{"id":50933,"date":"2019-02-04T10:13:00","date_gmt":"2019-02-04T13:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=50933"},"modified":"2019-02-04T10:13:00","modified_gmt":"2019-02-04T13:13:00","slug":"fernando-figueira-um-centenario-guiado-pela-medicina-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/fernando-figueira-um-centenario-guiado-pela-medicina-social\/","title":{"rendered":"Fernando Figueira: um centen\u00e1rio guiado pela medicina social"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">JC inicia s\u00e9rie sobre o centen\u00e1rio do professor Fernando Figueira, que celebraria 100 anos de nascimento nesta segunda-feira (4)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida pautada na medicina social inspira esta s\u00e9rie de reportagens, iniciada neste domingo (3) e que vai at\u00e9 a ter\u00e7a-feira, sobre o centen\u00e1rio de nascimento do m\u00e9dico e professor Fernando Figueira. Na segunda-feira (4), revelamos como os disc\u00edpulos perpetuam as li\u00e7\u00f5es do mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa mem\u00f3ria afetiva tem o poder de armazenar cenas, sentimentos e detalhes das lembran\u00e7as significativas. Elas v\u00eam e v\u00e3o, mas nunca deixam de trazer um instante do passado permeado de satisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que acontece quando algu\u00e9m recorda momentos ao lado do pediatra e professor Fernando Figueira (1919-2003), que celebraria 100 anos de nascimento amanh\u00e3. Mestre representativo da medicina social (campo que busca compreender como as condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas afetam a sa\u00fade), ele deixou um legado enraizado no acesso universal ao sistema p\u00fablico de sa\u00fade. \u201cO exerc\u00edcio da medicina n\u00e3o deve se subordinar \u00e0 crueza das leis econ\u00f4micas. Deve ser regido pelas necessidades sociais de um povo em determinado momento hist\u00f3rico\u201d, j\u00e1 dizia o professor, que multiplicou disc\u00edpulos com preceitos que permanecem atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao abra\u00e7ar ensinamentos que caminhavam na contram\u00e3o da polimedica\u00e7\u00e3o, a favor do aleitamento materno e do olhar hol\u00edstico, Figueira se tornou exemplo de solidariedade, fraternidade e respeito a pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social. Esse foi o combust\u00edvel que o fez erguer o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), principal obra do mestre criada em 1960 e que inicialmente recebeu o nome de Hospital Geral de Pediatria do Imip \u2013 naquela \u00e9poca, era a sigla para Instituto de Medicina Infantil de Pernambuco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAos poucos, ele foi desenhando uma assist\u00eancia tamb\u00e9m para as mulheres, que aguardavam a consulta com os filhos. O professor viu que era preciso otimizar esse tempo para oferecer cuidado \u00e0s m\u00e3es. Come\u00e7ou, ent\u00e3o, a treinar ginecologistas para oferecer preventivo e exames \u00e0s mulheres\u201d, conta o pediatra Jo\u00e3o Guilherme Alves, 64 anos, diretor de Ensino do Imip e um dos disc\u00edpulos do professor. \u201cCom ele, aprendemos que a vida tem valor independentemente da classe social. Era admir\u00e1vel o respeito dele com os pacientes\u201d, recorda. Para o professor, a medicina precisava ser usada como ci\u00eancia a servi\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o. Isso o fez extrapolar as fronteiras da pediatria: os cuidados ultrapassaram a faixa et\u00e1ria infantojuvenil e mergulharam num modelo de aten\u00e7\u00e3o integral para a fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMeus av\u00f3s confiavam demais nele. Mesmo sendo pediatra, dava orienta\u00e7\u00f5es a adultos. Ele cuidou de mim do nascimento aos 13 anos. Tio Fernando (como o chamava) tinha o dom de criar rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a com os pacientes\u201d, diz a servidora p\u00fablica Maria Evangelina Guerra, 48 anos, que guardou caderneta de vacina\u00e7\u00e3o, relat\u00f3rio da visita que o professor fez na maternidade sete horas ap\u00f3s o nascimento dela e fichas com requisi\u00e7\u00e3o de medicamentos. Uma frase com a letra dele se destaca: \u201cLer cuidadosamente instru\u00e7\u00f5es\u201d. Essa \u00e9 uma das orienta\u00e7\u00f5es que remetem a um ilustre pensamento de Figueira: \u201cUm m\u00e9dico tem profunda responsabilidade sobre a vida dos que o procuram\u201d. A reflex\u00e3o faz o ba\u00fa de mem\u00f3rias afetivas de Vanjinha (como era chamada pelo professor) ser remexido. \u201cH\u00e1 20 anos, eu o reencontrei caminhando no Parque da Jaqueira (Zona Norte do Recife). Ele me reconheceu e fez elogios porque me achou bem. Era fabuloso\u201d, conta Maria Evangelina, que \u2013 neste centen\u00e1rio \u2013 est\u00e1 com o cora\u00e7\u00e3o cheinho de boas lembran\u00e7as ao revisitar ra\u00edzes da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mamadeira e leite em p\u00f3 eram proibidos nas maternidades<\/strong><br \/>\n\u00c0 frente da Secretaria de Sa\u00fade de Pernambuco, no governo Eraldo Gueiros (1971-1975), Fernando Figueira tomou uma iniciativa que \u00e9 relembrada e contada por muitos de seus disc\u00edpulos. Naquela \u00e9poca, ele proibiu a distribui\u00e7\u00e3o de bicos, mamadeiras e latas de leite em p\u00f3, por parte da ind\u00fastria de alimentos infantis, nas maternidades. A decis\u00e3o, que causou pol\u00eamica, virou um marco na hist\u00f3ria mundial da amamenta\u00e7\u00e3o e se tornou aplaudida pela comunidade cient\u00edfica, que hoje reconhece os benef\u00edcios do aleitamento materno. A proibi\u00e7\u00e3o ocorreu pela Portaria 99, publicada no Di\u00e1rio Oficial de 3 de dezembro de 1974. Para justificar a medida, o professor alegou que o leite materno \u00e9 insubstitu\u00edvel como alimento de prote\u00e7\u00e3o aos rec\u00e9m-nascidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi um grito de guerra que atingiu multinacionais. Essa \u00e9 apenas uma das lutas que Figueira empreendeu para ratificar a conduta de um homem que n\u00e3o se deixava levar por interesses de mercado e que tinha atitudes al\u00e9m do seu tempo. Hoje o Banco de Leite Humano do Imip \u00e9 refer\u00eancia no incentivo ao aleitamento e representa a coroa\u00e7\u00e3o pela batalha contra o desmame.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEle era destemido, inconformado com as injusti\u00e7as sociais. Tinha uma vis\u00e3o de vanguarda e um esp\u00edrito empreendedor \u00e0 causa p\u00fablica\u201d, relata o m\u00e9dico Antonio Carlos Figueira \u2013 o quinto dos nove filhos do professor e que nasceu no ano de cria\u00e7\u00e3o do instituto (1960). A profiss\u00e3o de m\u00e9dico tamb\u00e9m foi abra\u00e7ada pelo filho ca\u00e7ula, Fernando Augusto Figueira, 39 anos, cirurgi\u00e3o cardiovascular e coordenador do Servi\u00e7o de Transplante Card\u00edaco do Imip. A filha Maria Cristina Figueira se dedica \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o do curso de enfermagem da Faculdade Pernambucana de Sa\u00fade, que surgiu, em 2005, da alian\u00e7a entre a Associa\u00e7\u00e3o Educacional Boa Viagem e a Funda\u00e7\u00e3o Alice Figueira, organiza\u00e7\u00e3o de apoio ao desenvolvimento do Imip. \u201cMesmo os filhos que n\u00e3o s\u00e3o da \u00e1rea da sa\u00fade, contribuem direta ou indiretamente na manuten\u00e7\u00e3o da obra social deixada pelo professor\u201d, destaca Fernando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na pauta de desejos, v\u00e1rios Imips instalados<\/strong><br \/>\nQuem conviveu no dia a dia com Fernando Figueira sabe que o Imip se tornou o oxig\u00eanio de que o professor precisava para se manter vivo. A declara\u00e7\u00e3o \u00e9 da nutricionista Silvia Rissin, que assumiu a presid\u00eancia do instituto em agosto do ano passado, depois de ter ficado \u00e0 frente da Funda\u00e7\u00e3o Alice Figueira por 22 anos. Para ela, a expans\u00e3o do Imip se entrela\u00e7a com o pr\u00f3prio desenvolvimento da sa\u00fade p\u00fablica em Pernambuco e com a hist\u00f3ria de vida do professor que continua a inspirar gera\u00e7\u00f5es de m\u00e9dicos. \u201cEle me convocou para trabalhar no Imip, mesmo sem saber em que setor eu ficaria nem o que faria exatamente, mas queria que eu arrecadasse recursos necess\u00e1rios para dar continuidade ao trabalho do instituto\u201d, recorda Silvia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presidente da institui\u00e7\u00e3o conta que o sonho de Figueira era ver outros \u201cImips\u201d espalhados, descentralizando a assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade, para que as fam\u00edlias n\u00e3o percorressem longas dist\u00e2ncias para receber atendimento. \u201cEsse desdobramento do instituto hoje pode ser representado, por exemplo, pelas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e postos de sa\u00fade que est\u00e3o pelo Estado. E aos poucos, o Imip foi crescendo sem se limitar \u00e0 assist\u00eancia, mas tamb\u00e9m oferecendo ensino e pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor do professor pela medicina social plantada no Imip tamb\u00e9m \u00e9 narrado pelo motorista da presid\u00eancia, Salatiel Farias, 65 anos, que est\u00e1 h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas no instituto. \u201cComecei dirigindo as ambul\u00e2ncias, e ele sempre pediu para eu acompanh\u00e1-lo nas viagens que fazia de carro. Fiquei como motorista dele por uns dez anos. Era um homem muito bom, que s\u00f3 queria viver para ajudar as pessoas. Lembro uma vez que ele viu uma senhora \u00e0 toa no Cais de Santa Rita (bairro de S\u00e3o Jos\u00e9, no Centro do Recife), sensibilizou-se e pediu para ver do que ela estava precisando. Essa \u00e9 s\u00f3 uma das muitas lembran\u00e7as que tenho do quanto ele fazia o bem\u201d, conta Salatiel, que guarda na mem\u00f3ria o dia em que o Imip perdeu um pai ilustre. \u201cNo dia em que ele faleceu, eu estava na resid\u00eancia com ele. Passei mal, a minha press\u00e3o subiu. At\u00e9 hoje s\u00f3 guardo boas lembran\u00e7as dele.\u201d H\u00e1 cinco d\u00e9cadas no instituto, a secret\u00e1ria Francisca Sales, 86 anos, tamb\u00e9m s\u00f3 guarda recorda\u00e7\u00f5es de bons momentos ao lado do professor. \u201cEu o conheci quando trabalhava na pediatria da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas, mas ele fez quest\u00e3o de me convocar para o Imip. Ofereceu at\u00e9 um sal\u00e1rio mais alto. Ele era assim mesmo: gostava de ajudar\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor faleceu aos 84 anos, no dia 1\u00ba de abril de 2003. A despedida foi marcada por muitas homenagens feitas por funcion\u00e1rios da institui\u00e7\u00e3o, dos amigos, autoridades pol\u00edticas e de sa\u00fade, entidades m\u00e9dicas, moradores da comunidade dos Coelhos (bairro onde fica o instituto) e pacientes do hospital que tanto o admiravam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Missa<\/strong><br \/>\nNesta segunda-feira (4), dia em que Fernando Figueira completaria 100 anos, o Imip celebra uma missa, \u00e0s 10h, em mem\u00f3ria ao seu fundador, reverenciado pelas obras, ideais e luta em prol dos mais necessitados. A celebra\u00e7\u00e3o ser\u00e1 comandada pelo bispo auxiliar da arquidiocese de Olinda e Recife, dom Limac\u00eado Antonio da Silva. J\u00e1 na pr\u00f3xima quarta-feira, tamb\u00e9m \u00e0s 10h, ser\u00e1 realizado o lan\u00e7amento do Selo Especial Fernando Figueira, em parceria com os Correios, em solenidade na Sala de Defesa de Tese do instituto. Ao longo deste ano, ser\u00e3o feitas diversas homenagens, como lan\u00e7amento de livro, confer\u00eancias e congressos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Jornal do Commercio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JC inicia s\u00e9rie sobre o centen\u00e1rio do professor Fernando Figueira, que celebraria 100 anos de nascimento nesta segunda-feira (4) A vida pautada na medicina social inspira esta s\u00e9rie de reportagens, iniciada neste domingo (3) e que vai at\u00e9 a ter\u00e7a-feira, sobre o centen\u00e1rio de nascimento do m\u00e9dico e professor Fernando Figueira. 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