Morte de estudante expõe prática ilegal

INVESTIGAÇÃO Overdose de aluno de medicina mostra facilidade de acesso a remédio de uso restrito. Cremepe apura a subtração de medicamentos de hospitais por médicos

A morte do estudante de medicina Paulo Roberto Santos da Costa Cirne Júnior, 29 anos, na manhã de ontem, em Bairro Novo, Olinda, expõe a facilidade no acesso de médicos e universitários a remédios de uso controlado e restrito. O jovem, que cursava o 10º período na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi encontrado morto em seu quarto após uma overdose de midazolam, droga indutora do sono e muito usada como sedativo. Levantamento feito ontem pelo Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) e fornecido ao Jornal do Commercio revela que há 25 procedimentos administrativos em andamento investigando a subtração de medicamentos de hospitais por parte de médicos com algum tipo de patologia.

“São casos em que o médico pega o remédio no próprio hospital no nome de algum paciente, mas quem usa é ele mesmo. Nós investigamos se ele tem alguma doença que possa incapacitá-lo para o exercício de profissão”, explica a presidente do Cremepe, Helena Carneiro Leão. Segundo ela, o primeiro passo é fazer uma relatoria do problema. A fase de instrução vem em seguida. O caso, depois, é submetido a uma junta médica. Por fim, há um julgamento ético que determina se o afastamento do médico será total ou parcial, definitivo ou provisório. No ano passado, cinco casos foram julgados, mas os resultados são sigilosos.

De acordo com o delegado Ednaldo Carvalho, que registrou a ocorrência, o estudante Paulo Roberto Cirne Júnior tinha problemas relacionados a depressão. Em seu quarto, a Polícia Civil encontrou três tubos de midazolam e 15 ml de dormire, medicamentos utilizados como sedativos. Cirne Júnior atuava como residente no Hospital Getúlio Vargas (HGV), no Cordeiro, Zona Oeste do Recife. “É preciso discutir a questão do acesso fácil a essas drogas”, frisou.

“As condições dos médicos e dos universitários são cada vez mais estressantes. Isso se torna um problema mais complexo devido à facilidade no acesso aos remédios de uso restrito. Os medicamentos controlados não são só de responsabilidade do médico. Todo hospital tem que ter um farmacêutico para controlar o que entra e o que sai. Qualquer droga só pode ser dispensada mediante receita. Mas infelizmente não é o que acontece. Recebemos sempre denúncias de que certos medicamentos estão saindo muito. É lamentável o que aconteceu com esse rapaz”, pondera Helena.

O presidente do Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), Mário Jorge Lobo, concorda: “Quem prescreve medicamento é o profissional médico. Quem dispensa medicamento é o farmacêutico. O estudante não deve ter acesso a isso na rotina normal de nenhuma unidade hospitalar”.

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) conta com um Núcleo de Atenção à Saúde do Médico, em parceria com universidades locais. O Cremepe tentou algo parecido, mas não conseguiu fechar convênio com nenhuma instituição de ensino de Pernambuco. O Simepe, por sua vez, lançou a campanha Cuidar do Cuidador, voltada para a saúde dos profissionais de saúde “submetidos a uma jornada extensa e a condições precárias de trabalho”.

ESTUDO

Pesquisa realizada com 382 formandos da área de saúde da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade de Pernambuco (UPE) e publicada nos Cadernos de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que, entre os homens, 37,1% consumiam drogas inalantes, 61,2% faziam uso de cigarro e 91,4% bebiam. No caso das mulheres, 48,9% fumavam, 79,7% eram usuárias de bebida alcoólica e 15,4% utilizavam inalantes. Os estudantes reclamavam da rotina pesada e afirmaram que usavam as drogas, lícitas e ilícitas, para ficar fora da realidade.

Fonte: Jornal do Commercio

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