Os “chuveirões” mantidos pelos barraqueiros de Boa Viagem são considerados uma opção segura de banho pelos frequentadores que temem ataques de tubarão. Mas por trás dessa sensação há um grave problema: a contaminação da água. Uma pesquisa do Departamento de Engenharia Química da UFPE apontou a presença de coliformes fecais (E.Coli) e substâncias associadas à urina em mangueiras e chuveiros instalados ao longo de 3,4 km de orla na Zona Sul. Em uma das amostras analisadas, a presença de E.Coli chegou a ultrapassar duas mil vezes o permitido por lei.
A pesquisa apontou a existência de 78 equipamentos de banho em um trecho de 7,4 km de orla entre as praias de Piedade, em Jaboatão, e do Pina, no Recife. Todos eles puxam água do lençol freático e acumulam em poços. Desses 78 identificados, 10 chuveiros localizados em Boa Viagem tiveram a qualidade da água analisada.
“O chuveiro atrai freguês. O meu tem nove metros de profundidade e, em um fim de semana, atende mais de 200 pessoas – meus clientes e os de outras barracas”, contou o barraqueiro Iranildo Araújo, 46 anos. A última vez que a mangueira dele passou por uma fiscalização foi há cerca de quatro anos. Desde então, só as limpezas semestrais improvisadas.
Os pesquisadores coletaram duas amostras de 100 ml e 1 litro de cada um dos 10 chuveiros, escolhidos por critério de tempo de construção (9 a 30 anos) e profundidade do poço (cinco a oito metros). Em seis pontos, havia coliformes fecais.
Também havia presença de vestígios de detergente, que podem ser oriundos das lavagens de utensílios usados para servir os banhistas. “A água tem um gostinho doce, deve ser mais limpa do que a do mar”, arrisca uma banhista de 18 anos. “A água hoje infiltra e volta para o cano. É um ciclo vicioso de coliformes. A areia da praia não filtra nada”, explica a professora de engenharia química da UFPE e orientadora da pesquisa, Silvana Calado.
A contaminação está associada a várias doenças. “Uma solução seria utilizar tubulação da Compesa para puxar água ou fazer esgotamento”, pontua a estudante de química Ana Lúcia de Castro.
O grupo de pesquisa procurou a Prefeitura do Recife, a CPRH, a Vigilância Sanitária e a Apac, mas nenhum dos órgãos assumiu responsabilidade pelo manejo e fiscalização da qualidade da água dos chuveiros de Boa Viagem. Mais duas amostras serão coletadas para análise até o fim do ano, para achar os motivos da contaminação. O Diario entrou em contato com a prefeitura, mas não obteve retorno.
Fonte: Diario de Pernambuco



