Quando a saúde fica ainda mais distante

Ir ao encontro de um médico tem sido uma experiência cada vez mais difícil para os pacientes que vivem no Interior. As estruturas oferecidas pelos municípios têm sofrido cortes atribuídos à época difícil na economia do País. Veículos do Tratamento Fora do Domicílio (TFD), que fazem o transporte até os hospitais situados no Recife, têm feito menos viagens, segundo moradores de algumas cidades do Agreste e do Sertão. Em algumas localidades, para fazer o agendamento, são até dois meses de espera. Quando o percurso acontece, sobra o alívio por conseguir uma vaga, mas falta conforto. Os usuários têm de levantar da cama cedo, às 2h, 3h. Além da demora da consulta, há a espera de até oito horas para voltar para casa e a certeza de que outros dias sem a assistência adequada virão até o fim do tratamento. Para a dona de casa Josefa Maria da Silva, de 59 anos, sempre foi assim. A falta de remédios e de transporte em condições de atendê-la plenamente são algumas dificuldades enfrentadas para dar apoio ao esposo, internado no Recife. Três vezes por semana, ela segue de Palmares, na Mata Sul do Estado, até o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) para ver o companheiro, submetido a uma cirurgia no sistema digestivo. “Não é fácil vir para cá e passar o dia inteiro, toda semana”, desabafa. Para a professora Edjane Silva, 40, essa, de fato, é a pior parte, ainda mais para o pai idoso. “Se tivesse mais transporte, não precisava a gente esperar todo mundo voltar dos hospitais para sair no fim da tarde, porque tem gente que consegue terminar as consultas cedo. É bem cansativo”, relata, enquanto espera sentada pelo ônibus para Chã de Alegria na Praça Miguel de Cervantes, na Ilha do Leite. “Mas ainda bem que temos, ao menos, esse jeito de chegar aqui”, completa. Os pacientes sabem que, se perderem o transporte, terão que tirar do próprio bolso o dinheiro para o trajeto. Pior é quando ele quebra no meio do caminho. “A gente precisava vir para cá de todo jeito, mas agora, como o ônibus não está funcionando, vou ter que falar com o motorista de Palmares para ver se ele nos leva e, de lá, a gente segue para Joaquim Nabuco. Senão vamos ter que ver um jeito de ficar aqui”, afirmou a doméstica Cleonice Ângela da Silva, 43, ao lado do marido, que se dirige à Capital duas vezes por mês para um tratamento psiquiátrico. “As condições são precárias, e quando algo dá errado, a gente fica sem assistência nenhuma”, endossou o aposentado José Soares, 41. Para a dona de casa Maria Mônica de Souza, 19, qualquer quantia desembolsada em busca do conforto para os males de uma enfermidade é difícil de encaixar no orçamento. O deslocamento entre Canhotinho, no Agreste, e a Capital dura três horas. “É um serviço essencial para a gente, de um jeito ou de outro. É a terceira vez que trago ela até aqui”, declara, se referindo à filha de apenas dois anos, que é surda.

CONTAS APERTADAS

“Estamos fazendo milagre com pouco”. É assim que a prefeita de São Bento do Una, Débora Almeida, que é secretária da Mulher da Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe), define a situação do orçamento das cidades, especialmente as do Interior. Ela reconhece os problemas citados pela população local, mas diz que os gestores têm buscado alternativas para não deixar a saúde ser afetada pelo lençol curto da crise. “É a área em que mais houve diminuição de repasses. Muitos prefeitos estão com dificuldades para manter ambulâncias funcionando. Há casos em que o transporte, em vez de ir aos polos médicos os cinco dias da semana, está indo três. A gente sabe que isso é ruim para a população, porque o dia desse deslocamento é de acordo com consultas, que não são marcadas quando a gente quer”, detalha. Para manter as estruturas situadas nos municípios, a dificuldade também tem sido grande. A palavra de ordem, para a prefeita, tem sido prioridade. “O repasse não cobre todas as despesas, principalmente quando a gente tem um posto de saúde da família que custa R$ 500 mil, mas que só recebe R$ 82 mil, fazendo com que seja preciso usar recursos próprios. A gente tem feito mágica, tem buscado priorizar”, completa Débora.

Fonte: Folha de Pernambuco

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