O descaso do governo pela saúde

Renata Bezerra

Médica

Sou afortunada por não ter tido um minuto de dúvida sobre a escolha de minha profissão (o que teria sido normal, por ter entrado na faculdade ainda jovem). Hoje, continuo me orgulhando de SER MÉDICA, assim mesmo, em maiúsculas! O que me decepciona é como somos tratados pelo dito “sistema”, que nos obriga a trabalhar em condições inumanas. O que me decepciona é ouvir, desde que entrei na faculdade que a saúde seria tratada no país como um bem de todos e até hoje não ter visto isso acontecer. O que me decepciona é a forma degradante como os pacientes (especialmente do SUS) são tratados. O que me decepciona é os governos, sucessivamente, tratarem a SAÚDE como um bem para eleições e não como um Direito de Todos e Dever do Estado! Está na Constituição, não “inventamos” nada! O que me decepciona é ver políticos irresponsáveis, que não conseguem estabelecer Políticas de Saúde ao invés de Programas… Ouvir que não há recursos, quando sabemos que as verbas destinadas ao SUS estão congeladas há mais de 10 anos? Ouvir que não há material humano multiprofissional NACIONAL suficiente?

Entendo que esteja na hora de parar de se “criar” pseudofaculdades” de Saúde – que formam pseudoprofissionais – e partir para qualificar adequadamente os profissionais já formados ou em formação. Estabelecer benefícios para que possa haver atrativos na interiorização da saúde. Enfim, parar com a falácia de que não dinheiro! Essa não “cola” mais! Hoje tenho vinte anos de formada e uma das minhas preocupações é como serei tratada quando estiver mais velha. Porque se considerarmos a história natural, o cenário futuro é nefasto.

O Art. 1º da Constituição (1988) diz que A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. Não custa lembrar! Posso falar com tranquilidade, pois votei, à exceção de nossa atual “presidenta”, em todos os candidatos anteriores do partido que se apoderou do poder. Sinto-me traída, pois eles pecaram onde jamais poderiam tê-lo feito: na ÉTICA!

Ser médico significa que se pode ganhar dinheiro honestamente? Sem dúvidas! Mas ser MÉDICO é, acima de tudo, ser ético, ter compaixão, simpatia pelo sofrimento alheio, enfim, manter em mente o principio latino: primum non nocere.

Vamos batalhar para mostrar que somos e que podemos ser melhores. Vamos fazer valer quem somos, como classe e de forma multiprofissional! Precisamos estar juntos, porque, volto a dizer: ATITUDE CONTAGIA! Que possamos ser infectados com o vírus da mudança e do inconformismo, e não só os mais antigos, mas especialmente os que estão começando nessa jornada dura, mas absolutamente gratificante!! Vamos à luta! É possível!!! Entrei na Faculdade de Medicina de Pernambuco (UFPE), aos 16 anos. Formei-me aos 22 e logo a seguir comecei a fazer residência médica (quatro anos).

Depois mestrado, MBA, vários cursos de Educação Continuada e Especializações, assinaturas de revistas eletrônicas (certa saudade dos periódicos de papel), para me manter atualizada. Comecei a ensinar em 1995, na UFPE, a convite de meus preceptores. Continuo a fazê-lo até hoje, só que na Faculdade Pernambucana de Saúde (outra paixão além da prática médica é o ensino).

Fonte: Diario de Pernambuco

 

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