{"id":51613,"date":"2019-03-11T10:10:12","date_gmt":"2019-03-11T13:10:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=51613"},"modified":"2019-03-11T10:10:12","modified_gmt":"2019-03-11T13:10:12","slug":"baixa-cobertura-de-vacinas-em-pernambuco-traz-ameaca-de-epidemias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/baixa-cobertura-de-vacinas-em-pernambuco-traz-ameaca-de-epidemias\/","title":{"rendered":"Baixa cobertura de vacinas em Pernambuco traz amea\u00e7a de epidemias"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O JC inicia, neste domingo, s\u00e9rie de reportagens que alerta para baixas coberturas vacinais. At\u00e9 ter\u00e7a (12), ser\u00e3o abordados os benef\u00edcios da imuniza\u00e7\u00e3o em todas as fases da vida<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As principais vacinas do calend\u00e1rio, em Pernambuco, seguem abaixo dos percentuais de 90% a 95% recomendados pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) para conferir prote\u00e7\u00e3o contra agentes infecciosos que causam doen\u00e7as graves e geralmente letais, como o sarampo, ou bact\u00e9rias que provocam meningite. Levantamento feito pela reportagem do Jornal do Commercio e pelo blog Casa Saud\u00e1vel, a partir de dados dispon\u00edveis no Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00f5es (PNI), revela que a cobertura vacinal da maioria das doses (indicadas especialmente para crian\u00e7as) est\u00e1 abaixo da meta. Somente as vacinas BCG (protege contra as formas graves de tuberculose e \u00e9 aplicada em dose \u00fanica nas maternidades) e rotav\u00edrus (contra diarreia severa) passaram dos 90% recomendados e atingiram boa cobertura no Estado, de 103,58% e 91,21%, respectivamente. Para os demais imunizantes, a taxa deve ser de pelo menos 95% \u2013 e est\u00e1 aqu\u00e9m para outras vacinas, como meningococo C, poliomielite, HPV, hepatites A e B.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As taxas analisadas correspondem \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o de rotina em 2018, e os munic\u00edpios pernambucanos t\u00eam at\u00e9 o dia 31 deste m\u00eas para revisar o banco de dados. Outro detalhe tamb\u00e9m preocupante \u00e9 que muitos n\u00e3o receberam prote\u00e7\u00e3o completa com a tr\u00edplice viral (contra sarampo, caxumba e rub\u00e9ola). Em meio a um cen\u00e1rio em que o Brasil n\u00e3o consegue interromper a transmiss\u00e3o ativa do sarampo, Pernambuco s\u00f3 chegou \u00e0 cobertura adequada (101,84%) da primeira dose, aplicada aos 12 meses de vida. Para a segunda dose, dada aos 15 meses de vida, a taxa est\u00e1 em 67,11%. Para prote\u00e7\u00e3o contra a poliomielite, que pode provocar paralisia permanente nas pernas e nos bra\u00e7os, o cen\u00e1rio \u00e9 semelhante e tamb\u00e9m causa apreens\u00e3o diante do risco de retorno da doen\u00e7a no Pa\u00eds. A cobertura est\u00e1 em 90,63% na primeira dose (ainda abaixo da meta). Para o primeiro refor\u00e7o, a taxa recua para 73,19%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dados preocupam. E muito. Essa queda na vacina\u00e7\u00e3o acende uma luz vermelha e justifica os motivos para a inquieta\u00e7\u00e3o dos profissionais e autoridades de sa\u00fade. \u201cA popula\u00e7\u00e3o deve compreender que, ao ser vacinada, n\u00e3o vai adoecer. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso entender que n\u00e3o \u00e9 para se imunizar apenas quando aparece um surto. Afinal, a prote\u00e7\u00e3o s\u00f3 come\u00e7a a agir ap\u00f3s um tempo, de 10 a 15 dias, da aplica\u00e7\u00e3o. Se as pessoas est\u00e3o bem vacinadas, n\u00e3o ficar\u00e3o doentes quando entrarem em contato com agentes infecciosos\u201d, esclarece a coordenadora do Programa Estadual de Imuniza\u00e7\u00e3o, Ana Catarina de Melo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ela, a estrat\u00e9gia capaz de fazer voltar as taxas de imuniza\u00e7\u00e3o adequadas passa por dois caminhos: as autoridades precisam fazer um trabalho refor\u00e7ado para conscientizar sobre a import\u00e2ncia da vacina\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m devem rever o processo de organiza\u00e7\u00e3o para disponibilizar as doses. \u201cExiste uma mudan\u00e7a na percep\u00e7\u00e3o de risco da popula\u00e7\u00e3o. Muitos acreditam que a vacina\u00e7\u00e3o s\u00f3 deve ser feita em momentos de campanha. Mas tamb\u00e9m precisamos avaliar a estrutura do nosso sistema e questionar se a estrat\u00e9gia adotada atualmente \u00e9 a melhor para possibilitar a prote\u00e7\u00e3o da sociedade\u201d, completa Ana Catarina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra particularidade que precisa ser considerada, segundo a coordenadora do programa em Pernambuco, \u00e9 a via de acesso e a maneira como as vacinas s\u00e3o ofertadas. \u201cSer\u00e1 que devemos mesmo esperar as pessoas irem at\u00e9 uma unidade de sa\u00fade para fazer a imuniza\u00e7\u00e3o? Ou devemos ir at\u00e9 determinadas comunidades, como aquelas de fam\u00edlias que vivem em zonas rurais e n\u00e3o conseguem levar os filhos aos postos porque todos trabalham o dia inteiro? J\u00e1 nas cidades, com homens e mulheres no mercado de trabalho, os pais n\u00e3o t\u00eam mais a mesma disponibilidade para levar a unidades de sa\u00fade\u201d, reflete Ana Catarina, que viu a situa\u00e7\u00e3o se inverter, no Recife, no ano passado, quando unidades da rede municipal abriram as portas em hor\u00e1rio estendido (at\u00e9 21h) durante a campanha nacional contra p\u00f3lio e sarampo. \u201cEu estava na Policl\u00ednica Albert Sabin (Tamarineira, Zona Norte da cidade), \u00e0 noite, e vi filas enormes. Eram pais que tinham acabado de largar do trabalho e estavam levando os filhos que haviam acabado de sair da escola. Ou seja, precisamos analisar essa din\u00e2mica para rever os hor\u00e1rios de vacina\u00e7\u00e3o nos postos\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Recife tamb\u00e9m tem queda em taxas de imuniza\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nNa Policl\u00ednica Lessa de Andrade, no bairro da Madalena, Zona Oeste do Recife, a movimenta\u00e7\u00e3o come\u00e7a cedo. \u00c0s 7h, a sala de vacina\u00e7\u00e3o passa a acomodar pessoas de todas as faixas et\u00e1rias que procuram a unidade para imuniza\u00e7\u00e3o. Por outro lado, h\u00e1 outros postos na cidade com demandas pequenas, mesmo com doses suficientes para oferecer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Isso se reflete no recuo das coberturas na capital pernambucana, acompanhando o cen\u00e1rio no Estado. As taxas de rotav\u00edrus, meningococo C, pneumoc\u00f3cica, p\u00f3lio e hepatite A, assim como os refor\u00e7os (quando indicados), est\u00e3o baixas no Recife, considerando os dados de 2018 do Sistema de Informa\u00e7\u00f5es do Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda dose da tr\u00edplice viral (que deve ser administrada aos 15 meses para fortalecer a prote\u00e7\u00e3o contra sarampo, caxumba e rub\u00e9ola), por exemplo, foi de 67,6%, no ano passado, na cidade. A baixa cobertura reflete um comportamento observado ap\u00f3s a crian\u00e7a completar 1 ano. \u201cAntes disso, as vacinas t\u00eam taxas relativamente altas. Os pais levam os filhos com mais frequ\u00eancia aos servi\u00e7os de sa\u00fade e v\u00e3o ao pediatra com regularidade para pesar e medir a crian\u00e7a. A partir dos 12 meses de vida, quando s\u00e3o necess\u00e1rias aplica\u00e7\u00f5es de refor\u00e7o, a gente v\u00ea queda na imuniza\u00e7\u00e3o. A preocupa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias \u00e9 menor, e isso impacta na queda das coberturas vacinais\u201d, explica o presidente da Sociedade de Pediatria de Pernambuco, Eduardo Jorge da Fonseca Lima, que faz parte do Comit\u00ea de Imuniza\u00e7\u00f5es da Sociedade Brasileira de Pediatria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico destaca que completar os esquemas \u00e9 essencial para conferir total prote\u00e7\u00e3o contra doen\u00e7as. \u201cQuando a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem vacinada, evita-se criar um verdadeiro ex\u00e9rcito de pessoas suscept\u00edveis ao adoecimento. Mesmo uma queda aparentemente pequena nas doses de refor\u00e7o, pode possibilitar surgimento de epidemias\u201d, acrescenta Eduardo Jorge. Ele usa como exemplo tamb\u00e9m a tr\u00edplice bacteriana (DTP), que evita prote\u00e7\u00e3o contra difteria, t\u00e9tano e coqueluche. \u201cObservamos uma queda sempre nas aplica\u00e7\u00f5es posteriores \u00e0s dos primeiros meses de vida. Com a DTP, no Brasil, o primeiro refor\u00e7o teve cobertura de 64% em 2016. N\u00e3o lembro de, nos \u00faltimos 20 anos, ter visto um percentual t\u00e3o baixo.\u201d Naquele mesmo ano, o Recife teve taxa menor do que a nacional para o primeiro refor\u00e7o da DTP, de 56%. Em 2018, caiu mais: 47,5%. Considerando a m\u00e9dia de todos os munic\u00edpios pernambucanos, em 2016, o percentual foi de 78,6% para a mesma vacina \u2013 um pouco maior do que a taxa nacional, mas ainda baixo para conferir prote\u00e7\u00e3o adequada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vacinas viram v\u00edtima do seu pr\u00f3prio sucesso<\/strong><br \/>\nCom a diminui\u00e7\u00e3o dos riscos de transmiss\u00e3o de algumas doen\u00e7as (algumas at\u00e9 j\u00e1 erradicadas no Brasil, como a poliomielite), a popula\u00e7\u00e3o passa a se preocupar mais com mensagens equivocadas sobre a imuniza\u00e7\u00e3o do que com a import\u00e2ncia de se proteger. Esse \u00e9 um dos fatores que levam \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dos movimentos antivacina, que lamentavelmente crescem em todo o mundo e trazem preju\u00edzos irrevers\u00edveis \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. O fen\u00f4meno n\u00e3o tem base cient\u00edfica e compartilha reflex\u00f5es capazes de aniquilar os ganhos que o Brasil alcan\u00e7ou com a vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNunca devemos baixar a guarda. Os pat\u00f3genos (organismos, como v\u00edrus e bact\u00e9rias, capazes de levar a enfermidades) est\u00e3o ao nosso redor. Se a cobertura n\u00e3o for boa, corremos o risco de ver casos de doen\u00e7as que j\u00e1 foram respons\u00e1veis por milhares de complica\u00e7\u00f5es e mortes\u201d, frisa a infectopediatra Angela Rocha, chefe do Setor de Infectologia Pedi\u00e1trica do Hospital Universit\u00e1rio Oswaldo Cruz (Huoc), em Santo Amaro, \u00e1rea central do Recife. \u201cEstou no servi\u00e7o desde 1973 e j\u00e1 acompanhei doen\u00e7as que eram muitos comuns, como difteria. Houve uma \u00e9poca em que o setor atendia anualmente mais de 200 casos da doen\u00e7a, hoje controlada gra\u00e7as \u00e0 imuniza\u00e7\u00e3o\u201d, diz a m\u00e9dica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Pernambuco, o \u00faltimo caso de difteria aconteceu no ano passado: um jovem de 18 anos, residente em Salgueiro, no Sert\u00e3o, teve a infec\u00e7\u00e3o. Em 2017, n\u00e3o houve casos e, em 2016, uma beb\u00ea menor de 1 ano, moradora de S\u00e3o Louren\u00e7o da Mata, no Grande Recife, teve a doen\u00e7a. Como o Brasil apresentou redu\u00e7\u00e3o na incid\u00eancia da enfermidade por causa da amplia\u00e7\u00e3o das coberturas vacinais, a difteria se tornou rara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A taxa atual para difteria, no entanto, requer cautela em Pernambuco. Em 2018, a cobertura vacinal, que deveria ser de 95%, ficou em 89,5% entre os menores de 1 ano. Um detalhe \u00e9 que a vacina tamb\u00e9m protege contra coqueluche e t\u00e9tano. Assim, quem n\u00e3o est\u00e1 imunizado fica suscept\u00edvel \u00e0s tr\u00eas doen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs vacinas s\u00e3o mesmo v\u00edtimas do seu pr\u00f3prio sucesso. Com as aplica\u00e7\u00f5es rotineiras nos anos 1990 e 2000, tivemos praticamente controle das doen\u00e7as que eram vistas com muita frequ\u00eancia, como sarampo e p\u00f3lio. A imuniza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m diminuiu bastante a incid\u00eancia das doen\u00e7as meningoc\u00f3cicas. N\u00e3o temos mais epidemias dessa enfermidade como h\u00e1 anos. Ent\u00e3o, isso passa uma falsa seguran\u00e7a para as fam\u00edlias, que deixam de se proteger porque n\u00e3o veem mais casos\u201d, salienta o pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima, que n\u00e3o se cansa de lutar contra o antivacinismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Jornal do Commercio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O JC inicia, neste domingo, s\u00e9rie de reportagens que alerta para baixas coberturas vacinais. 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