Por circunstâncias da vida, nunca trabalhei no Imip. Em certa ocasião, até cheguei a considerar essa possibilidade, ao tomar conhecimento mais detalhado do seu projeto de assistência e ensino. Não foi possível, diante de compromissos previamente assumidos. Fiquei assistindo e, indiretamente, vibrando com as conquistas e principalmente com a qualidade do serviço prestado. A estrutura montada, as equipes, o modelo de assistência e, em especial, o produto final entregue a população mais pobre, se constituíram um patrimônio do estado de Pernambuco e como tal precisa ser tratado. Não se faz uma obra como o Imip do dia para a noite, mas bem que é possível destruí-lo em uma só canetada.
Estamos cansados de saber que a crise atual é profunda. Não pode ser ignorada, assim como não se deve ignorar o drama dos imigrantes naufragando no Mediterrâneo. A sociedade pode estar certa de que os nossos refugiados sociais estão também naufragando nas filas para atendimento, nas UPAs e, pasmem, dentro dos hospitais. Estamos assistindo a preocupação do mundo com a crise dos imigrantes. Aqui, não vemos nenhuma reação proporcional à catástrofe humana que se passa no atendimento a saúde, bem embaixo do nosso nariz. Saiba o gestor que o corte de verbas para saúde implica diretamente em mortes.
No “meu” hospital público também vi agora o que nunca vira, com carências inimagináveis em outros tempos magros. O posicionamento dos médicos na enfermaria e dos gestores é de não ceder ao aperto financeiro e sim pressionar, constranger, pedir favor, se cotizar, mas jamais achar que faltar heparina para quem tem trombose é uma consequência natural da crise, antibiótico para septicemia, que é normal faltar recurso diagnóstico para quem precisa saber a doença que tem.
Costumo fazer uma analogia para motivar os estudantes de medicina e médicos residentes com os quais trabalho diariamente. Peço para imaginarem que estamos fazendo um filme sobre os horrores que vivemos. Comparo com os filmes que retrataram o nazismo. No filme atual, cada um de nós teria um papel. Eu não seria Hitler, estou certo disso, mas preciso ter cuidado para não assumir o papel do soldado que por acaso estava do lado forte e que, mesmo não sendo responsável pela ordem de matança, maltratava os judeus, empurrava para o forno, dava uma coronhada gratuita ou se omitia. Procuro estimular que cada um faça a sua lista, todo dia, como Schindler e mesmo diante das dificuldades se esforce para salvar vidas, tanto quanto possível.
Quando vejo o que ocorre no Imip e nos hospitais públicos, exacerbo a intolerância para com os que desperdiçam dinheiro público, desviam, roubam, fazem propaganda e shows. São hediondos. Não tomam consciência do poder que têm e que milhares de vidas estão em jogo a partir de sua decisão administrativa. Parece que preferem pensar na sua carreira política, sem preocupação com o papel que teriam no filme.
Não pensei viver esse retrocesso na saúde e é preocupante a naturalidade com que se recebe a notícia das dificuldades do Imip, como se nelas não estivessem embutidas as vidas de milhares de pessoas menos favorecidas. Pessoas estas que por dever de consciência, humanidade e justiça, teríamos que zelar – ou será que precisaremos da foto de uma mãe com uma criança nos braços, morta, na porta de um hospital com as fronteiras fechadas, para atentar sobre a gravidade da situação.
Sou testemunha dos serviços prestados pelo Imip e da sua importância para a população do Estado. Não posso fazer muito e sei do esforço do secretário de saúde, mas garanto que se os governantes não tiverem sensibilidade para direcionar o pagamento do que devem, priorizando a vida das pessoas, me esforçarei para que todos percebam o verdadeiro papel de cada um, nesse filme de terror.
Fonte: Jornal do Commercio



