Dados preliminares do primeiro estudo científico sobre as complicações neurológicas que apareceram no período da tríplice epidemia em Pernambuco (vivenciado em 2015 e 2016) revelam que nove pacientes evoluíram com doença neuroinvasiva causada pela infecção simultânea pelos vírus da dengue, chicungunha e zika. Os achados foram apresentados na manhã de ontem, durante encontro entre pesquisadores do Grupo Neurozika, que congrega especialistas da Fiocruz Pernambuco e do Serviço de Neurologia do Hospital da Restauração (no Derby, área central do Recife), onde o evento foi realizado.
“Acabamos de analisar uma grande série de casos: dos 212 pacientes investigados com comprometimento neurológico, 140 estão associados a arboviroses. A maioria deles apresentou coinfecção. Ou seja, são pessoas que adoeceram por mais de um vírus ao mesmo tempo”, informa a médica Fátima Militão, pesquisadora do Departamento de Saúde Coletiva da Fiocruz Pernambuco. Ela salienta que, entre os 140 casos, 67 estão associados à coinfecção. “Desses, 50 foram por zika e chicungunha simultaneamente. Eles se somam aos nove relacionados ao adoecimento simultâneo por dengue, chicungunha e zika. É provável que (essas pessoas) tenham sido (picadas) por mosquitos com vírus diferentes que, em oportunidades próximas, picaram o mesmo paciente”, acrescenta.
Durante o encontro, Fátima destacou que o grupo agora quer saber o potencial de agressividade da tripla (e também dupla) infecção. “Investigamos se esses casos são mais graves e como esses pacientes vão evoluir, em termos de sequelas, a médio prazo.” Em busca de novos caminhos que possam elucidar dúvidas, o Grupo Neurozika estabeleceu uma cooperação com pesquisadores ingleses. Ontem, no Hospital da Restauração (HR), o neurologista Tom Solomon, da Universidade de Liverpool (Inglaterra), ministrou palestra sobre o cenário das complicações neurológicas que ele tem pesquisado, com destaque para a encefalite japonesa, endêmica em países asiáticos. “É cedo para apontarmos se a evolução dos pacientes com encefalite por zika é diferente da causada pelo vírus da encefalite japonesa”, diz Solomon, que vê enigmas, assim como especialistas brasileiros, nas manifestações graves e neurológicas associadas à chicungunha e zika.
“Os pesquisadores da Universidade de Liverpool estão numa cooperação conosco. Eles têm tecnologia para fazer a parte laboratorial que pode nos ajudar muito a entender todo esse processo de infecção e os mecanismos imunológicos relacionados às arboviroses”, reforça a médica Maria Lúcia Brito, chefe do Serviço de Neurologia do HR, referência no tratamento de pacientes com comprometimento neurológico causado por arboviroses.
Ontem, no HR, um jovem de 13 anos diagnosticado com a síndrome de Guillain-Barré, doença neurológica autoimune que pode levar à paralisia, recebeu alta após 15 dias em tratamento no hospital. Os sintomas começaram com fraqueza nas pernas. “Ele não conseguia ficar em pé. Fez exame e apresentou plaquetas baixas (um sinal de arbovirose)”, contou a mãe do jovem. Feliz por voltar para casa caminhando, ele comemorou: “É como se eu estivesse andando pela primeira vez”.
Fonte: Jornal do Commercio



