A criança, o Imip, o Brasil

“Enquanto houver na minha terra uma criança ameaçada de perder o que ela tem de mais sagrado, a vida haveis de encontrar em mim um homem torturado” (Fernando Figueira). Essa é a frase que não pode sair do pensamento de um país. Tenho uma filha Professora de Educação Básica em São Paulo, sempre desencantada com a profissão, mas digo que Pediatras e Professores formam uma Pátria, e mesmo com todas as dificuldades temos que nos dedicar a essa causa.

A criança na historia do mundo sempre foi uma sacrificada. Apesar de no Código de Hamurabi (1730/1865 aC) encontrarmos as primeiras leis de proteção à infância pela instituição do pagamento de pensão a mães viúvas e abandonadas e obrigando a amamentação, vemos nos espartanos a busca da eugenia, só aceitando os recém-nascidos que sobrevivessem a um banho gelado.

A Lei das Doze Tábuas (Duodecim Tabulae – 450 aC), origem do Direito Romano expõe na Tabua IV o pátrio poder onde o pai tinha o direito de matar ou vender filhos. Recém-nascido com má formação era sacrificado com o testemunho de cinco vizinhos.
A mortalidade infantil atingia índices alarmantes e para se ter uma ideia, na era cristã em 787 foi criado em Milão o primeiro asilo para crianças abandonadas. Em 856 em Nápoles das 856 crianças recolhidas 853 morreram.

A criança brasileira começou a ser torturada já nas embarcações portuguesas pois acima de nove anos eram consideradas aptas ao trabalho e a mortalidade nas viagens para o Brasil atingia 39%. Meninas de 12 a 16 anos já eram abusadas.

José Bonifácio de Andrada e Silva mentor da independência do Brasil foi o primeiro a criar lei de proteção à maternidade escrava proibindo trabalhos forçados após terceiro mês da gestação e permitindo 30 dias de convalescença e um ano de trabalho perto da criança para que pudesse amamenta-la.

Em 1788 cria-se no Rio de Janeiro a Roda dos Expostos e tivemos também a nossa no Recife (Rua da Roda) para receber crianças abandonadas. Mortalidade altíssima.
Em 1865 a Puericultura é reconhecida como Ciência e em 1884 na Alemanha Otto Heubner Jr torna-se o primeiro professor de pediatria. No Brasil, Carlos Arthur Moncorvo (pai e filho) aprendendo na Alemanha ensinam no Rio de Janeiro essa ciência aos Professores Fernandes Figueira, Luiz Pedro Barbosa, Pedro de Alcântara, Cesar Pernetta. Luiz Torres Barbosa (filho de Luiz Pedro) fundou a Residência Médica no Brasil no Hospital dos Servidores do Estado (RJ) para onde fui e voltei para ser assistente na Faculdade de Ciências Médicas, do Prof. Fernando Figueira que foi aluno de Pedro de Alcântara em São Paulo e voltou em 1957 para ser Professor no Recife, onde antes João Rodrigues, Armando Meira Lins e Antonio Figueira brilhavam como médicos e formadores de Pediatras.

Fernando Figueira criou essa instituição chamada Imip em 1960 (originariamente Instituto de Medicina Infantil de Pernambuco) a quem todo o Brasil deve reverências, sobretudo o povo pernambucano nesses 55 anos de existência.

Verdadeira guardiã da criança brasileira que continua sendo apesar de tudo tão mal educada e tão mal tratada. Não se pode esquecer as palavras do Professor Fernando Figueira, nem ficar insensível a essa insanidade.

Fonte: Diario de Pernambuco

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