Medicina faz apostas para reduzir câncer de próstata

Rio de Janeiro – Quem tratar, quando tratar e como tratar. Esses são os três principais pilares de novas discussões acerca do manejo de pacientes com câncer de próstata no País. A doença, que é o segundo tumor mais prevalente entre os homens, com quase 70 mil novos casos por ano, tende a crescer ainda mais nos próximos anos, muito pelo envelhecimento natural da população masculina que passou a ter uma maior expectativa de vida. Neste cenário, frear a avalanche de novos casos é improvável. Por isso, os desafios da medicina voltam os esforços para alternativas de cura da doença, reduzindo a mortalidade e a morbidade dos homens diagnosticados. A palavra-chave para eles agora é personalização dos cuidados cada vez menos invasivos e aliados à tecnologia. Este foi um dos temas do III Congresso Internacional Oncologia D’OR e da XII Maratona Urológica, realizados no último fim de semana no Rio de Janeiro.

O coordenador científico do grupo D’OR, doutor em oncologia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Sociedade Internacional de Urologia (SIU), Daniel Herchenhorn explicou que a ciência tem buscado cada dia mais prezar pela qualidade de vida dos homens na hora da escolha pelo arsenal de tratamento. “O câncer de próstata é um tumor que gera muita morbidade. Isso porque a cirurgia e a radioterapia são tratamentos em que há, muitas vezes, a perda da qualidade de vida do paciente. O homem pode ter alterações na parte urinária, pode ter impotência”, confirmou o especialista.

Quando o assunto é custo x benefício entre diagnosticar e tratar o tumor, há uma polêmica dentro e fora dos consultórios. “Isso gera um grande debate entre diagnosticar sempre muito cedo a doença e começar um tratamento imediato. Muitas vezes o homem não sente nada quando descobre a doença em fase inicial, aí o médico apresenta tratamentos, que muitas vezes geram efeitos colaterais que o paciente não tem e que podem afetar a vida, inclusive a parte sexual”, comentou.

DIAGNÓSTICO – É por isso que as condutas médicas tendem a ser mais criteriosas sobre o perfil do paciente e terapias a serem utilizadas, causando o menor impacto na saúde integral. Herchenhorn destacou que muitas dessas escolhas dependem da descoberta do tumor em fase inicial, coisa que é difícil em várias regiões do Brasil. “No País, na América Latina e em países em desenvolvimento temos uma situação bem diferente da dos Estados Unidos, por exemplo, onde o lema é ‘ tratar além do que é necessário e diagnosticar além do necessário’. Aqui a maior parte dos homens chega com a doença tardia. Não é porque não buscam os médicos por medo ou preconceito, mas não conseguem ter um profissional que faça o toque retal, que faça uma ultrassom, que faça uma cirurgia”, criticou. É o acompanhamento regular de saúde que coloca tanto o médico quanto paciente em condições seguras de escolher terapias curativas eficazes.

Quando o tumor ainda está localizado, ou seja, não se espalhou para outras áreas fora da próstata ou para os ossos, o leque de tratamentos é grande e as chances de cura maiores. O gestor científico do D’OR enumerou as opções. Existe a cirurgia, que se divide na operação aberta clássica e a cirurgia robótica, uma novidade no Brasil. Ela ainda é pouco utilizada no País, mas nos EUA já ocorre em 90% dos casos. Há ainda a radioterapia, que deve ser preferencialmente pela técnica de IMRV. A braquiterapia, um tipo de radioterapia, onde são implantadas sementes de radiação na próstata do paciente. Outra opção em voga hoje é vigilância ativa. “Ele serve para pacientes que, eventualmente e por critério bem definidos, não vão precisar de tratamento imediato. Mas isso não significa não fazer nada. É na verdade observar o paciente e tratar no momento adequado”, frisou. Já para casos onde o paciente não pode fazer cirurgia ou radioterapias, seja pela idade avançada, seja pela baixa expectativa de vida por outras doenças se pode fazer um controle medicamentoso, chamado de tratamento hormonal.

Homens têm medo de incontinência e impotência

Um dos maiores medos dos homens acometidos por tumor de próstata é a cirurgia para a retirada da glândula doente. O pavor envolve a perda da função sexual e a incontinência urinária. Longe de ser mito, a duas morbidades tem taxas importantes quando se trata do método cirúrgico tradicional. “Os nervos que chegam ao pênis para dar ereção passam pela próstata, então quando a gente faz um tratamento radical o paciente, em 80% a 90% dos casos, pode ficar com impotência sexual. Há também um índice alto de incontinência urinária”, contou o urologista e cirurgião robótico, Rodrigo Frota.

Comparativamente, essas complicações caem quando comparadas com as experiências da cirurgia robótica, o que representam uma revolução no tratamento. “Na operação aberta, o paciente pode demorar até um ano usando fralda para recuperar sua continência urinária e tem chance alta, em torno de 80%, de ficar impotente.

Com o robô o paciente vai demorar um mês com fralda e tem uma chance de 60% a 70% de recuperar sua função sexual”, disse Frota. O médico explicou que a técnica é uma evolução da cirurgia laparoscópica, agora assistida por um robô. No que a cirurgia laparoscópica tradicional se diferencia da robótica? “Ela não tem incisão, são pequenos furos, o índice de sangramento é menor. Dessa forma, o trauma na cavidade dentro do nosso organismo é menor. As pinças são acopladas a uma plataforma robótica, e o cirurgião controla o robô. Há travas de segurança, de tremor, de movimentos. A visão é muito melhor e a liberdade de movimentos do cirurgião também. Isso traduz em referência de resultados”, informou sobre precisão e segurança da técnica.

Frota comentou que a operação robótica, criada primeiramente para os procedimentos de troca de válvulas do coração, caiu com luva para os procedimentos urológicos. “Hoje em dia nos EUA mais de 95% dos tratamentos oncológicos, urológicos, e muitas vezes ginecológicos, são feitos por essa tecnologia. Na Europa chega de 60% a 70%. Mas no Brasil ainda estamos caminhando”, comentou. Segundo ele, temos somente 16 plataformas robóticas no País, uma em Porto Alegre, uma em Fortaleza, quatro no Rio de Janeiro e dez em São Paulo. Das de São Paulo estão as únicas três disponíveis pelo SUS. “Enquanto isso os Estados Unidos têm 2,4 mil plataformas robóticas. A Turquia, 30”, exemplificou. Outro entrave a ser batido para popularizar as cirurgias por robô é a questão comercial, uma vez que os planos de saúde ainda não contrataram o procedimento.

Fonte: Folha de Pernambuco

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