Este homem, o marido e pai continuou para convencer o grupo de mulheres que dedicam parte do seu tempo uma, duas, três vezes na semana para atender os anseios do próximo. “A senhora é mãe?, então a senhora escreve como se fosse a mãe de meu filho. Queria que dissesse para ele ter calma. Não chore. Diga a ele que vai se encontrar com ela um dia no céu, diga que seja uma boa pessoa. Que tenha cuidado, que não faça coisas erradas…”. Era o que qualquer mãe poderia dizer para um filho, caso soubesse que teria as últimas recomendações a fazer sobre o futuro. Ou era o que qualquer pai que ama desejaria que o filho tivesse como norte para a vida adulta.
Ao lado de dona Maria da Paz estava Tatiana Marques, que há quase dois anos se tornou voluntária do Hospital do Câncer de Pernambuco e que me fez este relato sobre o que viu e ouviu esta semana. “O senhor acha isso certo?”, questionaram. Ele se manteve firme. Dentro do seu desespero, achava. Parecia tão determinado que já tinha consigo folha e papel para a carta. Dona Maria da Paz pegou-as, afastou-se e começou a rezar, segundo ela para pedir orientação Divina para as palavras certas. Como se fosse a mãe do garoto, explicou que não coube a ela a decisão da partida, mas que teria chegado a hora de ir e não deu tempo de dizer tudo a ele. Todos os dias, contou Tatiana, a mãe fazia questão de pedir um telefonema para o filho que mora no interior de Pernambuco. A carta falou ainda do pai do menino, lembrando que enquanto marido era carinhoso e dedicado, e citou a promessa que ele pediu pra mencionar (“diga que eu vou cuidar dele”). O que Tatiana lembra da mãe que se foi: “Acho que a paciente ficou na unidade de cuidados paliativos cerca de um mês. A gente sempre via ele na beira da cama da mulher e tinha por hábito alisar o cabelo dela”. O mesmo cabelo que fazia forte contraste com a pele pálida e as olheiras cada dia mais acentuadas.
O texto teve duas páginas escritas a punho. “Um dia, quando você crescer, você saberá a alegria que me deu em vida”, confortava, para emendar as recomendações sobre ser uma pessoa do bem. A carta foi uma declaração de amor como o pai queria deixar para o menino que irá criar. Das mãos das voluntárias, recebeu-a “extremamente emocionado”.
Esta é uma história da vida real. E uma história pascoal. Desconhece-se o nome do homem, mas para Tatiana Marques, dona Maria da Paz Azevedo e amigas esse pai, ao pedir uma carta para seu filho, falou de amor, de promessa, de reencontro e de renascimento.

Fonte: Diario de Pernambuco



