{"id":48894,"date":"2018-10-03T08:31:14","date_gmt":"2018-10-03T11:31:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=48894"},"modified":"2018-10-03T08:31:14","modified_gmt":"2018-10-03T11:31:14","slug":"morte-e-vida-os-relatos-de-profissionais-que-lidam-diariamente-com-perdas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/morte-e-vida-os-relatos-de-profissionais-que-lidam-diariamente-com-perdas\/","title":{"rendered":"Morte e vida: os relatos de profissionais que lidam diariamente com perdas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Evento em S\u00e3o Paulo reuniu m\u00e9dicos, psic\u00f3logos e mais profissionais que cuidam de pessoas no fim da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma sala de uma rua calma no bairro de Pinheiros, Zona Oeste de S\u00e3o Paulo, um grupo se re\u00fane para falar de morte, dor e alegria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encontro faz parte do evento \u201cInspira\u00e7\u00f5es sobre vida e morte\u201d, que durante uma semana ofereceu programa\u00e7\u00f5es diversas voltadas para uma discuss\u00e3o indigesta para o brasileiro: falar sobre a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sala, o americano Roy Remer \u00e9 quem conduz o dia de aprendizados. Diante dele um grupo heterog\u00eaneo: psic\u00f3logos, m\u00e9dicos intensivistas, uma m\u00e9dica veterin\u00e1ria, assistentes sociais, dona de cemit\u00e9rio, capel\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Remer \u00e9 diretor do Zen Hospice em S\u00e3o Francisco, uma institui\u00e7\u00e3o pioneira em cuidados paliativos. Ele e sua equipe treinam volunt\u00e1rios para cuidar de pessoas no fim da vida: &#8220;Nossos volunt\u00e1rios s\u00e3o lembrados em nosso treinamento que morrer \u00e9 uma experi\u00eancia espiritual. Independentemente do contexto religioso ou espiritual de algu\u00e9m, morrer \u00e9 tanto sobre esp\u00edrito quanto sobre o corpo. Nossos volunt\u00e1rios foram treinados para manter a experi\u00eancia sem julgamentos&#8221;, disse em entrevista ao G1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas na aula desta ter\u00e7a-feira (25) a aten\u00e7\u00e3o dele n\u00e3o est\u00e1 voltada para os pacientes, mas para os diferentes cuidadores, que lidam com perdas diariamente. Afinal, quem cuida de quem cuida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu sou oncologista e perdi um paciente recentemente. Foi uma perda muito dif\u00edcil e passarei por isso de novo. Preciso aprender a cuidar de mim\u201d, diz emocionada uma das m\u00e9dicas na sala. Ela abre a \u201cporteira\u201d para as apresenta\u00e7\u00f5es ficarem mais emocionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois dela, outra m\u00e9dica revela que perdeu o pai. \u201cSobrou\u201d para ela, a m\u00e9dica da fam\u00edlia, boa parte do peso da morte dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFiquei feliz de poder cuidar dele, mas teve muita coisa dif\u00edcil de enfrentar. E ao mesmo tempo eu tinha os meus pacientes tamb\u00e9m\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre elas senta a \u00fanica m\u00e9dica veterin\u00e1ria do grupo. \u201cEu cuido da interna\u00e7\u00e3o dos animais e acredito que, assim como na medicina, estamos aqu\u00e9m nos cuidados paliativos de animais. O que eu posso fazer, al\u00e9m de buscar uma cura que n\u00e3o vir\u00e1, para melhorar o fim da vida daquele bichinho?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nE as apresenta\u00e7\u00f5es continuam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu sou assistente social de um asilo. Lido com diversos tipos de luto todos os dias. O luto antecipado de quem precisa colocar um familiar na institui\u00e7\u00e3o, o luto dos funcion\u00e1rios quando perdemos algu\u00e9m, o luto dos outros moradores e o meu luto&#8221;, diz uma das presentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu convivo com eles por muito tempo e quando eles morrem, para alguns \u00e9 uma vaga que abre, para mim, \u00e9 uma perda que n\u00e3o consigo chorar\u201d, continua.<br \/>\nA dona de um cemit\u00e9rio veio de outro estado em busca de ajuda: \u201cEstou aqui pelos meus funcion\u00e1rios. Quero ensin\u00e1-los a se cuidarem. Eles lidam com morte 24 horas por dia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O luto de quem cuida e vive a morte t\u00e3o de perto \u00e9 com frequ\u00eancia \u201catropelado\u201d pelo dia a dia. Amanh\u00e3 outros morrer\u00e3o. Vida que segue? Sim e n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem lida diariamente com a morte \u00e9 importante aprender a entender seus pr\u00f3prios sentimentos em rela\u00e7\u00e3o a ela, para que os relacionamentos n\u00e3o sejam frios, desumanizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVoc\u00eas fazem um trabalho muito importante e queremos que hoje cuidem de voc\u00eas tamb\u00e9m. Hoje \u00e9 sobre aprender a cuidar de voc\u00eas para poderem cuidar dos outros\u201d, explica Remer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Remer fala tamb\u00e9m da import\u00e2ncia do luto de quem faz este tipo de trabalho. Para ele, se os cuidadores aprenderem pr\u00e1ticas para se tornarem mais resilientes, ent\u00e3o, na verdade, o atendimento a pessoas que est\u00e3o morrendo ou que vivem com doen\u00e7as cr\u00f4nicas fica melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel deixar que o luto n\u00e3o seja processado. N\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel para os cuidadores, pacientes ou a sociedade em geral. Ser humano significa que vamos lamentar uma grande variedade de perdas que experimentamos ao longo da vida. Muitos de n\u00f3s reprimem a dor. Mais cedo ou mais tarde, a repress\u00e3o do luto se manifesta como problemas de sa\u00fade ou comportamentos in\u00e1beis. Todos n\u00f3s precisamos ser melhores em apoiar amigos, familiares, colegas e at\u00e9 estranhos para lidar com o sofrimento deles. Esse tipo de apoio \u00e9 compaix\u00e3o; \u00e9 humano&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n\u201cEu esperei a vida toda por este momento. Por sentir que eu perten\u00e7o a algo como estou sentindo agora\u201d, desabafa uma das participantes. Ela explica que at\u00e9 mesmo no meio m\u00e9dico e acad\u00eamico falar de morte e cuidados paliativos n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Com frequ\u00eancia se sente sozinha na jornada de ajudar quem est\u00e1 partindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota-se que a conex\u00e3o entre os presentes fica um pouco mais forte depois que ela fala. Alguns se emocionam. Um claro sinal do peso que a morte tem at\u00e9 para a quem a v\u00ea de perto com frequ\u00eancia e, de certa forma, a aceita mais que outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Remer explica: &#8220;Cuidadores t\u00eam poucas oportunidades de compartilhar suas experi\u00eancias e isso \u00e9 cr\u00edtico&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nMas chama aten\u00e7\u00e3o a total disposi\u00e7\u00e3o e \u2013 por que n\u00e3o?- alegria com que estas pessoas falam de suas ocupa\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m fala apenas em sofrimento, todos relatam a satisfa\u00e7\u00e3o por ser presente para algu\u00e9m que precisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSou apaixonada pelo que fa\u00e7o\u201d, resume uma. \u201cMe sinto bem de poder estar ao lado do leito de uma pessoa que precisa\u201d, acrescenta outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para estas pessoas, lidar com a morte \u00e9 essencialmente aprender tamb\u00e9m sobre a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>*Por se tratar de um evento fechado, as identidades dos participantes foram preservadas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Evento em S\u00e3o Paulo reuniu m\u00e9dicos, psic\u00f3logos e mais profissionais que cuidam de pessoas no fim da vida. 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