{"id":59272,"date":"2021-04-19T13:35:51","date_gmt":"2021-04-19T16:35:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/?p=59272"},"modified":"2021-04-19T13:35:51","modified_gmt":"2021-04-19T16:35:51","slug":"tratamento-de-saude-mental-e-afetado-com-suspensao-de-atendimento-presencial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.simepe.com.br\/novo\/tratamento-de-saude-mental-e-afetado-com-suspensao-de-atendimento-presencial\/","title":{"rendered":"Tratamento de sa\u00fade mental \u00e9 afetado com suspens\u00e3o de atendimento presencial"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto n\u00famero de casos de ansiedade e depress\u00e3o aumentam, pacientes com transtornos psiqui\u00e1tricos t\u00eam dificuldade de aderir a assist\u00eancia virtual<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma esp\u00e9cie de \u00e2ncora na chamada \u201cvida normal\u201d \u2014 ou uma boia na qual, no meio de um mar revolto, ela pudesse se manter a salvo do afogamento. Essas s\u00e3o as imagens \u00e0s quais a cen\u00f3grafa Luciene Grecco Ferreira recorre para descrever o tratamento psiqui\u00e1trico que buscou, sem sucesso, no hospital-dia da Unifesp (Universidade Federal de S\u00e3o Paulo) em mar\u00e7o de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lu Grecco, como \u00e9 conhecida no meio art\u00edstico, havia ficado tr\u00eas meses internada em outro hospital depois de uma tentativa de suic\u00eddio, \u00e1pice de uma crise depressiva da artista com trabalhos em programas como \u201cCastelo R\u00e1 Tim Bum\u201d e \u201cMundo da Lua\u201d, da TV Cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma folga de fim de semana, ela conheceu o hospital-dia da Unifesp e convenceu sua fam\u00edlia de que seguiria o tratamento por ali. Conseguiu a alta m\u00e9dica onde estava se tratando. Mas, tr\u00eas dias depois, veio o baque: o hospital-dia estava com todas as atividades coletivas e presenciais suspensas em raz\u00e3o da pandemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFoi muito frustrante. E tamb\u00e9m um choque ter alta esperando o atendimento no hospital-dia, mas constatar que eu ficaria \u00e0 deriva. \u00c9 como se eu ca\u00edsse de novo na arena dos le\u00f5es\u201d, define.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lu s\u00f3 conseguiu atendimento presencial em setembro, no Caism (Centro de Aten\u00e7\u00e3o Integrada \u00e0 Sa\u00fade Mental), ao qual o hospital-dia \u00e9 vinculado \u2014 e, ainda assim, sem as atividades de grupo que haviam sido t\u00e3o fundamentais na recupera\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-tentativa de suic\u00eddio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como a cen\u00f3grafa, outros pacientes que buscaram atendimento psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico na rede p\u00fablica durante a pandemia tiveram dificuldades para se manter em tratamento. O motivo foi a substitui\u00e7\u00e3o de grande parte das atividades presenciais pelo atendimento remoto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a troca era fundamental por conta do coronav\u00edrus, nem sempre a modalidade virtual contempla a demanda de quem tem transtornos desse tipo. A necessidade de novas formas de atendimento conflita justamente com um momento em que transtornos de sa\u00fade mental t\u00eam um aumento dram\u00e1tico no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em fevereiro deste ano, uma pesquisa da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo) revelou que, entre 11 pa\u00edses avaliados, o Brasil lidera os casos de depress\u00e3o e ansiedade durante a pandemia do coronav\u00edrus. Pelo estudo, o pa\u00eds foi o que mais registrou casos de ansiedade (63%) e de depress\u00e3o (59%) relacionados \u00e0s restri\u00e7\u00f5es durante a pandemia e o isolamento social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A intermit\u00eancia de atendimentos, no entanto, n\u00e3o \u00e9 exclusiva do Brasil. Em outubro do ano passado, uma pesquisa da OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade) feita em 130 pa\u00edses j\u00e1 mostrava que a pandemia de Covid-19 interrompeu servi\u00e7os essenciais de sa\u00fade mental em 93% deles, paralelamente ao aumento da demanda por tratamento nessa \u00e1rea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Focos de atendimento no SUS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nNa rede p\u00fablica brasileira, a aten\u00e7\u00e3o em sa\u00fade mental acontece pelo SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade), organizada por n\u00edveis de complexidade. Ela ocorre dentro da RAPS (Rede de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial) e primordialmente no \u00e2mbito municipal, em Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPS), Servi\u00e7os Residenciais Terap\u00eauticos, Centros de Conviv\u00eancia e Cultura e Unidades de Acolhimento. Em casos mais graves, segue para as inst\u00e2ncias estaduais e federais, em leitos de aten\u00e7\u00e3o integral em hospitais gerais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a Reforma Psiqui\u00e1trica, de 2001, o objetivo \u00e9 buscar um modelo de tratamento mais focado no conv\u00edvio com a fam\u00edlia e a comunidade do paciente, em contraste com o isolamento que ocorria nos antigos manic\u00f4mios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, entre os servi\u00e7os p\u00fablicos de refer\u00eancia em sa\u00fade mental no pa\u00eds est\u00e3o as cerca de 42 mil UBSs (Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade), na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. Al\u00e9m disso, s\u00e3o 2.657 CAPS, onde o cidad\u00e3o \u00e9 atendido e pode ser encaminhado para outro servi\u00e7o especializado da rede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procurada, a pasta n\u00e3o informou se tem um balan\u00e7o atualizado de ocupa\u00e7\u00e3o e oferta desses servi\u00e7os na pandemia ou se passou alguma orienta\u00e7\u00e3o para os munic\u00edpios durante a crise sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a Secretaria Municipal de Sa\u00fade de S\u00e3o Paulo admitiu que houve uma redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de atendimentos nos CAPS da cidade em 2020: foram realizados 282.730 atendimentos, diante de 293.614 em 2019. O dado n\u00e3o diz respeito a usu\u00e1rios diferentes, e sim, ao n\u00famero de atendimentos. O \u00f3rg\u00e3o informa que as consultas, na pandemia, podem ser realizadas por meio de teleatendimentos, em maior n\u00famero, \u201ce de atendimentos presenciais conforme a necessidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aumento de idea\u00e7\u00f5es suicidas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nUm dos servi\u00e7os de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental custeados pelo SUS em S\u00e3o Paulo \u00e9 o Caism, buscado por Lu Grecco, e que funciona como hospital-escola do Departamento de Psiquiatria da Unifesp. Ele \u00e9 atualmente um dos maiores centros de pesquisa psiqui\u00e1trica da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Caism conta com atendimento m\u00e9dico, ambulatorial e de hospital-dia, no qual est\u00e3o previstas atividades terap\u00eauticas em grupo e a possibilidade de interna\u00e7\u00e3o. S\u00e3o 250 profissionais da equipe pr\u00f3pria, al\u00e9m de aproximadamente 200 volunt\u00e1rios entre portadores de transtornos mentais e familiares, psiquiatras, psicanalistas e psic\u00f3logos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor do Caism \u00e9 o psiquiatra e pesquisador da Unifesp Elson Asevedo. Ele reconhece que as medidas sociais de conten\u00e7\u00e3o da pandemia acabaram impactando o atendimento de sa\u00fade mental no hospital-dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cComo a l\u00f3gica aqui \u00e9 a perman\u00eancia do paciente o dia todo, a proposta fica muito prejudicada quando se restringe a circula\u00e7\u00e3o de pessoas, assim como prejudica nos CAPS\u201d, aponta. Asevedo afirma que o servi\u00e7o foi mantido apenas aos pacientes que j\u00e1 eram atendidos e de forma individual e remota, por meio de teleconsulta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTivemos uma perda no atendimento remoto de 30% dos cerca de 50 pacientes que eram acompanhados no hospital-dia\u201d, diz o psiquiatra. Por outro lado, ele relata que houve um aumento nos casos de idea\u00e7\u00e3o ou tentativas suicidas no ambulat\u00f3rio, sem especificar o percentual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Crian\u00e7as e adolescentes vulner\u00e1veis<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nNo Caism, um dos grupos particularmente afetados pela supress\u00e3o de atividades terap\u00eauticas presenciais, na pandemia, foi o de crian\u00e7as e adolescentes. Esse \u00e9 um p\u00fablico que j\u00e1 teve de se submeter a atividades escolares remotas em uma fase de desenvolvimento das habilidades cognitivas na qual a socializa\u00e7\u00e3o, segundo especialistas, \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O coordenador da \u00e1rea no Caism, o psiquiatra infantil Marcus Vin\u00edcius Ribeiro avalia que pacientes que j\u00e1 apresentavam quest\u00f5es de sa\u00fade mental anteriores \u00e0 pandemia sentiram ainda mais a perda do atendimento presencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico destaca o agravamento de quadros de ansiedade anteriormente diagnosticados e intensificados pelo isolamento. \u201c\u00c9 muito comum ouvirmos crian\u00e7as e adolescentes que t\u00eam medo de se contaminar e de que seus pais morram. Isso definitivamente entrou nas preocupa\u00e7\u00f5es deles\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pacientes do Caism um pouco mais velhos tamb\u00e9m s\u00e3o exemplos dessa situa\u00e7\u00e3o. \u201cSofro demais pelos meus familiares\u201d, afirma a estudante de medicina Amanda, 26, que veio do interior da Bahia para se tratar em S\u00e3o Paulo. \u201cTento ignorar o sofrimento que essa pandemia me traz ao me apegar a algumas coisas para ocupar a mente, mas, quando vejo as estat\u00edsticas aqui do Brasil, penso que todos vamos morrer e sofro demais pelos meus familiares e mesmo por quem eu nem conhe\u00e7o\u201d, completa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pacientes esquizofr\u00eanicos regridem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nH\u00e1 dez anos volunt\u00e1ria no Ambulat\u00f3rio de Primeiro Surto Psic\u00f3tico do HC, a psic\u00f3loga e psicanalista Viviane Setti analisa que o modelo de atendimento on-line adotado na pandemia \u00e9 necess\u00e1rio, mas reconhece que parte do p\u00fablico que ela atende regrediu no tratamento nos \u00faltimos meses: ou por n\u00e3o se adaptar \u00e0 terapia on-line ou por perder aspectos de socializa\u00e7\u00e3o do contato direto entre os pr\u00f3prios pacientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A profissional explica que \u00e9 comum pacientes apresentarem um sentimento de persegui\u00e7\u00e3o \u2014 o que se acentua gravemente no atendimento on-line. A maioria tem diagn\u00f3stico de esquizofrenia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cConforme o avan\u00e7o no tratamento, v\u00e1rios desses pacientes marcavam de se encontrar a caminho do atendimento, at\u00e9 come\u00e7arem a vir sozinhos. Alguns regrediram muito e isso \u00e9 terr\u00edvel, embora possa ser manejado\u201d, conclui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sem apoio em casa e nos ambulat\u00f3rios<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA restri\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os presenciais afetou tamb\u00e9m o atendimento nos mais de 30 ambulat\u00f3rios m\u00e9dicos do departamento de psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo). Segundo a diretora dos ambulat\u00f3rios do Instituto de Psiquiatria do HC, a psiquiatra Vanessa Favaro, as consultas ganharam maior espa\u00e7amento, com boa parte delas sendo transferida para a modalidade on-line.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPacientes com quem mant\u00ednhamos maior contato terap\u00eautico t\u00eam mais chances de ang\u00fastia e depress\u00e3o agora. Notamos que v\u00e1rios perderam o apoio que tinham na fam\u00edlia ou suporte financeiro. E este ano h\u00e1 uma tend\u00eancia maior de que isso aconte\u00e7a\u201d, avalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psiquiatra reconhece que, \u00e0 medida que a pandemia n\u00e3o chega a um fim, mesmo as pessoas mais resilientes tendem a ter dificuldades em usar os recursos mentais. \u201cNossa impress\u00e3o \u00e9 que os pacientes t\u00eam aguentado o quanto podem, mas como, ao longo do ano, usaram os recursos mentais que podiam para lidar com a situa\u00e7\u00e3o, tememos a prolifera\u00e7\u00e3o de outros transtornos para o futuro \u00e0 medida que a crise n\u00e3o acabe\u201d, adverte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: CNN Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto n\u00famero de casos de ansiedade e depress\u00e3o aumentam, pacientes com transtornos psiqui\u00e1tricos t\u00eam dificuldade de aderir a assist\u00eancia virtual Uma esp\u00e9cie de \u00e2ncora na chamada \u201cvida normal\u201d \u2014 ou uma boia na qual, no meio de um mar revolto, ela pudesse se manter a salvo do afogamento. 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