Ora, é cruel acrescentar a essa via crucis uma estação desnecessária. É o que se faz até hoje. A rede pública é obrigada a reconstituir a mama, mas não tem data para concretizar o procedimento. No Distrito Federal, a espera dura, em média, 90 dias. Sabe-se que a burocracia não é movida a compaixão nem prima pela agilidade. A dor das mulheres amputadas parece não lhe dizer respeito.
Doravante, depois da sanção da presidente Dilma Rousseff (que não pode tardar), o drama muda de enredo. O projeto de lei aprovado pelo Congresso na semana passada obriga o Sistema Único de Saúde (SUS) a apressar os passos. As pacientes submetidas à mastectomia têm direito de reconstituir o seio durante o procedimento cirúrgico.
É iniciativa importantíssima, mas não suficiente. O Brasil tem o triste histórico de produzir leis que não pegam. Enriquecê-lo com mais uma não exigirá nenhuma criatividade nem esforço. Faz parte da rotina. Impõe-se, pois, dar consequências ao preceito legal. Os hospitais têm de se preparar com mais profissionais, mais leitos e mais equipamentos.
A fiscalização deve estar atenta. Não só os órgãos governamentais precisam agir com eficiência e eficácia. Também a sociedade organizada não pode negligenciar. Familiares, pacientes, Ministério Público, ONGs têm de fechar o cerco — acompanhar de perto a atuação do SUS e denunciar negligências — comuns quando os olhos da comunidade se desviam e os cidadãos se distraem.
Por sorte, os brasileiros mudaram. Vale um exemplo. A resposta à indicação de Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, da Câmara dos Deputados, tem merecido protestos ruidosos de norte a sul do país. Acusado de racismo e homofobia, o pastor não conseguiu, sequer, abrir os trabalhos da comissão. Apesar da pressão, ele se nega a sair do cargo. A lição, porém, foi aprendida. O antes resignado povo descobriu que é o protagonista da história.
Fonte: Diario de Pernambuco



