Verdadeiro teste para cardíaco

Quem tem doença cardiovascular enfrenta dificuldade para receber assistência especializada do SUS perto de casa. Moradores de morros da Zona Sul do Recife, no limite com Jaboatão dos Guararapes, por exemplo, precisam vir ao Centro da cidade, em Santo Amaro, para ter consulta com cardiologista e se submeter a um eletrocardiograma.

As Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da Região Metropolitana, cujas equipes de clínica médica já fazem diagnóstico de infarto e receberam capacitação para aplicação de trombolíticos (remédio que desfaz a obstrução no músculo cardíaco), ainda não dispõem do medicamento, essencial na recuperação imediata do doente conforme recomendação da Sociedade de Cardiologia. Nem todas também têm UTI móvel exclusiva para transferir o paciente a hospital especializado.

“Paguei exame particular com cardiologista para não ter que esperar muito tempo ou ir fazer muito longe”, diz Inalda Lemos, 55 anos, hipertensa e diabética, moradora de Jordão Baixo. É quase vizinha do Posto de Saúde Aristarco de Azevedo, onde recebe remédios básicos para controle da duas doenças. Maria das Graças Pereira, 68, também portadora de pressão alta, tem dificuldade para se deslocar ao Centro do Recife, para consultas com cardiologista no Hospital de Santo Amaro, conveniado à rede municipal. “Tenho que pegar um ônibus para o Barro, de lá pegar o metrô até o Centro e seguir no ônibus PE-15”, diz. A corrida de táxi para atravessar a cidade custa R$ 100, conta, indignada, a neta Ana Glaucia.

Outro morador da mesma região, Edilson Carvalho, diz que espera há dois meses pela marcação de consulta de volta para cardiologista no Pina. “E além de esperar na fila desde a manhã para tentar marcar à tarde, o posto fecha para almoço e todo mundo fica no sol do meio-dia”. Na comunidade a queixa é geral contra agentes de saúde, que têm faltado às visitas domiciliares.

REGISTROS

Problemas circulatórios representam menos de 3% dos atendimentos feitos em UPAs movimentadas, como a da Imbiribeira, gerenciada pelo Ipas Brasil, Ibura e Curado, administradas pelo Tricentenário. Na da Imbiribeira, a coordenadora-geral, Cristiana Melo, afirma que 4.389 eletrocardiogramas foram realizados em 2012 e 116 infartos diagnosticados. São nove a dez casos por mês. Segundo o coordenador médico Marcelo Silveira, o resultado é confirmado por uma equipe de cardiologistas de Salvador, que recebe o exame em tempo real por telemedicina. E antes de ser removido a um hospital de cardiologia, o infartado recebe remédio para diminuir a dor e fluidificar o sangue. A Central de Leitos do Estado é acionada por telefone para providenciar a vaga num dos quatro hospitais de cardiologia. “Compramos UTI móvel para as duas UPAs com recursos próprios, às vezes demora um pouco a transferência porque os hospitais estão cheios”, observa Gil Brasileiro, diretor do Tricentenário.

Sílvia Martins, presidente local da Sociedade Brasileira de Cardiologia, é a favor do acesso referenciado ao Pronto-Socorro Cardiológico (Procape), que começou a funcionar quarta-feira, com a passagem prévia de doentes nas UPAs. “Mas a forma precisa ser cuidadosa, para não deixar de enviar ao hospital o que é importante.” Ela lembra também que a entidade já treinou equipes das UPAs e de hospitais regionais para uso de trombolítico. Segundo ela, cateterismo, implantação de marca-passo e revascularização devem estar disponíveis nos hospitais para não alongar a permanência de doentes nas emergências.

A Secretaria Estadual de Saúde informa que concluiu licitação para reforço de ambulâncias destinadas às 14 UPAs, que devem chegar em até quatro meses. Quanto ao trombolítico para infartados nas UPAs, afirma que já funciona na de Caruaru. A compra para as demais está sendo iniciada.

Fonte: Jornal do Commercio

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