Assim como outras infecções congênitas, o zika também pode causar transtornos mentais como autismo, esquizofrenia e DAH (déficit de atenção) em bebês. O alerta foi dado pelo professor Ian W. Lipkin, diretor do Centro para Infecções e Imunidade da Universidade de Columbia (EUA). O especialista vem chamando a atenção para esta possibilidade e reforçou a necessidade do Brasil monitorar as crianças que nascem de mães expostas ao vírus, mesmo que não apresentam microcefalia.
O médico e consultor do Ministério da Saúde para arboviroses, Carlos Brito, acha possível a relação entre o vírus e os transtornos mentais. “O zika tem formas não tão evidentes. A gente já sabe hoje que há variações de apresentação dele no sistema nervoso central. Essa é minha opinião pessoal, também baseada no que já foi descrito em outras infecções congênitas”, disse.
Para o consultor é primordial que todos os bebês, com ou sem microcefalia, filhos de mães que apresentaram sinais suspeitos de zika sejam acompanhados pelo menos até os dois anos de vida.
O governo brasileiro se comprometeu em monitorar os bebês até os três anos, e em Pernambuco a indicação é de cinco. “Não seria uma surpresa”, avaliou o secretário de Saúde do Recife e pediatra, Jailson Correia, sobre a possibilidade da ocorrência do autismo. O gestor comentou que a avaliação mais sensíveis dos bebês deve virar regra.
Mesmo nos bebês que nasceram com o tamanho da cabeça normal, mas que tiveram contato com o vírus na gestação, determinar o autismo por zika é complicado devido à fragilidade dos testes sorológicos atuais. A neuropediatra explicou que o autismo é um transtorno do desenvolvimento cerebral, que ainda não tem todos os mecanismos conhecidos.
A especialista exemplificou que nos Estados Unidos pediatras são orientados a descrever comportamentos suspeitos das crianças a partir do 1ª ano de idade e em caso de necessidade iniciar a investigação para o autismo. Para tanto o profissional conta com a participação das famílias para perceber sinais de alerta.
A Secretaria Estadual de Saúde (SES) não foi notificada da possível relação entre zika e transtornos mentais em bebês. Também não há dados oficiais ainda se houve aumento de casos de crianças com autismo, esquizofrenia e DAH de 2015 para 2016.
Para ela, o mais importante nas famílias com bebês já identificados com microcefalia, ou outra apresentação neurológica do zika, é a realização de um trabalho coordenado das terapias de estimulação. “É preciso todos trabalhando juntos. Equipes trabalhando como orquestra. O que é importante para a microcefalia é que tem que ser uma equipe multidisciplinar unida. Uma hora o maestro vai ser o fonoaudiólogo, outra hora o psicólogo, na outra hora o terapeuta ocupacional”.
A psicopedagoga Monalisa Costa comentou que algumas pessoas com autismo têm alterações no cérebro que dificultam o processo de estímulo-resposta, mas que ainda é cedo precisar se o zika é capaz de provocar tais danos neste circuito comportamental.



