Refletindo a partir dos fatos

Lia Giraldo da Silva Augusto

Entre o discurso e a prática, diz o dito popular, há uma enorme distância. A liderança que atuou pela reforma sanitária brasileira e que ascendeu ao poder é também responsável pelas derrotas que este importante projeto social transformador tem amargado. E isto sim, é uma grande traição! Um exemplo desse descaminho é o processo acelerado de privatização do SUS nos últimos anos. Um risco que era previsível, mas que pela conveniência corporativa recebeu muito pouca resistência dos “gestores de plantão”. A integralidade das ações de saúde sucumbiu ao velho modelo medicalizante. Eliminou-se a crítica e promoveu-se o adesismo à chapa branca. Aliás, este tem sido o pecado da esquerda, que abandonou o compromisso ao movimento social e aderiu avidamente ao poder, não para aprofundar as reformas necessárias, mas para atender ao fisiologismo político e partidário. Métodos escusos de gestão tornaram-se normal no espaço público.

Assim, tenho que refletir a partir do meu trabalho na esfera pública. Sou testemunha de casos emblemáticos que ilustram esse abandono, apesar do esforço cotidiano que se faz na ponta do sistema, para enfrentar esses descaminhos. A prática de “dois pesos e duas medidas” é a grande questão. Quando é o “outro”, se é contra, quando é da turma, justifica-se. Modelos inconciliáveis para tratar o desenvolvimento da agricultura, o meio ambiente, a segurança nutricional e a saúde coabitam ambiguamente. Por exemplo, dentro do governo atual se tem dois ministérios para a agricultura, um gordo, que apoia o agronegócio (Mapa) e outro, magro, para as questões da agricultura familiar (MDA).

Esta situação é promotora de profundas injustiças sociais e implica em jogar fora princípios, inclusive éticos, fundamentais para a sustentabilidade do verdadeiro desenvolvimento social da população brasileira. Temos testemunhado a pressão da bancada ruralista sobre o governo (não esqueçamos o tratoraço em Brasília) e que nesta eleição se tornou ainda mais forte. É muito preocupante a busca pela desregulação da legislação para favorecer o modelo de agricultura químico dependente, energético intensivo, expropriador de terra, promotor de enormes danos ambientais e para a saúde, trazendo a violência e a pobreza. Uma das implicações socioambientais desse modelo pode ser aqui analisada: sabemos que para abastecer toda a humanidade com água potável, estima-se serem necessários 65 quilômetros cúbicos por ano.

No entanto, cada safra de soja exportada pelo Brasil, para a China, consome 45 km³ de água por ano. Pergunta-se: quem lucra? É certo que são os magnatas da soja. Quem paga a conta ambiental e social? É certo que é o povo brasileiro. O subsídio não é declarado e o custo socioambiental não é internalizado. Em Mato Grosso, até a água da chuva está contaminada por agrotóxicos, conforme estudos da Fiocruz e da UFMT. Outro grande problema dessa política trazida do “sindicalismo de resultados” está na saúde pública. Por exemplo, a questão da dengue.

Apesar de todas as demonstrações de ineficácia dos modelos oficiais para seu controle, o governo sustenta a ferro e fogo a utilização de venenos, gastando em todos estes anos bilhões de reais em inseticidas e larvicidas para o controle dos mosquitos sem resultados efetivos, quando, na verdade, o problema é de saneamento ambiental, educação e atenção integral à saúde. Dados recentes do IBGE nos indicam a falta de saneamento e ainda o analfabetismo. Resta perguntar: quando as reformas de base vão ocorrer? Como promovê-las? Temos que cobrar por estas políticas.

» Lia Giraldo da Silva Augusto é médica sanitarista, pesquisadora em saúde ambiental da Fiocruz e professora da UPE

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