Por uma medicina de qualidade

A Academia Pernambucana de Medicina completa 45 anos em 2015. Fundada pelo professor Fernando Figueira, a instituição se consolidou ao longo dos anos como a casa da nata do saber médico do estado. Atualmente, é presidida por Edmundo Machado Ferraz, que em dezembro do ano passado foi homenageado com o título de professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Reconhecido internacionalmente pelo trabalho científico desenvolvido, o presidente da APM foi o fundador do curso de doutorado em medicina da UFPE, ex-diretor do Hospital das Clínicas, membro titular e fundador da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, consultor da Organização Mundial de Saúde e do Ministério da Saúde, entre outros cargos. Na década de 1990, foi ainda o primeiro médico do Norte e Nordeste a realizar uma cirurgia bariátrica. Em entrevista ao Diario, Edmundo Ferraz fala sobre obesidade, a qualidade e o acesso à saúde no Brasil, a expansão dos cursos de medicina e atesta: a falta de recursos é hoje o grande entrave do SUS, resultando em deterioração total do sistema brasileiro.

“Não há condições de tratar o paciente”

No Brasil, existem atualmente 248 cursos de medicina. Só entre 2011 e 2014, foram abertas mais de 60 novas graduações na área. Em Pernambuco, nos últimos três anos, a quantidade de cursos médicos aumentou em um terço. O mercado crescente significa melhora no sistema de saúde?
A Academia Pernambucana de Medicina tem mais de 40 anos de atividade e sempre foi uma instituição com grande preocupação no ensino da saúde. A  área está sofrendo uma falta de qualidade na implantação de serviços e instituições. A gente observa todo dia o crescimento enorme de hospitais e de outras instituições de saúde que não funcionam porque não foram preparadas antes de serem inauguradas. O crescimento dos hospitais em Pernambuco foi enorme, mas sem qualidade. A gente vê hospitais que não têm a menor condição de tratar doente grave. O indivíduo que mora no Sertão tem que ser removido, não tem condições de ser tratado em uma cidade pequena, sobretudo de doenças de evolução rápida, acidentes automobilísticos. Isso leva a uma migração em massa de pacientes para o Recife, para serem minimamente tratados.

O senhor foi diretor-superintendente do Hospital das Clínicas, unidade universitária de saúde da UFPE. Como analisa a atual situação dos hospitais universitários?
Há um colapso nos hospitais universitários. Da fundação do HC para hoje, houve uma deterioração do setor público, que está se acentuando particularmente nos últimos quatro anos. Acontece por causa da má gestão, da incapacidade de gerir os problemas técnicos nas áreas de engenharia, fármacia… Em todas as atividades que lidam com saúde. E não é só a falta de investimento, é a falta de conhecimento. São pessoas que não conhecem o que estão fazendo e, por motivos políticos, são arroladas para certas regiões para serem responsáveis pela saúde e isso é um desastre. Isso acontece não só em Pernambuco, mas no Brasil inteiro.

A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), vinculada ao Ministério da Educação, foi criada para coordenar o programa de reestruturação dos hospitais universitários brasileiros. Dentre as unidades geridas por ela, está o Hospital das Clínicas da UFPE. A entrada da Ebserh pode significar uma mudança qualitativa na unidade?
Esse é um quadro muito tumultuado. A Ebserh é uma entidade criada para resolver a burocracia da demora do atendimento, das licitações, questões próprias do setor público. Mas os recursos desapareceram, como aconteceu nos outros setores do Brasil inteiro. Quando ela chegou no HC, fez uma série de incursões na estrutura no hospital, mas isso durou poucos meses, porque o governo não consegue jogar recursos. Então, aquela missão de recuperar os hospitais universitários não está sendo cumprida. O HC deu uma melhorada, recebeu equipamentos, deu esperança em período curto e hoje não dá mais. Isso mostra o quanto o sistema público de saúde está em falência técnica, de incentivo fiscal e de recursos financeiros. É uma situação que não vi nessa mesma intensidade em meus 40 anos de trabalho.

O programa Mais Médicos foi criado pelo governo federal com a missão de investir em infraestrutura e profissionais para qualificar o Sistema Único de Saúde, resolvendo sobretudo a questão do acesso aos serviços básicos. Então, seria ele capaz de reverter  a atual situação da saúde pública brasileira?
Isso era uma grande esperança quando surgiu, mas não há financiamento. O dinheiro que se tinha imaginado para esse objetivo deixou de ser aplicado. Com falta de recurso, não se mantém o que já tava feito nem se cria absolutamente nada. Se você percorrer o país inteiro, o cenário é o mesmo. Não há condições de tratar o paciente. Pernambuco, apesar de ser um estado pequeno, tinha uma estrutura bem razoável e nem isso tem mais. Não há condições de operar uma apendicite aguda em 90% dos municípios do estado. Uma operação resolvida em meia hora. Isso se repete até em São Paulo, um estado rico, mas que viu o setor público ter uma quebra vertiginosa.

Metade dos brasileiros está acima do peso e quase 20% destes estão obesos. O senhor foi o primeiro médico a realizar uma cirurgia bariátrica no Norte e Nordeste do país, ainda nos anos 1990. Por que a obesidade permanece preocupando tanto os médicos?
A obesidade é um dos desvios que acontece com o progresso. Antigamente, só ficava gordo quem era rico, hoje em dia não tem mais essa. A obesidade é uma endemia que ocorreu no mundo inteiro. Quando ela começou no Brasil, eram casos menos frequentes. Depois que operei o primeiro paciente, no HC, veio uma enxurrada de doente que a gente nem imaginava existir. A obesidade é um problema sério, é uma situação de tratamento muito difícil. Cansei de ter pacientes com 300 kg que, depois da cirurgia, diminuíam para 70kg, mas voltavam a engordar cerca de dois anos após o procedimento. Eles ficam na faixa dos 100kg, o que para uma pessoa de até 1,70 metro é uma calamidade. Um superobeso dificilmente chega aos 60 anos.  Ele morre de hipertensão, de cardiopatias.

Um dos termos mais ressaltados quando se fala em medicina atualmente é a humanização. Para o senhor, o que contribuiu ao longo dos anos para o distanciamento dos médicos com os pacientes?
Isso é problema sério, o que acontece é que a preparação do médico mudou muito nos últimos anos, ele tem que correr muito para preencher os empregos que tem e tratar a demanda de pacientes, que também aumentou muito. Isso gera má qualidade do atendimento. Nenhum estudante de medicina sai da graduação em condições de tratar ninguém, isso ele obtém na residência médica. Além do contexto da sociedade atual, onde todo mundo quer se dar bem. O estudante, sobretudo se ele for de família mais pobre, vai querer uma qualidade de vida melhor. Então, nem sempre ele pode se dedicar a uma residência.

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Academia Pernambucana de Medicina

Criada em 17 de dezembro de 1970, pelo professor Fernando Figueira

Localizada atualmente no Memorial da Medicina de Pernambuco

Ex-presidentes:

Fernando Jorge Simão dos Santos Figueira (1970 – 1998)

Salomão Kelner (1998 – 2000)

Bertoldo Kruse Grande de Arruda (03/2000 – 12/2000)

Geraldo José Marques Pereira (2000 – 12/2012)

Edmundo Machado Ferraz (2013 – em exercício)

Fonte: Diario de Pernambuco

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