Christian Natã Duarte, 18 anos, esperou um ano por uma decisão. No início deste mês, vivenciou, enfim, o sabor da primeira conquista de uma árdua batalha que ainda virá pela frente. Começou a frequentar as aulas de medicina da Universidade de Pernambuco (UPE). Da sala de aula, pretende sair um cardiologista. Filho de um torneiro mecânico, o jovem é ex-estudante do Liceu de Artes e Ofícios, uma escola pública estadual, e foi parar na lista de remanejáveis cotistas da instituição estadual. Apesar da façanha, precisou ir à Justiça para realizar o sonho de ser médico.
O estudante passou no vestibular do ano passado depois de cursar parte do ensino fundamental e todo o médio no Liceu. Mas, na hora da matrícula, foi impedido de concluir o processo porque ainda faz o curso técnico de química industrial no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFPE). No entendimento da UPE, para ser cotista, o aluno precisa ser remanescente de escola pública, municipal ou estadual, e não pode estar paralelamente estudando em unidade que não se caracterize nesse formato, como uma unidade particular ou federal. “O manual é claro. O jurídico da universidade vai recorrer da decisão”, explicou o professor Ernani Martins, vice-presidente da Comissão Permanente e Concursos Acadêmicos da UPE.
A partir daí, Christian procurou advogados para solucionar o impasse. “A proibição que conheço é quanto a cursar duas universidades públicas ao mesmo tempo”, destacou a advogada Luana Mergulhão, que acompanhou o caso do jovem. A advogada entrou com um mandado de segurança junto à Vara da Fazenda Pública de Olinda, onde o estudante morava, mas Christian perdeu a primeira batalha. A defesa preparou, então, um recurso de apelação da sentença junto ao TJPE, onde voltaram a ganhar esperança.
No entendimento da corte de desembargadores que julgou o caso, ficou demonstrado que o estudante cursou todo o ensino fundamental e médio no Liceu, o que já garantia sua classificação como cotista. “A sua matrícula e frequência em curso técnico, ainda que em escola federal, em nada alterou a sua formação acadêmica. Ao revés, propiciou ao apelante novas chances de aprendizados e experiências, contribuindo para o seu desenvolvimento intelectual”, aponta um trecho da sentença, cujo relator foi o desembargador Luiz Carlos Figueirêdo. Alimentado pela decisão, Christian renovou as esperanças ao mesmo tempo que tenta terminar, em seis meses, o curso no IFPE.
entrevista >> Christian Natã Duarte, estudante cotista
Fonte: Diario de Pernambuco
“Eu estaria agora no 2º período”
Qual é a sua sensação agora que começou a cursar medicina?
A decisão da Justiça veio na hora certa porque no dia seguinte à sentença acabava o período de matrículas. Mas posso dizer que é uma vitória. Senti até o mesmo gosto que a gente tem quando passa no vestibular.
O que você achou da decisão da UPE sobre o seu caso?
Na verdade, nem sou a favor das cotas. Acho que seria bem melhor aperfeiçoar as escolas públicas para que os alunos tivessem condições de concorrer com os de escolas particulares. Mas nesse caso, terminei prejudicado. Inclusive se tivesse sido aceito antes pela UPE, teria cursado já o primeiro período. Eu estaria agora no segundo período.
Você sente preconceito na sua turma por ser cotista?
A minha turma é formada principalmente por pessoas de classe média e alta, que muitas vezes foram influenciadas pelos familiares, que já são médicos ou têm ligação com a área de saúde. Mas por enquanto não estou tendo problemas. Na verdade, pouca gente sabe que sou cotista. Antes de entrar no curso, até fiquei preocupado pela forma como vim parar aqui, digo, pela Justiça, mas por enquanto está tudo bem.
Medicina é um dos cursos mais concorridos. Por que você escolheu medicina?
É a profissão que sempre almejei. No colégio, sempre me identifiquei com a área de biologia. Agora quero ser cardiologista.



