A filha de Débora da Conceição, 25 anos, tem 21 dias. Nasceu no Hospital Agamenon Magalhães, no Recife, de parto normal. Débora se lembra das palavras da médica no dia do nascimento do terceiro filho: “Ela mandou eu parar de fazer escândalo porque uma mulher como eu, já com filho, não precisava gritar. Aquelas palavras me machucaram”, lembrou a dona de casa. A violência obstétrica é um dos problemas observados em unidades de saúde pelo Comitê de Estudos da Mortalidade Materna de Pernambuco.
Ontem, integrantes do grupo apresentaram um estudo apontando os vários tipos de sofrimentos vividos pelas mulheres no pré e pós-parto. Das sete unidades visitadas na Região Metropolitana do Recife (RMR) desde abril, a pior situação foi encontrada no Hospital Tricentenário, em Olinda. A fiscalização localizou mulheres sem comer por até 12 horas, banheiros imundos – sem tampa nas bacias sanitárias, entupidos e com lodo nos chuveiros, além de espaços sem ventilação, um berço para dividir entre três mulheres e ausência de colchões.
“Elas dormem com os bebês nas camas e como o berço não tem colchão, colocam travesseiros”, informou Paula Viana, do Curumim. O Comitê vai convocar a Vigilância Sanitária para visitar a unidade, que é filantrópica e está sob gestão do município. O Tricentenário está em segundo lugar em número de partos no estado, atrás apenas do Imip, no Recife.
O comitê também constatou que as camas de parto vertical existem em todos os serviços, mas estão sem uso. “Acreditamos que são descartadas pelos obstetras por não serem confortáveis para eles”, comentou Simone Diniz, do Conselho Regional de Enfermagem (Coren).
Na Maternidade Barros Lima, no Recife, uma cama de parto está quebrada há cerca de um ano e o profissional é obrigado a segurar a perna da gestante para ela não despencar, diz o relatório. No Imip, também na capital, bolas suíças, que podem ser usadas pela trazer mais conforto à mulher no processo do parto, estão servindo de decoração, denunciou o comitê.
A superlotação também foi observada em cinco das sete unidades visitadas: Imip, Barão de Lucena, Cisam, Barros Lima e Tricentenário. “As mulheres não estão parindo perto de casa. Elas são levadas para onde há vaga. Peregrinam em até duas unidades porque nos municípios onde vivem não há profissionais para atender. Muitas vezes isso as transforma em mulheres com gestação de risco. Olinda, Paulista e Jaboatão exportam até 65% de suas gestantes para o Recife”, acrescentou a médica sanitarista Sandra Valongueiro.
Em meio à superlotação, acompanhantes são proibidos de assistir ao parto, apesar da Lei do Acompanhante existir desde 2005, e mulheres recebem o hormônio ocitocina para acelerar as contrações. A cesariana é outra alternativa para apressar o parto, dizem as integrantes do comitê. “Tinha nove centímetros de dilatação, mas eles fizeram uma cesariana. Depois tive uma infecção no corte”, lembrou Paula Quitéria, 18, mãe de um bebê com dois meses nascido na Barros Lima.
As denúncias serão encaminhadas para o Ministério Público de Pernambuco, ouvidoria do SUS, Cremepe, I Geres e Secretaria Estadual de Saúde. “Temos recursos públicos, protocolos prontos, mas falta vontade política para resolver o problema. Não bastam apenas reformas. É preciso capacitação das equipe, preocupação dos municípios e educação da população”, finalizou Sandra Valongueiro.
Saiba mais
Mortalidade materna em Pernambuco (2011)
68,7 a cada 100 mil mulheres
2012 (preliminar)
47,5 a cada 100 mil mulheres
No Brasil (2011)
64 mortes a cada 100 mil mulheres
Unidades visitadas:
– Maternidade Barros Lima, Recife
– Hospital de Maternidade Tricentenário, Olinda
– Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), Recife
– Hospital João Murilo, Vitória de Santo Antão
– Hospital Barão de Lucena, Recife
– Imip, Recife
– Hospital das Clínicas, Recife
Fonte: Diario de Pernambuco



