Conheci-o na Universidade. Dois anos mais adiantado. Descendente de classe média baixa do interior do Maranhão. José Coimbra, rapaz alto, moreno claro, fazia sucesso com o mulherio. Estudioso, passava por média em todas as matérias. Uma vez formado, decidiu fazer residência em ginecologia no Hospital das Clínicas em São Paulo. Quando de seu retorno, o Inamps abrira concurso para o quadro de médicos. Foi aprovado em primeiro lugar. Casou com uma namorada da adolescência, também maranhense. Duas filhas cedo fizeram parte da família. Como o tempo passa rápido sem nos apercebermos! A danada de velhice chegando. Sua carreira profissional não transcorreu como imaginara. Como a maioria dos colegas, sabia bem cuidar dos outros, e mal cuidar de si próprio. Principalmente da parte econômica. As oportunidades que lhe restavam para fazer um bom concurso, garantidor de estabilidade financeira, eram praticamente nenhuma. Pagam uma miséria aos concursados em medicina. Para complicar, outros imprevistos surgiram. Suas duas filhas casadas, e com duas filhas cada uma, se divorciaram e foram morar aonde? Imaginem… Acertaram em cheio. Minha família de repente aumentou para oito pessoas. Elas, minhas filhas, despreparadas, desempregadas, sem auxílio adequado dos ex-maridos. O vovô, septuagenário, cansado de guerra, teve que se virar para garantir o sustento. A clientela particular era coisa do passado com diminuição acentuada da receita. Dois fatores contribuíram para a mudança: primeiro a idade – com o envelhecer, a clientela vai minguando, segundo, os convênios que se multiplicam aos montes, cobrando caro aos associados, empobrecendo a qualidade da assistência médica e pagando um preço aviltante por consulta. Vendo-se em dificuldade, que lhe restou? Dar plantão. O coitado, fraco das pernas, enfrenta três plantões semanais de 24 horas. – “Você está louco, José? Não tem mais condições de saúde para enfrentar uma barra dessa natureza”, adverti. – “O que vou fazer, meu amigo? Não tenho muita opção, ou nenhuma, seria melhor dizer. Quando era jovem, em plena atividade e ganhando bem, era mão aberta, gastador compulsivo. Não pensava no futuro. Não imaginava que um dia envelheceria. Não fiz as devidas poupanças e os investimentos corretos para o futuro. E deu no que deu”. Na sua fisionomia e palavras, sinais de tristeza e arrependimento. – “Mas você, pelo menos, tem uma ajuda especial: a aposentadoria do Ministério da Saúde”. Sua reação foi inesperada. Misto de revolta e passividade. – “Você não acredita, meu amigo. Trabalhei 30 anos como médico do Inamps e entrei na compulsória, melhor dizendo: na expulsória, com a idade de 60 anos. Sabe qual é meu salário básico? R$ 2,803,05”. – “É brincadeira…” – “Parece inacreditável, mas é verdade. Lembra um desatino kafkiano”. Sentindo que eu continuava incrédulo, José pediu licença e foi buscar uma comprovação. Demorou um pouco. Volta com um contra-cheque. Comprovei o contra-senso. Após três décadas de dedicação recebe um salário líquido de R$ 4.179.27, somado o anuênio de 744.28 – art. 244, lei 8112/90 AP – e a diferença individual de 738.46 – lei 12998 – e os descontos de Sindsprev e Imposto de Renda. Inacreditável! – “Para que serve toda essa recompensa? Mil reais semanais para sustentar uma família de oito membros. Principalmente agora com inflação botando a crista de fora. Tenho que partir para o sacrifício consciente…”. Esse drama serve de exemplo para as novas gerações. Que façam suas próprias aposentadorias, não gastando desnecessariamente e aplicando de maneira correta. Esse desprezo pelos aposentados não se restringe aos médicos. É generalizado. Eles já foram até taxados de vagabundos. Os aumentos anuais são desprezíveis, quando existentes. O governo central, por razões óbvias, mais se preocupa em ajudar, com bolsas de toda espécie, aos que não trabalham do que aos que trabalharam com desgaste das energias vitais. Quando mais necessitam, são esquecidos, vilipendiados.
Fonte: Jornal do Commercio



