EDITORIAL
O vício destruidor das pedras afeta cada vez mais gente, constituindo um dos maiores tormentos para as famílias brasileiras. Agora, a relação entre o consumo de crack e cocaína e a infecção pelo vírus HIV aparece como adicional fator de preocupação. Segundo pesquisa realizada no Recife pelo Centro Aggeu Magalhães, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e apresentada em reportagem do JC no domingo, dia 13, cerca de 5% dos usuários dessas drogas têm aids. O índice é dez vezes o encontrado na população brasileira de 15 a 49 anos de idade. Vale lembrar que o crack só perde para o álcool e o cigarro, nos atendimentos da rede pública de saúde na capital. Levantamento similar feito nos Estados Unidos em 2009 mostrou o mesmo quadro, com números superiores: em Nova Iorque, São Francisco e Miami, a ocorrência do HIV em jovens viciados em crack ultrapassava os 15%. Ou seja, ou agimos já, ou o cenário piora.
O estudo reduz a culpa da contaminação por meio injetável na transmissão da aids entre usuários de drogas. A prática de sexo sem proteção volta a ser alvo de atenção, uma vez que o comportamento de risco do sexo por dinheiro para a aquisição dos entorpecentes aparece com forte evidência: dois terços dos entrevistados jamais usaram preservativo, ou raramente o fazem. E o pior, numa condição física já debilitada pelo vício, o vírus acha o caminho aberto para o enfraquecimento do sistema imunológico. O avanço da droga é um flagelo que se junta à perspectiva de se contrair a doença, tornando ainda mais dramática a situação de indivíduos desprotegidos que carecem de políticas públicas de saúde. A implantação de medidas em caráter emergencial não descarta a assistência contínua necessária à reinserção no ambiente social.
O problema é grave e se espalha rapidamente, solicitando intervenções imediatas, coordenadas entre as várias esferas de governo e integradas em uma estratégia comum. “Tanto o HIV quanto o crack têm uma base social determinante. Combatê-los passa por mudança de valores e comportamentos. Temos que ressignificar a vida”, afirmou à reportagem a pesquisadora Ana Brito, do Centro Aggeu Magalhães. Por sua vez, Francisco Bastos, da Fiocruz, que coordena o desenho de um mapa do consumo de crack nas capitais, condena as políticas meramente repressivas que privilegiam a ação policial, como recentemente verificado em São Paulo. Para Bastos, os governos continuarão a enxugar gelo enquanto não enfrentarem a complexidade da questão.
De fato, o consumo de crack tem gerado efeitos devastadores nas metrópoles, avançando pelo interior dos países. No Brasil, já se detectou a relação entre o aumento do consumo da droga e a ocorrência de homicídios na população até 24 anos. O atraso na adoção de políticas eficazes foi denunciado, no ano passado, pela Confederação Nacional dos Municípios: do montante de R$ 33 milhões que seriam destinados ao combate ao crack em 2011, menos de R$ 5 milhões foram investidos. É a omissão, portanto, que pavimenta a estrada do crack à aids no País.
Fonte: Jornal do Commercio



