{"id":57657,"date":"2021-02-08T10:41:41","date_gmt":"2021-02-08T13:41:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=57657"},"modified":"2021-02-08T10:41:41","modified_gmt":"2021-02-08T13:41:41","slug":"pacientes-graves-de-covid-19-retardam-ida-ao-hospital-com-medo-da-intubacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/pacientes-graves-de-covid-19-retardam-ida-ao-hospital-com-medo-da-intubacao\/","title":{"rendered":"Pacientes graves de Covid-19 retardam ida ao hospital com medo da intuba\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Nota de especialistas diz ser alarmante o n\u00famero de pacientes chegando aos hospitais com quadros avan\u00e7ados.<\/em><\/p>\n<p>Doentes de Covid-19 t\u00eam postergado a ida ao hospital com medo da intuba\u00e7\u00e3o, agravando o estado cl\u00ednico. Muitos est\u00e3o usando oxig\u00eanio em casa, pr\u00e1tica arriscada porque a doen\u00e7a pode apresentar piora repentina.<\/p>\n<p>O alerta \u00e9 da Amib (Associa\u00e7\u00e3o de Medicina Intensiva Brasileira), que divulgou nesta quinta (4) uma nota em que diz ser alarmante o n\u00famero crescente de pacientes chegando aos hospitais com quadros avan\u00e7ados de insufici\u00eancia respirat\u00f3ria. Embora ainda n\u00e3o haja informa\u00e7\u00f5es consolidadas sobre essa alta, a associa\u00e7\u00e3o afirma que tem observado casos de pacientes com Covid-19 tratados em casa com estrat\u00e9gias apropriadas somente no ambiente hospitalar, como o uso de concentradores de oxig\u00eanio.<\/p>\n<p>Segundo a Amib, a \u00fanica forma segura e eficiente de conduzir pacientes com sinais de insufici\u00eancia respirat\u00f3ria \u00e9 por meio da interna\u00e7\u00e3o hospitalar e t\u00e9cnicas de suportes respirat\u00f3rias invasivas (intuba\u00e7\u00e3o) ou n\u00e3o invasivas (m\u00e1scaras de oxig\u00eanio).<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da aposentada Maria (nome fict\u00edcio), 63, de Barretos. Ap\u00f3s apresentar sintomas de Covid, se consultou com um pneumologista particular e recebeu indica\u00e7\u00e3o de interna\u00e7\u00e3o. Mas, como medo de ser intubada, ela se recusou a ir para o hospital. Como op\u00e7\u00e3o, o m\u00e9dico prescreveu o uso de oxig\u00eanio em casa, com monitoramento por meio do ox\u00edmetro (aparelho que mede a satura\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio do sangue), al\u00e9m de anticoagulante e antibi\u00f3tico.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado (30), a falta de ar aumentou muito, a satura\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio chegou a 75% e ela foi convencida pelo filho a ir para o hospital. Chegou em estado grave, foi imediatamente intubada e segue internada na UTI.<\/p>\n<p>O caso de Maria tamb\u00e9m ilustra uma outra mudan\u00e7a nessa segunda onda da pandemia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 proced\u00eancia do paciente com necessidade de intuba\u00e7\u00e3o. Antes, a maioria j\u00e1 estava internada quando ocorria uma piora do estado cl\u00ednico, a ida para a UTI e a indica\u00e7\u00e3o de ventila\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica invasiva.<\/p>\n<p>Agora, h\u00e1 muitos relatos de pacientes indo direto do pronto-socorro para a UTI e sendo intubados, segundo o m\u00e9dico intensivista Ederlon Rezende, do conselho consultivo da Amib. No Hospital do Servidor Estadual (SP), por exemplo, 70% dos pacientes com indica\u00e7\u00e3o de intuba\u00e7\u00e3o j\u00e1 v\u00eam direto do PS. &#8220;\u00c9 um forte indicativo de que os pacientes est\u00e3o chegando mais graves&#8221;, diz Rezende. Outras institui\u00e7\u00f5es pelo pa\u00eds registram situa\u00e7\u00f5es parecidas.<\/p>\n<p>No Hospital do Amor Nossa Senhora, em Barretos (SP), a gravidade com que os pacientes t\u00eam chegado nos \u00faltimos dias preocupou a equipe m\u00e9dica, diz Cristina Prata Amendola, diretora m\u00e9dica do hospital. Em comum, muitos desses pacientes tentavam se tratar em casa. &#8220;Tanto com o kit Covid quanto com anticoagulantes. Tivemos uns cinco ou seis casos de pacientes que tamb\u00e9m estavam usando aqueles torpedinhos de oxig\u00eanio em casa&#8221;, afirma ela.<\/p>\n<p>No Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santar\u00e9m (PA), a percep\u00e7\u00e3o dos intensivistas \u00e9 a mesma dos colegas de SP. &#8220;As pessoas est\u00e3o confundindo as coisas. Como o cara mais grave \u00e9 intubado, elas acham que n\u00e3o tem que intubar porque sen\u00e3o o cara vai morrer. A\u00ed fica aquele p\u00e2nico&#8221;, conta Antonio Carlos Alves da Silva, coordenador da UTI do hospital.<\/p>\n<p>Silva tamb\u00e9m observa a chegada crescente de pacientes mais graves, agora cada vez mais jovens, entre 20 e 40 anos, o que n\u00e3o era observado na primeira onda da Covid. O m\u00e9dico diz que, al\u00e9m do aluguel de cilindros de oxig\u00eanio, h\u00e1 pacientes questionando se podem comprar ventiladores mec\u00e2nicos n\u00e3o invasivos para deixar em casa por precau\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A necessidade de oxig\u00eanio indica maior gravidade da doen\u00e7a, e isso \u00e9 crit\u00e9rio para interna\u00e7\u00e3o, segundo Cristina Amendola. Pacientes mais graves de Covid-19 podem sofrer danos nos tecidos do pulm\u00e3o, levando \u00e0 insufici\u00eancia respirat\u00f3ria aguda. Se os pulm\u00f5es n\u00e3o conseguem fornecer oxig\u00eanio para o corpo ou n\u00e3o eliminam o di\u00f3xido de carbono adequadamente, a intuba\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica terapia indicada.<\/p>\n<p>&#8220;A gente tem visto com frequ\u00eancia essas situa\u00e7\u00f5es. Pacientes protelando atendimento hospitalar por medo e quando chegam ao hospital est\u00e3o com um estado cl\u00ednico muito comprometido&#8221;, diz Felipe Bittencourt, m\u00e9dico intensivista do Hospital Guadalupe, em Bel\u00e9m (PA). Segundo ele, a situa\u00e7\u00e3o ocorre, inclusive, entre pacientes mais esclarecidos, com familiares da \u00e1rea da sa\u00fade e com acesso a m\u00e9dicos particulares. &#8220;Eles criam um suporte hospitalar dentro do domic\u00edlio, com medica\u00e7\u00f5es que a gente geralmente usa nos hospitais, como os anticoagulantes, e adquirem cilindros de oxig\u00eanio.&#8221;<\/p>\n<p>Bittencourt fala com conhecimento de causa. A mulher, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e9dica, foi infectada no ano passado, chegou a apresentar satura\u00e7\u00e3o de 83% e resistiu em ser internada. &#8220;Fizemos tratamento em casa, com altas doses de corticoides, antibi\u00f3tico e comprei um cilindro de oxig\u00eanio. Foi dif\u00edcil, mas deu certo.&#8221; No caso da regi\u00e3o Norte, Bittencourt acredita que muito do comportamento tamb\u00e9m possa estar relacionado ao colapso da rede de sa\u00fade ocorrido no ano passado, que levou \u00e0 falta de leitos de interna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo estudo publicado na revista cient\u00edfica The Lancet Respiratory Medicine, a alta mortalidade de pacientes internados com Covid-19 tem sido agravada pelas disparidades regionais de leitos e de recursos existentes no sistema de sa\u00fade. Apesar de o Norte e o Nordeste terem popula\u00e7\u00f5es mais jovens, os desfechos foram piores, com mais doentes necessitando de interna\u00e7\u00e3o em UTI e ventila\u00e7\u00e3o invasiva. Entre os pacientes intubados com menos de 60 anos, a mortalidade foi de 77% no Nordeste em compara\u00e7\u00e3o com 55% no Sul.<\/p>\n<p>Para a m\u00e9dica Cristina Amendola, embora a intuba\u00e7\u00e3o esteja associada a uma maior taxa de mortalidade, as pessoas precisam entender que \u00e9 a gravidade da doen\u00e7a \u2013e n\u00e3o o procedimento em si\u2013 que vai causar mais mortes. Segundo ela, muitos pacientes e familiares j\u00e1 chegam ao hospital com o discurso de que n\u00e3o querem a intuba\u00e7\u00e3o. S\u00f3 depois de muito di\u00e1logo e quando o paciente n\u00e3o aguenta mais a falta de ar \u00e9 que ele acaba cedendo e concordando. &#8220;Eu n\u00e3o me lembro de ter vivido situa\u00e7\u00e3o semelhante na UTI antes.&#8221;<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a m\u00e9dica lembra que quase 40% dos pacientes graves precisam fazer hemodi\u00e1lise, tamb\u00e9m associada a uma maior mortalidade, por\u00e9m, o procedimento n\u00e3o desperta o mesmo medo. &#8220;Ningu\u00e9m nunca me falou que n\u00e3o queria fazer di\u00e1lise.&#8221;\u00a0No caso de o paciente ou a fam\u00edlia optar pela n\u00e3o-intuba\u00e7\u00e3o, a equipe avalia crit\u00e9rios como a idade e as comorbidades, Se for uma pessoa muito idosa com doen\u00e7as pr\u00e9vias, a equipe respeita a decis\u00e3o e oferece cuidados paliativos.<\/p>\n<p>Mas se o doente n\u00e3o se enquadra nesses crit\u00e9rios, a decis\u00e3o de intubar pode acontecer mesmo \u00e0 revelia da vontade do paciente porque \u00e9 a sua \u00fanica chance de sobreviv\u00eancia. &#8220;A gente d\u00e1 um sedativo, ele relaxa e fazemos o procedimento. \u00c9 muito ruim ter que ser assim, mas se a gente fala: &#8216;vou te intubar&#8217;, o cara entra em p\u00e2nico, o que piora ainda mais a oxigena\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o intensivista Antonio Silva, de Santar\u00e9m. Uma tentativa de lidar com essas quest\u00f5es \u00e9ticas, tem sido mudar a forma de se comunicar. Em vez de usar a palavra intuba\u00e7\u00e3o, a equipe explica ao paciente vai que sed\u00e1-lo para &#8220;repousar&#8221; o pulm\u00e3o.<\/p>\n<p>Dos 44 pacientes internados na UTI que Silva coordena, 37 estavam intubados na \u00faltima ter\u00e7a (2). Nos boletins di\u00e1rios que ele passa aos familiares dos pacientes pelo telefone, a extuba\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre a primeira pergunta: &#8220;Doutor, quando vai tirar o tubo?&#8221;<\/p>\n<p>Fonte: Folha de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota de especialistas diz ser alarmante o n\u00famero de pacientes chegando aos hospitais com quadros avan\u00e7ados. Doentes de Covid-19 t\u00eam postergado a ida ao hospital com medo da intuba\u00e7\u00e3o, agravando o estado cl\u00ednico. Muitos est\u00e3o usando oxig\u00eanio em casa, pr\u00e1tica arriscada porque a doen\u00e7a pode apresentar piora repentina. 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