{"id":50125,"date":"2018-12-03T08:53:44","date_gmt":"2018-12-03T11:53:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=50125"},"modified":"2018-12-03T08:53:44","modified_gmt":"2018-12-03T11:53:44","slug":"quando-se-e-jovem-a-pior-parte-e-reconstruir-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/quando-se-e-jovem-a-pior-parte-e-reconstruir-a-vida\/","title":{"rendered":"&#8216;Quando se \u00e9 jovem, a pior parte \u00e9 reconstruir a vida&#8217;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A maior concentra\u00e7\u00e3o dos casos de Aids no Brasil foi observada nos indiv\u00edduos com idade de 25 a 39 anos, em ambos os sexos, aponta Boletim Epidemiol\u00f3gico<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De 2007 at\u00e9 junho de 2018, foram notificados no Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o (Sinan) 247.795 casos de infec\u00e7\u00e3o pelo HIV no Brasil. Nesse per\u00edodo, o levantamento aponta um total de 169.932 (68,6%) diagn\u00f3sticos em homens e 77.812 (31,4%) em mulheres. Embora qualquer um possa ser infectado pelo HIV, est\u00e3o mais vulner\u00e1veis homens que fazem sexo com homens, mulheres trans, trabalhadores sexuais, jovens, pessoas que usam \u00e1lcool e outras drogas e pessoas privadas de liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2013, quando tinha 33 anos, o estudante Mauro Santos*, que nesta reportagem ganhou nome fict\u00edcio, foi diagnosticado com o v\u00edrus em um dos exames rotineiros que fazia anualmente. Ele n\u00e3o preferiu se estender ao contar o contexto em que foi infectado, mas relembra que estava em um relacionamento s\u00e9rio com outro homem e que teria se tornado soropositivo atrav\u00e9s dele, por um descuido no preservativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mauro reconhece que estava em um grupo de risco, apesar da viv\u00eancia em movimento social desde o ano de 2002, atuando na preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis, alertando sobre os perigos da Aids em escolas e ambientes de aprendizado. \u201cEu n\u00e3o era um completo ignorante. Eu sabia de tudo e aceitei o risco quando me expus ao meu companheiro na \u00e9poca\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ao receber a not\u00edcia, a sensa\u00e7\u00e3o foi de desespero porque \u00e9 algo que todo mundo est\u00e1 sujeito, mas ningu\u00e9m quer para si. Eu procurei me recompor porque sabia da import\u00e2ncia do meu psicol\u00f3gico para tocar a minha vida e foi o que eu fiz&#8221;, relembra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mauro convive com o HIV h\u00e1 cinco anos e confessa j\u00e1 ter passado por altos e baixos. Ele iniciou seu tratamento no Hospital Correia Pican\u00e7o, em 2014, para tomar a medica\u00e7\u00e3o e lhe foi informado que o melhor hor\u00e1rio para se medicar seria \u00e0 noite por causa dos efeitos colaterais. \u201cA tontura \u00e9 angustiante e mistura com a depress\u00e3o, causa um desespero. Tive que fazer de tudo para que a minha m\u00e3e n\u00e3o percebesse. Em uma das minhas primeiras quedas, eu me sentia acabado, passei o dia mal. Era o in\u00edcio de tudo, estava me acostumando\u201d, relata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudante decidiu que n\u00e3o contaria a fam\u00edlia sobre sua sa\u00fade porque tinha medo da rea\u00e7\u00e3o deles e preferiu viver em sil\u00eancio sobre esse assunto. \u201cAt\u00e9 hoje a minha fam\u00edlia n\u00e3o sabe, e eu prefiro que seja assim porque \u00e9 outra cultura, minha m\u00e3e j\u00e1 \u00e9 mais velha e tenho receio dela n\u00e3o aceitar. S\u00f3 quem sabe s\u00e3o poucos amigos porque precisei desabafar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconstruir a vida na condi\u00e7\u00e3o de soropositivo \u00e9 uma batalha di\u00e1ria porque a sociedade ainda \u00e9 muito reativa quando se fala em Aids. E Mauro sentiu isso na pele. No \u00faltimo relacionamento que se envolveu, ap\u00f3s duas semanas conhecendo melhor a outra pessoa, precisou revelar a sua condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade porque a preocupa\u00e7\u00e3o com o outro \u00e9 fundamental para acabar com o HIV de uma vez. \u201cEstava com esse homem e quando contei, o resultado n\u00e3o me surpreendeu. Ele preferiu se afastar e seguimos em frente no caminho oposto\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas pessoas ainda acham que a doen\u00e7a pode ser transmitida pelo ar, no beijo, ou em um simples abra\u00e7o. Mas longe dos gestos afetuosos transmitirem algo de ruim. \u201cO preconceito \u00e9 algo que eu j\u00e1 sentia por ser gay, mas agora \u00e9 duplo porque quando algu\u00e9m fala algo negativo de um soropositivo, eu ou\u00e7o e me sinto ofendido, mas nem sempre posso falar algo\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tratamento contra o HIV dispon\u00edvel atualmente no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) \u00e9 um coquetel de tr\u00eas medicamentos respons\u00e1veis por inibir o m\u00e1ximo poss\u00edvel a reprodu\u00e7\u00e3o do v\u00edrus no corpo, enquanto mant\u00e9m o sistema imunol\u00f3gico atuante e protege contra infec\u00e7\u00f5es oportunistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mauro relata que sabe dos riscos de ficar sem a medica\u00e7\u00e3o e condena o sistema de sa\u00fade de Pernambuco porque em 2018 foram no m\u00ednimo duas semanas com a medica\u00e7\u00e3o em falta. \u201cA minha sorte foi que eu nunca deixo meus rem\u00e9dios acabarem, sempre pego antes. Ent\u00e3o eu tinha certo estoque, mas muitos amigos me ligaram pedindo, desesperados sem saber o que fazer e a quem recorrer nessas horas\u201d, comenta o estudante, que diz fazer parte de um grupo de WhatsApp para soropositivos trocarem informa\u00e7\u00f5es e se ajudarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos sonhos que ele carrega para diminuir o impacto da doen\u00e7a na sua vida \u00e9 que criem uma vacina para tomar mensalmente. \u201cEvitaria da gente ter que tomar as medica\u00e7\u00f5es todos os dias, vai ser muito melhor\u201d, opina esperan\u00e7oso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pesquisa internacional avaliou o efeito de inje\u00e7\u00f5es espa\u00e7adas de dois antirretrovirais em mais de 200 pacientes. Em dois anos, 87% dos que receberam a dose uma vez ao m\u00eas suprimiram o v\u00edrus. Mas, para que o estudo possa se expandir e se tornar seguro e efetivo, precisa passar por uma nova fase de pesquisas com um n\u00famero bem maior de volunt\u00e1rios. Ainda n\u00e3o h\u00e1 expectativa para que seja aplicado ao mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profissional do sexo Jos\u00e9 Carlos* &#8211; nesta reportagem ganhou nome fict\u00edcio -, 27, que trabalho com o corpo desde os 14 anos, lamenta n\u00e3o ter conhecido a Profilaxia Pr\u00e9-Exposi\u00e7\u00e3o ao HIV antes de ser diagnosticado com o v\u00edrus. O PrEP \u00e9 o uso preventivo de medicamentos antes da exposi\u00e7\u00e3o reduzindo a probabilidade da pessoa se infectar com v\u00edrus e pode ser utilizada por grupos de alto risco, gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH); pessoas trans; trabalhadores\/as do sexo e parcerias sorodiferentes (quando uma pessoa est\u00e1 infectada pelo HIV e a outra n\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o deu tempo. Aos 23 anos, uma m\u00e9dica informou que o resultado do seu exame tinha sido reagente e que ele estava com o v\u00edrus. Jos\u00e9 era casado e tinha uma filha. Quando decidiu contar a sua esposa, teve medo de dizer como poderia ter pego porque a prostitui\u00e7\u00e3o era algo secreto e ela nem desconfiava. \u201cFui muito irrespons\u00e1vel, falei que tinha pego com alguma mulher porque tinha a tra\u00eddo na rua, mas n\u00e3o tive coragem de revelar a forma que ganhava dinheiro\u201d, esclarece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e e o pai ficaram em choque, sem entender direito como seria a vida do filho daquele momento em diante, mas Jos\u00e9 sempre demonstrou tranquilidade porque fez pesquisas, passou a frequentar reuni\u00f5es no GTP+ e em outras ONGs, e as conversas no ciclo de amigos pr\u00f3ximos tamb\u00e9m o acalmavam. \u201cA minha m\u00e3e ainda se preocupa muito comigo, quando saio para beber e perco noites de sono. A gente sabe que n\u00e3o pode exagerar porque a doen\u00e7a chega muito r\u00e1pido. Mas minha mente sempre foi mais aberta, consigo me acalmar para poder tranquilizar quem est\u00e1 ao meu redor\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 se considera heterossexual e que o fato de transar com homens em seu trabalho n\u00e3o altera sua sexualidade. \u201cGosto de mulheres, quero encontrar uma para que eu possa me apaixonar de novo, espero que ela me aceite. Mas, s\u00e3o neg\u00f3cios e mantenho rela\u00e7\u00f5es sexuais com homens principalmente para sobreviver\u201d. Ele conta que j\u00e1 frequentou saunas gays, cinemas, e pontos de prostitui\u00e7\u00e3o por muitos anos, mas agora mant\u00e9m um caso com um pastor de uma igreja evang\u00e9lica que pediu \u201cexclusividade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, apesar disso, continua trabalhando com programa quando aparece alguma oportunidade. \u201c\u00c9 um trabalho que n\u00e3o tem crise, n\u00e3o abala, quem quer sexo vai procurar isso, eles pagam para isso. Quem me conhece, me procura porque gosta de mim. Mas sei que ficando velho, vou perder clientes e essa \u00e9 a tend\u00eancia, os mais novos s\u00e3o mais procurados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo sendo portador do HIV, ele diz que leva uma vida tranquila, saud\u00e1vel e sempre que vai fazer sexo, faz o uso da camisinha. Com os medicamentos que fazem parte do coquetel, as perspectivas de vida para soropositivos est\u00e3o cada vez melhor. Pior mesmo \u00e9 o preconceito que s\u00f3 aumenta. \u201cO desconhecimento \u00e9 muito grande, tenho medo de nunca conseguir casar de novo. \u00c9 um assunto que parece um monstro para tantas pessoas e \u00e9 t\u00e3o simples de ser entendido. A gente sofre demais, mas n\u00e3o me entrego\u201d, admite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ele, os casos de HIV entre jovens aumentaram porque falta conscientiza\u00e7\u00e3o, principalmente nas periferias, em que o acesso a educa\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 mais prec\u00e1rio. \u201cMuitas pessoas se drogam, precisam trabalhar com o corpo, e est\u00e3o vulner\u00e1veis. O estado precisa intervir urgente e criar novas medidas mais eficazes para essa molecada ter mais conhecimento\u201d, opina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 n\u00e3o se arrepende de ter entrado na prostitui\u00e7\u00e3o para se manter e por consequ\u00eancia ser infectado, mas sente m\u00e1goa de seu passado e presente e gostaria de largar o sexo por dinheiro de uma vez por todas. \u201cQuero ter um trabalho como qualquer outro, uma vida mais digna, me cuidar mais. S\u00f3 que nem tudo \u00e9 t\u00e3o simples assim, o dinheiro f\u00e1cil \u00e9 atrativo, mas da mesma forma que ele vem com facilidade, vai embora tamb\u00e9m\u201d, analisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Leia J\u00e1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maior concentra\u00e7\u00e3o dos casos de Aids no Brasil foi observada nos indiv\u00edduos com idade de 25 a 39 anos, em ambos os sexos, aponta Boletim Epidemiol\u00f3gico De 2007 at\u00e9 junho de 2018, foram notificados no Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o (Sinan) 247.795 casos de infec\u00e7\u00e3o pelo HIV no Brasil. 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