lembra Ana Antunes. Tanto ela como Lindomar ressaltam que a vacina \u00e9 segura, a despeito dos boatos. Neste ano, foram vacinadas 2,4 milh\u00f5es de pessoas no estado. Pernambuco tem 98 casos de A(H1N1) confirmados, com 15 \u00f3bitos. \u201cNeste ano, temos dois tipos de v\u00edrus, H1N1 e H3N2, circulando simultaneamente, o que pode influenciar para termos mais casos e \u00f3bitos do que no ano anterior. Tamb\u00e9m temos uma curva de S\u00edndrome Respirat\u00f3ria maior. Em setembro, teremos uma reuni\u00e3o nacional com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e vamos analisar esse quadro\u201d, disse Ana Antunes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis s\u00e3o principais acometidas em situa\u00e7\u00e3o epid\u00eamica at\u00e9 hoje<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img src=\"http:\/\/imgsapp.diariodepernambuco.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2018\/09\/01\/761632\/20180831221354420353o.jpg\" alt=\"Severina Silva, 59 anos, sofre at\u00c3\u00a9 hoje com dores provocadas pela chikungunya. Cr\u00c3\u00a9dito: Leo Malafaia\/Esp. DP (Cr\u00c3\u00a9dito: Leo Malafaia\/Esp. DP)\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca em que a gripe espanhola chegou ao Recife, a cidade vivia um momento de transforma\u00e7\u00e3o urbana. Influenciada pelas reformas urbanas dos pa\u00edses europeus, a capital pernambucana fazia desaparecer do seu centro hist\u00f3ricos locais como a praia do Brum e a pra\u00e7a Santos Dumont para dar lugar a largas avenidas. Tamb\u00e9m nesse per\u00edodo, o munic\u00edpio recebia uma massa formada por ex-trabalhadores da agricultura de exporta\u00e7\u00e3o e ex-escravos. Quando a pandemia chegou, veio \u00e0 tona o debate sobre a influ\u00eancia da baixa qualidade de moradia e de saneamento na dissemina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEm nome do progresso, foram iniciadas reformas no Rio de Janeiro que basearam as mudan\u00e7as no Bairro do Recife com a desculpa da moderniza\u00e7\u00e3o. A partir de 1911, houve a destrui\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis indiferentes \u00e0s demandas judiciais\u201d, diz o professor de hist\u00f3ria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Carlos Miranda. As camadas mais carentes da sociedade foram as mais afetadas pela pandemia de gripe espanhola no Recife. Era pessoas que viviam em locais insalubres, com compartimentos mal divididos sem luz e ilumina\u00e7\u00e3o, diz Alexandre Caetano, em sua pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vieram \u00e0 tona nos jornais de oposi\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, como A Prov\u00edncia, den\u00fancias sobre os canais sujos da cidade, a prolifera\u00e7\u00e3o de mosquitos, em detrimento do cuidado de limpeza com as ruas e avenidas centrais. Um s\u00e9culo depois, o Recife ainda n\u00e3o deu conta dessa mudan\u00e7a e esses problemas ainda permanecem determinantes na forma como se espalham as doen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando foram implantados os primeiros sistemas de \u00e1gua e esgoto no Brasil, as primeiras \u00e1reas atendidas foram os centros comerciais das cidades e as de popula\u00e7\u00e3o mais rica. O contexto brasileiro de iniquidade social, para al\u00e9m de suas caracter\u00edsticas naturais de temperatura e umidade, determina socialmente a vulnerabilidade das popula\u00e7\u00f5es mais pobres \u00e0s emerg\u00eancias ou reemerg\u00eancias, e mesmo ao conv\u00edvio, com a endemiza\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as\u201d, explica o pesquisador Andr\u00e9 Monteiro, engenheiro sanitarista da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (Abrasco) e pequisador do Aggeu Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo disso foram as recentes epidemias de zika e chikungunya, lembra o pesquisador, cuja popula\u00e7\u00e3o mais atingida foi a que vive em \u00e1reas de morro e sem condi\u00e7\u00f5es de saneamento. A dom\u00e9stica Severina Silva, 54 anos, sofre at\u00e9 hoje com as dores da chikungunya. \u201cEu tive, minha filha tamb\u00e9m. Passei um m\u00eas de cama e meu joelho ainda d\u00f3i. Por aqui, pouca coisa mudou. Quando chove, ainda alaga tudo, tem muito mosquito\u201d, conta ela, que \u00e9 moradora do bairro do Pilar, um dos que estavam sempre no topo do ranking de notifica\u00e7\u00f5es entre 2015 e 2016, quando houve a epidemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00edndice de cobertura de esgotamento sanit\u00e1rio no Recife \u00e9 de 45%, diz a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa). Hoje, a cidade \u00e9 uma das 15 inclu\u00eddas no programa Cidade Saneada, uma parceria p\u00fablico-privada que pretende ampliar essa cobertura em 90% em 19 anos. O projeto j\u00e1 recuperou 150 unidades operacionais existentes. Bairros como Ipsep e Imbiribeira receberam o sistema. Est\u00e3o em andamento obras nos Torr\u00f5es. As pr\u00f3ximas \u00e1reas contempladas ser\u00e3o Cordeiro, Arruda, Boa Viagem e Set\u00fabal. Com a finaliza\u00e7\u00e3o dessas obras, a cobertura ser\u00e1 ampliada para 55%. Nos pr\u00f3ximos 10 anos, a meta \u00e9 ampliar para 85%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Diario de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Doen\u00e7a, que recebeu esse nome em fun\u00e7\u00e3o da guerra, matou mais de 50 milh\u00f5es de pessoas no mundo e chegou ao Recife em setembro de 1918. H\u00e1 100 anos, o Recife parou. As escolas cancelaram as aulas. Os clubes derrubaram a agenda de programa\u00e7\u00f5es. As igrejas suspenderam as missas. 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