Coisa do tempo da vovó, o parto domiciliar está saindo do baú e retomando seu lugar no desejo da mulher moderna. A insatisfação com o excesso de intervenções médicas ou o medo de peregrinar e sofrer nas maternidades faz mães iniciantes e experientes buscarem a alternativa, desprezada por décadas com o avanço da medicina brasileira.
“É uma experiência muito diferente. Não teve corte, não tomei remédio para acelerar as contrações e ainda tive meu marido e meu filho mais velho ao meu lado o tempo todo”, descreve a negociadora de cobrança Renata Araújo, 33 anos, residente no Cordeiro, Zona Oeste do Recife. Ela não esconde a felicidade de ter vivido cada momento da chegada de Alice Vitória. E sente que sua recuperação é mais rápida.
“Minha irmã nasceu às 2h08 do dia 20 de fevereiro”, informa com os mínimos detalhes e uma emoção visível, Jefte, de 12 anos. “Segurei a mão da minha mãe, depois pude cortar o cordão e pegar minha irmã”, relata, impressionado positivamente. O pai, Juarez Silva, também fala com entusiasmo da oportunidade de acompanhar todos os instantes do nascimento da filha. “Na maternidade nada disso seria possível”, compara. Ele observa que no hospital há uma pressão para a mulher parir rapidamente.
Renata foi atendida por um projeto de formação de parteiras urbanas, coordenado pela enfermeira obstétrica Tatiane Frank, do Paraná. Segundo a estudiosa, o curso é o primeiro do País e tem o objetivo de preparar médicos obstetras e de saúde da família, enfermeiros e obstetrizes (nova categoria de profissional de saúde), no Recife, para assistirem o parto domiciliar. A atividade começou no ano passado e garante a assistência antes, durante e depois do nascimento da criança. A formação é dada por especialistas e inclui módulo com parteiras tradicionais, das zonas rural e urbana, inclusive indígena. Tatiane já fazia partos domiciliares no Paraná e tem recebido novos adeptos em Pernambuco, onde, aliás, organizações não governamentais já lutam há tempo pela valorização das parteiras domiciliares.
O parto natural, sem intervenção médica, também é possível em maternidades. No mesmo Instituto de Medicina Integral Fernando Figueira (Imip), no Recife, que enfrenta superlotação e onde mulheres reclamam do desrespeito à lei do acompanhante (fatos citados na primeira reportagem da série), há uma espécie de oásis. Trata-se do Espaço Aconchego, onde as gestantes de baixo risco são assistidas por enfermeiras e podem parir de cócoras. O parto é feito em salas individuais, onde a mulher pode ficar com acompanhante e recebe mínimas intervenções. “A taxa de episiotomia (corte no períneo) chega a zero e não é rotina o uso de medicação para acelerar contrações”, explica Leila Katz, coordenadora do serviço. As gestantes tomam banho com água morna, recebem massagens e fazem exercícios em bolas suíças para aliviar a dor e facilitar a passagem da criança pelo canal de parto. São apenas, no entanto, cinco leitos. “Há uma reforma programada e interesse em adotar o modelo em toda a maternidade”, explica a obstetra. O respeito à Lei do Acompanhante (11.108) na sala de parto e um atendimento humanizado nas maternidades figuram na lista de reivindicações do movimento feminista. Hoje o Fórum de Mulheres vai protocolar carta a prefeitos e vereadores, nas diferentes cidades. Realizará rodas de debates e passeata no Centro do Recife para lembrar direitos violados.
Fonte: Jornal do Commercio



